Disco V {(1965)}: Help \\|// Acuda #thebeatlesemportugues

05. Acuda!
06 de Agosto de 1965
05-1A. Acuda
Socorro! Preciso de ajuda
Socorro! Não é qualquer ajuda
Socorro! É pra ajudar alguém Acuda!!

Quando era jovem, bem mais jovem do que sou
Nunca precisei de ajuda de nenhum tipo
Esses dias se acabaram, já não me resta socorro
finalmente abri minha mente, resolvi abrir asportas

Ajuda-me alguém, me sinto mal
Preciso de alguém me dar a mão
Ajuda-me alguém a achar o chão
Ninguém vai me socorrer?

Depois disso parece que mudei da água para o vinho
Minha independênca é uma vaca no brejo da incontinência
E de vez em quando ou talvez sempre me sinto tão inseguro
Agora eu sei o que é precisar de alguém como eu nunca precisei antes

Socorro, acuda-me!

05-2A. A noite de ontem
Nos dissemos adeus, isso foi a noite de ontem
Tinha amor nos olhos, isso foi a noite de ontem
Agora é que percebo: você correu de medo!
Vamos ficar de novo que nem na noite de ontem

Para que contar mentiras? Isso foi a noite de ontem
Acreditaria em tudo, isso foi a noite de ontem
Você olha os meus gestos, te sinto tão sincera
Vamos ficar de novo que nem na noite de ontem

Da noite de ontem vou me lembrar sempre
Quando vejo o que vivemos me faz querer explodir

05-3A. Você tem que esconder o amor nas mãos
Cheguei aqui, coração nas mãos
O muro da lamentação
Se ela partir, acabou pra mim
Me pegou a solidão
Acabou o meu quinhão de paz
Para agora e todo o sempre
Duvidam do que sou capaz
Para mim, só me comentam:

Ei!, você tem que esconder o amor nas mãos
Ei!, é pra guardar o amor com as mãos

Será que devo me permitir
Eu também sei ganhar
Com toda essa pressão em mim,
Só vou conseguir falhar
A coragem dela em me dizer
O mistério é que o amor tem seus meios
Se juntem, gente, deixem-me ouvir
Conte-me o seu receio

05-4A. Preciso
você ainda vai entender o quanto de ti preciso
te amo o tempo todo e mão desisto
volte agora para mim
estou muito infeliz
preciso

você tentou dizer de vários jeitos
mesmo com todos sinais eu não me ligo
não pude acreditar no que dizia o teu olhar
você disse

r1.
você me disse que estava devolvendo o meu amor
isso machuca, o amor não é assim algo que causa dor

r2.
quando disse, que estava devolvendo o meu amor
isso sufoca, o amor não é algo que está aí e causa dor

nunca se esqueça do meu amor
a vida sem você não tem nenhum valor
pode voltar para mim
se entendeu que te amo, sim
preciso

05-5A. Um outro amor
Porque eu já achei um outro amor, um outro amor
Nunca me canso de dizer: minha vida é você
A partir de hoje, não vá esquecer que tenho um novo querer
Não sou nenhum otário e sei muito bem o que levo pra casa

Porque eu já achei um outro amor, um outro amor
A mais descolada de todas mulheres que já conheci
Ninguém neste mundo vai fazer o que ela sabe fazer
Por isso eu aviso, “Este é meu limite, e é melhor parar por aí!”

r.
Porque eu já achei umn outro amor, um outro amor
Que vai me amar até o fim
Vamos provar do doce e do amargo
Vai estar sempre do meu lado

Não dá pra negar, com você nunca fui infeliz
A partir de hoje, não vá esquecer que tenho um novo querer
Não sou nenhum otário e sei muito bem o que levo pra casa

05-6A. Esta mulher você já perdeu
Você vai perder esta mulher
Esta mulher você já perdeu

Se não sair com ela hoje à noite
Ela vai mudar de idéia
Vou sair com ela hoje à noite
Eu sei ]lhe fazer bem

Se não lhe fizer bem, rapaz,
Vai perder esta mulher
Eu sei lhe fazer bem, e então
Ela vai queer ser só minha

Vou fazer tudo
Vou arrancá-la de você, te botar para correr
Do jeito que a trta
Ela não fez isso por merecer

05-7A. Bilhete do amor

É hora de dizer adeus
É hoje o dia
A menininha se foi
Levou minha alegria

Ganhou o bilhete para andar
Ganhou o bilhete de amar
Ganhou o bilhete para andar
E ela não quer

Ela disse que morar comigo
Era igual na prisão
Sempre que eu estava perto
Era muita tensão

Ela tem que se lembrar de quem é
Qual é o jogo?
Olha um pouco só pra mim
Não deixe ela largar do teu pé
Qual é o jogo?
Olha um pouco só pra miom
05-1B. Minha naturalidade

Disseram que iam me colocar nuns filmes
Que fariam de mim uma estrela da noite para o dia
Tinham lá uma história de um cara triste e sozinho
Eles só precisavam usar minha naturalidade

r.
Aí tú já viu, vou ser um dos fita
Vai que ganho Oscar, não tem como antever
Os filme vai me fazer fita
Eu sou a melhor escolha pro papel

Eu queira que me visse em alguns dos meus filmes
Daí eu ia ter certeza de vece ter entendido
Que já conheceu um pánaca que é famoso
E eu só precisei usar minha naturalidade

Estávamos noi filme do tal cara triste e sozinho
Joelhos no chão, esmolas por salvação
Me deram um personagem e me dispensaram dos ensaios
E só me pediram a minha naturalidade

05-2B. Isto é amor

Eu páro quando te vejo andar
Ai, meu deus
Teu sorrir, dentro me faz voar
Camafeus
Por que tanta timidez se estamos juntos?

r.
Isto é amor, é isto o que é
Um sentimento que não é ruim
Isto é amor, é isto que é
Mas é ruim demais te amar assim
Porque é ruim demais te amar assim
05-10
You like me too much

05-11
O que é que você vê?

05-5B. Acabei de ver uma alguém

Acabei de ver uma alguém
não esqueço dia e lugar
quando nos conhecemos
Ela é a garota certa pra mim
o mundo inteiro tem que saber
que nos conehcemos

Fosse de algum outro jeito
talvez olhasse para outro lado
e nunca nem teria notado
Mas do jeito que aconteceu
eu vi que é ela no meu sonho
de toda noite

Caio
Eeu só caio
é assim que volto
inteiro pra ela
05-6B. Antigamente

Antigamente
Meus problemas estavam no além-mar
Agora vieram todos pra ficar
Eu acredito no antigamente

De repente
Sobrou metado do que costumava ter
Tem um fantasma encarnado em mim
O antigamente chegou de repente

Por que ela se foi
eu sei lá, não quis dizer
Eu fiz algo ruim
eu só espero o antigamente

Antigamente
O amor era um jogo fácil de ganhar
Hoje eu tenho onde me afugentar
Eu acredito no antigamente.
05-14. Dizzy miss Lizzy

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Disco III {(1964)}: A hard day’s night \\|// A difícil noite de um dia #thebeatlesemportugues

          salve salve, minha trabalhadora & ectoplasmática bloguesfera nossa de cada dia. mais um artigo dedicado a aniversário de publicação de disco dos #TheBeatles aqui neste PíLuLaS De PéRoLaS LiTeRáRiAs que vos escreve, o seu canal de tradução em versão integral para português canarinho Herbert Richards sacodindo a poeira.

          o disco de hoje é o terceiro da banda – o primeiro com 100% composições autorais do quarteto – e o primeiro que ecoou nos quatro cantos deste planetinho nada quadrado, nem plano. “A hard day’s night” foi o primeiro disco que o mundo inteiro ouviu, & é o recorde de traduções para o português, todas no lado A: Wander Wildner fez uma versão para a faixa-título; Os Originais gravaram a faixa 03, “I should have known better”; Rita Lee arrisca sua versão para a faixa 04, “If I feel”; & Roberto Carlos arremata os corações das jovenzinhas com “And I love her”, faixa 05 do lado A. o conceito do disco envolvia a produção de um filme, filmado ao longo de 16 semanas entre Março/Abril daquele ano, lançado no Reino Unido quatro dias antes do disco, & era uma mistura de documentário com ficção, cobrindo 36 horas de vida do quarteto mais famoso grupo de música popular até aquele momento da História.

          no filme consta todo o lado A – talvez isso tenha favorecido a recepção & adaptação ao português das faixas deste lado do disco, às vezes em tentativas muito boas & imediatas (como a de Rita Lee & de Robertão, gravadas por aqui algumas semanas depois de aparecer), outras vezes em tentativas lamentáveis (os The Originals são os reis da comédia pastelão!); às vezes até demorou anos para chegar (como a competente, mas incompleta, versão de Wander Wildner). o filme mesmo funciona como uma desculpa para os rapazes de Liverpool pegarem seus instrumentos (ou, improvisarem com objetos de cena) & fazerem o que sabem melhor: entreter. a linha que conduz o filme é a de que os rapazes viraram prisioneiros de sua própria fama!

          no disco, começa a ficar evidente o talento dos compositores: pode ser que nem Ringo Starr ou George Harrison tenham contribuído com alguma letra, mas é o primeiro disco em que o grupo não empresta composições de nenhum outro autor.

          e agora sem maiores delongas, já posso lhes apresentar aquele muito nosso conhecido dooooooos irmãããããããos Briiiiiiiiitos,

A hard day’s night \\|// A difícil noite de um dia
Lançamento mundial pela EMI Studios em 10 de Julho de 1964

03-01 A difícil noite de um dia (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Eu trabalhei o dia inteiro e tô cansado pra caralho
Eu me virei feito um cão mas tô saindo do trabalho
Vou dar um rolê na citèe beber um vinho no “Öxxxé”
Se é com você, então tudo bem

Eu trabalhei o dia inteiro pra gente ter mais do que pão
O que faz valer é te ouvir dizer que quer me dar mais do que a mão
Pra que então reclamar Se está nós dois no sofá
E é só você Então tudo bem

É só lá em casa que tudo parece ficar bem
É só lá em casa que dá pra apertar você bem forte

03-02 Não imaginava isso vindo de você (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Ow, ow, ow não imaginava isso vindo de você
Não tem maneira de não te querer
Só você ei, ei, ei Só você

Ow, ow, ow nunca imaginei que ia beijar você
Isso é muito bom A gente acontecer
Você já vê ei, ei, ei Você já vê

Eu já te disse que te amo
Você me ama e diz também
Naquela noite veio o beijo (ai! ai! ai!)
A gente está até hoje juntos

Ow, ow, ow já estava vendo antes disso acontecer
Se vai amar não precisa sofrer
Sem sofrer ei, ei, ei Sem sofrer
Ow, ow, ow nunca imaginei que ia beijar você
Isso é muito bom A gente acontecer
Você já vê ei, ei, ei Você já vê

03-03 Se me apaixonar (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Se me apaixonar por ti
Diz que vai olhar por mim
Ajudar na minha compreensão
Já amei uma outra vez
E achei que o amor é mais
Do que só estar com as mãos

Se quiser minha afeição
Desde o começo
Eu tenho que saber
Que só vai gostar de mim

Se eu te esperar, amor!
Não finja que
Não me vê
O amor é fácil machucar

Não cause magoação de ver
Que esse nosso novo amor foi em vão!

Já deu pra entender que eu
Amaria te amar
A sua outra vai chorar
Quando ver que foi feito pra mim
Se me apaixonar por ti

03-04 Pra me contentar é só dançar com você (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Antes de a gente deixar este salão
Eu vou tentar de tudo para te amar muitão
Pra me contentar é só dançar com você

Eu não beijo nem a tua mão
Me entende, chega aqui juntão
Não tem nada mais que eu queira fazer
Pra me contentar é só dançar com você

Eu não quero ter que te alugar
Temos a noite toda para bailar
Não tem nada mais que eu possa fazer
Pra me contentar é só dançar com você

Quem tentar roubar você de mim
Vai jogar fora o esforço até o fim
Não tem nada mais que eu possa fazer
Pra me contentar é só dançar com você

03-05 Eu te amo (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Lhe dei o meu amor todo o que tinha
Te mostro o meu amor e me amaria
Eu te amo!

É meu o que ela tem igual ninguém
O beijo que meu amor traz quando vêm
Eu te amo!

Um amor igual
não vai mais ter
vamos ficar
bem juntinhos

Brilha a estrela no céu no escuro céu
Amor igual ao meu não morre mais
Eu te amo!

03-06 Me diz pra quê (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Me diz pra que vai chorar e tentar mentir pra mim
Me diz pra que vai chorar e tentar mentir pra mim

Tudo o que eu tinha virou teu
E você me deixou amargurado e só
Pra que me tratar tão mal assim?
Me enforcar e chorar é só o que restou

Será que disse ou então fiz algo ruim?
Me diz por onde começo a me desculpar
Se você não está mais mesmo a fim
Já posso abrir a torneira e chorar

Eu já pedi para você me perdoar
Será que ainda pode me ouvir?
Diga se ainda pode me ouvirmos
Sem você não posso, não vou conseguir

03-07 O meu amor não tem preço (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Te dou um anel de diamantes Se isso é o que você quer
Te arrumo o que é que for preciso Seja lá o que você quiser
Não tô nem aí para a grana
O meu amor não tem preço

Te dou tudo o que for meu É só dizer que me ama também
Neném não tenho tanta coisa assim Mas o que for meu é seu também
Não tô nem aí para a grana
O meu amor não tem preço

O meu amor você ganha é o que todo mundo diz
Meu amor não tem preço não não não não!

Você diz não querer riquezas O que só me faz tranquilizar
Você diz que só tem interesse No que a grana não vai comprar
Não tô nem aí para a grana
O meu amor não tem preço

03-08 Qualquer hora que for (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Qualquer hora que for, seja a hora que ser
Qualquer hora que for, já basta me ligar e eu chego aí

Se procura um alguém para amar
Basta me olhar nos olhos
Eu estou aqui para te fazer sentir bem

Se estiver deprimida e triste
Eu tento te entender
Não fique assim, é só ligar para mim

Se a Sol já se foi embora
Eu sei fazer brilhar
Por você sou capaz de tudo

Se procura um ombro para chorar
Pode ficar com o meu
É só me ligar e eu chego aí

03-09 Vou chorar por aí (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Tenho todos os motivos para ficar bravão
Consegui perder a mulher do meu coração
Se soubesse de um jeito
Iria hoje pra prisão
Mas não sei, vou chorar por aí

Tenho um osso no meu ombro maior que o pé
Todo mundo que conheço é mané
Se ouvisse o que tenho pra dizer
Eu só sei te fazer sofrer
Mas não sei, vou chorar por aí

Não quero chorar, tenho pessoas em casa
Me sinto pressionado quando elas olham
Só quero me esconder, ei, ei, ei
Vou dar um jeito de voltar para você

Quando eu voltar é melhor trancar todas as meninas
Porque vou magoar cada uma delas no mundo todo
Sim, vou partir cada uma em duas, daí você vai ver o que seu namorado pode fazer
Até lá, vou chorar por aí

03-10 Como se diz [as coisas] por aqui (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Prometeu me amar
Mesmo quando longe
Ia até pensar em mim
Eu ia sentir

Um dia, bem sozinho
Querendo estar bem perto de ti
Daí me lembraria
De como se diz por aqui

Minha ia só ser
Até o fim dos tempos
Por aqui isso é bastante
Difícil de encontrar

Um dia, no sonho
Apaixonados, nada por dizer
Daí me lembraria
De como se diz por aqui

Eu, um cara de muita sorte
Amando você que diz que o amor é sorte
Podemos até estar cegos
Já basta saber que o amor chegou

Te fazer só minha
A minha garotinha
Amor pra vida afora
Nois dois e o depois

03-11 Chegando em casa (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

O, a
Eu tenho mais um monte de coisas para te dizer
Chegando em casa

Vai embora, suma da minha frente
Eu quero logo ver minha pequena
Para dizer aquilo tudo que pensava

Vai embora, suma logo
Não tenho tempo para as cerimonias
Só uma pequena que me espera em casa

Assim que chegar em casa
Vou aperta-la e beijar tambem
Amar como se faz até de manhã cedo

E vou amar mais ainda assim que sair
Pela porta afora
Ir embora

Vai embora, me deixe passar
Tenho um monte de coisas ainda pra arrumar
Não tenho o que fazer ficar assim
Eu e você

03-12 Isto não se faz (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Ouça de mim um recado que vai te deixar mal
Se eu te pego conversando com aquele moleque mais uma vez
Eu vou te deixar mal
Vou embora pra sempre

Eu já avisei que
Isto não se faz
Olha lá, te peguei conversando com ele mais uma vez
Como ainda não entendeu que isso é errado

Eu vou te deixar mal
Vou embora para sempre
Eu já avisei que
Isto não se faz

Todos tem inveja
De mim por ter ganhado seu amor
Deixa eles saberem
Que você é assim, eu viro piada

Trate de me ouvir, se quiser ficar junto
Não sei me segurar, eu vou voar nele
Eu vou te deixar mal
Vou embora daqui para sempre
Eu já avisei que
Isto não se faz

03-13 Talvez voltar depois (letras de John Lennon & Paul McCartney, transcriação de r.l.almeida. propriedade de Sony\ATV Music Publishing)

Já viu, magoou meu amor eu vou
Talvez voltar depois
Pra ti eu ja disse um outro adeus
Talvez voltar depois

Te amo muito
Sou eu que tanto te quer bem
Sim sou que tanto
Te quer bem, ah, o

Existem um milhão de coisas mais legais
Do que magoar meu amor de novo
Vem que desta vez vou te mostraram
Como já te esqueci

Eu achava que ia imaginar
Que mesmo se fugisse de você
Você ainda ia me querer
Mas eu sei como te surpreender, ah, o

 

disco-niversário, uma tradução: “Parabolicamará” \\|// “Satellite companion” (Janeiro de 1992)

          este artigo celebra o aniversário de Gilberto Gil, nome de escritor de Gilberto Passos Gil Moreira, nascido no vigésimo sexto dia de Junho do ano de 1946, na capital da Bahia. na música tupiniquim, Gil é a outra metade do inconsciente coletivo brasileño da virada das décadas de 1960 para 1970 – a outra metade logicamente significando Caê, seu meio-irmão de alma & percurso.
          filho primogênito do médico José Gil Moreira & da professora primária Claudina Passos Gil Moreira, neto de dona Lídia Moreira, a família vivia num ir & vir da capital para o interior, do bairro do Tororó para cidades como Ituaçú, resultado da procura do provedor por emprego.
          aos 9 anos de idade ganha o primeiro instrumento musical, um acordeão – a fabulosa sanfona de outros recantos. por muito tempo, sua principal influência popular foi Luiz Gonzaga, por achar assemelhado o Brasil que Luiz Gonzaga cantava protagonizando suas letras. aos 12 anos organiza “Os desafinados”, primeira reunião musical de amigos. por volta dos 13 anos já é apadrinhado no grupo de Dorival Caymmi & Jorge Amado, seguindo a correnteza lógica da música que vinha com as areias das Dunas & o marulhar do Oceano. em 1958 João Gilberto lança o paradigmático “Chega de saudade”: está marcada assim a santíssima trindade sob a qual Gil vai erigir sua obra.
          foi também em 1958 que Jorge Amado publicou o livro que o alçou ao mundo, “Gabriela cravo e canela”. em 1960, Gil adentra a Universidade Federal da Bahia, de onde sai com o diploma de bacharel em administração pública, em 1964. o diploma o leva para São Paulo, a capital-cinza, para trabalhar como estagiário de publicidade na Gessy-Lever, mas seus contatinhos de faculdade (tais como José Capinan, Rogério Duprat, o próprio Caê & o grupo Os Mutantes) insistem em levá-lo ao mundo musical.
          chega o Maio de 1967. Gilberto Gil publica “Louvação”, primeiro disco de longa-duração – saíram como divulgação em single as faixas “Procissão” & “Ensaio geral”. produção da Philips/RCA de João Neto, com arranjos de Dori Caymmi, Carlos Monteiro Souza, Bruno Ferreira, nas letras parceirando com Caê, Capinan, Torquato Neto, João Augusto, o disco traz 14 faixas em que o autor visita suas raízes nordestinas, o carnaval, o frevo&o baião, as baladas dos anos cinqoenta, a bossa nova, o samba. talvez o passo mais ousado de todo o disco seja a faixa três deste disco, “Lunik 9” – parceria com Torquato Neto. em “Água de meninos”, é parceria com Caê, que a cantava como “Beira-mar”, música que narra um incêndio & pedra fundamental do que há de comum entre os dois – assim como Gilberto Gil, Caê sobreviveu ao horror da raiva hidrofóbica dos verdugos! vale a pena lembrar: este era só o disco de estréia, em uma carreira que contabiliza 27 discos de estúdio, até o momento de publicação deste artigo. em Agosto deste mesmo ano de 67, acontece o terceiro festival de Música da Rede Record, de onde Gil sai laureado com o segundo lugar & a faixa final do seu próximo disco, “Domingo no parque”.
          o disco seguinte, “Frevo rasgado” (Maio de 1968), é considerado a pedra fundamental da Tropicália, porque une de vez fotógrafos, musicistas, coreógrafos, pintores & escritores querendo digerir “Sargeant Peppers” para aqueles que vivem ao Sul da linha do Equador: “Luzia Luluza” é a faixa principal deste Manifesto; e onde “Domingo no parque” funciona como introdução ao léxico do grupo; nos dias de hoje, este disco finaliza com “Questão de ordem”, que só foi adicionada à playlist para o relançamento comemorativo das bodas de ouro do disco, numa total compactuação com as guitarras elétricas ou quaisquer outros instrumentos musicais.
          em 1967, Gil comete casamento com a da filha de Dorival e de dona Stella Maris, Dinahir Caymmi – Nana, a primogênita, irmã mais velha de Dori e de Danilo. é decretada sua prisão em Dezembro de 1968, quando Gil tinha um programa na televisão & encontrava-se em excursão pelo país com seus amigos tropica-valentes. uma presença era constante no palco: a bandeira nacional com a intervenção de Hélio Oiticica, “Seja marginal, seja herói”, transformam Caê e Gil em prêmios principais do Ato Institucional número cinco: os dois são presos alguns dias depois do Natal de 1968, e amarguram até a Quarta-feira de Cinzas em um quartel, no Rio de Janeiro, quando são liberados para prisão domiciliar. suportam esta situação até Julho de 1969, quando realizam um show de despedida do Brëzyl no Teatro Castro Alves, optando por um exílio nas Zooropas, primeiro em Lisboa, depois em Paris,  finalmente fixando residência em Londres.
          para o país, Gil retornará somente no ano de 1972. dono de uma carreira musical mundialmente premiada, amplia sua ação ao plano político, agindo diretamente na vida das pessoas para quem cantava: assume a vereança em sua cidade de origem no período 1989 ~1992; em 1997, é condecorado com a Ordem Nacional ao Mérito do governo francês; em 1999, é nomeado “Artista pela Paz” pela UNESCO; finalmente, de 2003 a 2008, trabalha como Ministro da Cultura, implementando mais de 2500 Pontos de Cultura em 1122 cidades do país.
          para o exercício de tradução de hoje escolhi o 13o disco de Gil, “Parabolicamará”, de 1992. neste disco, “Um sonho” é a faixa que primeiro puxou minha atenção, onde o eu-lírico narra um sonho que teve, um discurso para muitos gravatas importantes em um grande fórum mundial – um sonho que lhe veio quase 13 anos antes de acontecer de verdade!

 

PARABOLICAMARÁ (lançamento de Janeiro de 1992, Warner Music)

 

 

A.01-MADALENA (ENTRA EM BECO SAI EM BECO) (Isidoro)
Fui passear na roça

Encontrei Madalena

Sentada numa pedra

Comendo farinha seca

Olhando a produção agrícola

E a pecuária

 

Madalena chorava

Sua mãe consolava

Dizendo assim

Pobre não tem valor

Pobre é sofredor

E que ajuda é Senhor do Bonfim

 

Entra em beco sai em beco

Há um recurso Madalena
Entra em beco sai em beco

Há uma santa com seu nome

 

Entra em beco sai em beco

Vai na próxima capela
E acende uma vela

Pra não passar fome

 

 

A.02-PARABOLICAMARÁ (Gilberto Gil)
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje o mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
De tamanho da antena parabolicamará

Ê, volta do mundo camará
Ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
Eo horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes dende casa camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade

Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar

 

Esse tempo nunca passa

Não é de ontem nem de hoje

Mora no som da cabaça

Nem está preso nem foge

No instante que tange o berimbau, meu camará

Esse tempo não tem rédea

Vem nas asas do vento

O momento da tragédia

Chico Ferreira e Bento

Só souberam na hora do destino apresentar

 

A.03-UM SONHO (Gilberto Gil)
Eu tive um sonho Que eu estava certo dia
Num congresso mundial Discutindo economia

Argumentava em favor de mais trabalho, mais

empenho, mais esforço, mais controle, mais valia

 

Demonstrei de mil maneiras
Como que um país crescia
E me bati pela pujança econômica

Baseada na tônica da tecnologia

 

Apresentei estatísticas e gráficos

Demonstrando os maléficos efeitos da teoria
Principalmente a do lazer, do descanso

Da ampliação do espaço cultural da poesia

Disse por fim para todos os presentes
Que o pais só vai pra frente se trabalhar todo dia
Estava certo de que tudo o que  eu dizia
Representava a verdade pra todo mundo

Foi quando um velho levantou-se da cadeira
E saiu assoviando numa triste melodia

Que parecia um prelúdio bachiano
Um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha

E no salão todas as bocas sorriram,
Todos os olhos me olharam, todos os homens saíram
Um por um,

Um por um,

Um por um,

Um por um.

 

Fiquei ali naquele salão vazio,

de repente senti frio e reparei que estava nú!
Me despertei, assustado e ainda tonto,

Me levantei e fui de pronto pra calçada ver o céu azul
E os operários escolares que

passavam Davam risada

e gritavam

Viva o índio do Xingú!

 

Viva o indio do Xingú,

Viva o índio do Xingú,

Viva o índio do Xingú.

 

A.04-BUDA NAGÔ (Gilberto Gil)
Dorival é ímpar
Dorival é par

Dorival é terra

Dorival é mar

 

Dorival tá no pé

Dorival tá na mão

Dorival tá no céu

Dorival tá no chão

 

Dorival é belo

Dorival é bom

Dorival é udo

Que estiver no tom

 

Dorival vai cantar

Dorival em CD

Dorival vai smbar

Dorival na TV

 

Dorival é um buda nagô

Filho da casa real da inspiração

Como príncie principiou

A nova idade de ouro da canção

Mas um dia Sanhô

Deu-lhe a iluminação

Lá na beira do mar (foi)

Na praia de armação (foi não)

Lá no jardim de Alá (foi)

Lá no alto sertão (foi não)

Lá na mesa de um bar (foi)

Dentro do coração

 

Dorival é Eva
Dorival é Adão

Dorival é lima

Dorival limão

 

Dorival é a mãe

Dorival é o pai

Dorival é o peão

Balançamas não cai

 

Dorival é um monge chinês

Nascido na Roma negra, Salvador

Se é que ele fez fortuna ele a fez

Apostando tudo na carta do amor

Azes, damas e reis

Ele teve e passou

Teve o mundo aos seus pés

Ele viu e nem ligou

Seguidores fiéis

E ele se adiantou

Só levou seus pincéis
A viola e uma flor

 

Dorival é índio

Desse que anda nú

Que bebe garapa

Que come beijú

 

Dorival no Japão

Dorival samurai

Dorival é anação

Balança mas não cai

A.05-SERAFIM (Gilberto Gil)
Quando o agogô soar

O som do ferro sobre o ferro

Será como o berro do carneiro

Sangrado em agrado ao grande Ogum

 

Quando a mão tocar o tambor

Será pele sobre pele

Vida e morte para que se zele

Pelo orixá e pelo ogum

 

Kabiêcile vai cantando o ijexa pro pai Xangô

Eparrei oraieié pra Iansã e mãe Oxum

Obabi olorum kozi como deus não há nenhum

 

Será sempre axé

Será paz será guerra Serafim

Através das travessuras de Exu

Apesar da travessia ruim

 

Há de ser assim

Há de ser sempre pedra sobre pedra

Há de ser tijolo sobre tijolo

E o consolo é saber que não tem fim

 

 

B.01-QUERO SER TEU FUNK (Gilberto Gil, De e Liminha)
Quero ser teu funk
Ja sou teu fa numero um

Agora quero ser teu funk

Ja sou teu fa numero um

 

Funk do teu samba

Funk do teu choro

Funk do teu primeiro amor

 

Rio de Janeiro

Bela Guanabara

Quem te viu primeiro pirou

 

Chefe Arariboia que andava

De Araruama a Itaipava
Nao cansava de te adorar

 

Depois te fizeram cidade

Te fizeram tanta maldade

E um Cristo pra te guardar

 

Funk do teu morro

Funk do socorro

Que o pivete espera de alguem

 

Rio de Janeiro

Sou teu companheiro

Mesmo que nao fique ninguem

 

Mesmo que Sao Paulo te xingue

Porque te cobica o suingue

O mar, a preguica, o calor

 

Lembra da Bahia que um dia

Ja mandou Ciata, a tia

Te ensinar kizomba nago

 

Funk da madrugada

Funk qualquer hora

Funk do teu eterno fa

 

Funk do portuga

Que te amava outrora

Agora funk da turista alema

 

Rio de Janeiro, Rocinha

Sempre a te zelar, Pixinguinha

Jamelao, Vadico e Noel

 

Funk sao teus arcos da Lapa

Funk e tua foto na capa

Da revista amiga do ceu

 

 

B.02-NEVE NA BAHIA (Gilberto Gil)
Xuxa

Bruxa

Ducha de agua fria

No fogo do meu plexo solar

 

Loura

Moura

Neve na Bahia

Um furacao sem furia no meu marulhar

 

Agri

Doce

Tal um sal de fruta

Vos me agredais quanto vos me agredis

 

Ouca

Garca

Inocente e astuta

Clareza absoluta e mil ardis

 

Gueixa disfarcada de boneca

Sudanesa travestida de alema

Porque sois o misterio a luz do dia?

Porque sois sempre a noite de manha?

 

Ainda bem que sois fruta no meu sonho

A velha obviedade da maca

Que escolho e colho e mordo na bochecha, Xuxa

E tendes travo e gosto de avela

 

Vick
Vapor

Lenta anestesia

Pimenta na garrafa de isopor

 

Xuxa

Bruxa

Ouro de alquimia

Sois flecha de um cupido pos-amor

 
B.03-YA OLOKUN (Monica Millet e Fred Vieira)
Ribeira eu peco licenca

Pra as aguas do mar, Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

Sao pontos de areia

Os destinos brilhando num so Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

As aguas salgadas

Os homens sujaram o mar, Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

Vamos salvar o dique do tororo

Bahia de todos os santos

Sol e areia, ea, ea, ea

 

Perpetuar aqueles que nos dao

A mare vazia e tambem a mare cheia

 

B.04-O FIM DA HISTORIA (Gilberto Gil)
Nao creio que o tempo

venha comprovar

nem negar que a historia

possa se acabar

 

Basta ver que um povo

Derruba um czar

Derruba de novo

Quem pos no lugar

 

E como se o livro dos tempos

Pudesse ser lido traz pra frente

frente pra traz

 

Vem a historia, escreve um capitulo

Cujo titulo pode ser “Nunca Mais”

 

Vem o tempo e elege outra historia

Que escreve outra parte

Que se chama “Nunca E Demais”

 

“Nunca Mais”, “Nunca E Demais”, “Nunca Mais”

“Nunca E Demais” e assim por diante tanto faz

 

Indiferente se o livro e lido

De traz pra frente

Ou lido de frente pra traz

 

Quantos muros ergam

Como o de Berlim

Por mais que perdurem

Sempre terao fim

 

E assim por diante

Nunca vai parar

Seja neste mundo

Ou em qualquer lugar

 

Por isso e que um cangaceiro

Sera sempre anjo e capeta, bandido e heroi

 

Deu-se noticia do fim do cangaco

E a noticia foi o estardalhaco que foi

 

Passaram-se os anos eis que um plebicito

Ressucita o mito que nao se destroi

 

Oi Lampiao sim, Lampiao nao, Lampiao talvez

Lampiao faz bem, Lampiao doi

 

Sempre o pirao de farinha da historia

E a farinha e o moinho que o tempo moi

 

Tantos cangaceiros

Como Lampiao

Por mais que se matem

Sempre voltarao

 

E assim por diante

Nunca vai parar

Inferno de Dante

Ceu de Jeova

 

B.05-DE ONDE VEM O BAIAO (Gilberto Gil)
Debaixo

Do barro do chao

Da pista onde se danca

Suspira uma sustanca

Sustentada por um sopro divino

Que sobe pelos pes da gente

E de repente se lanca

Pela sanfona afora

Ate o coracao do menino

Debaixo

Do barro do chao

Da pista onde se danca

E como se Deus

Irradiasse uma forte energia

Que sobre pelo chao

E se transforma

Em ondas de baiao

Xaxado e xote

Que balanca tranca

Do cabelo da menina

E quanta alegria

De onde e que vem o baiao?

Vem debaixo

Do barro do chao

De onde e que vem

O xote e o xaxado?

Vem deibaixo

Do barro do chao

De onde vem a esperanca

A sustanca espalhando

O verde dos teus olhos

Pela plantacao

O o vem debaixo do barro do chao

 

 

Disco VIII {(1967)}: Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band \\|// Sarja Péppers & os Lou Nílli Rértz clube/banda #thebeatlesemportugues

 

 

 

 

08 A-01 Sal Pimenta
Já faz mais de vinte anos atrás
Sarja Pépper ensinou a uns rapaz
Eles tinham problema com o progresso
e era o que pagava o ingresso
[Deixe-me trazer para a gente agora
[o número muito nosso conhecido do
[Sal Pimenta &t Os Lou Nílli Rérz clube/banda

É o Sarja Pepper &t Os Lou Nílli Rérz clube/banda
tomara que gostem do show
É o SP&LNRC/B
Relaxe e deixe a Sol se pôr
SP&LN, SP&LN, SP&LNRC/B

Foi ótimo poder vir
Dá um certo arrepio
Vocês são um público especial
Queremos levar vocês pra casa conosco
Queremos levar vocês ((conosco))

Não quero mesmo ter que estragar o som
Fica pra vocês mais esta informação
Nesta nossa próxima canção
É pra todos, juntos, cantarem o refrão
É isso o que vai anunciar
o primeiro e único Billy Shears
dos Sarja Pépper &t Os Lou Nílli Rérz clube/banda

08 A-02 Com uma mãozinha de todos meus irmãozões
O que ia parecer             cantar desafinado
Se levantem e                me deixem falando sozinho aqui?
Se me permitem               vou cantar para a gente
Vou tentar ser meu melhor    e o mais competente

Só vai dar certo        com uma mãozinha dos meus irmãos
Só chego longe          com uma mãozinha dos meus irmãos
Se tem um jeito é       com aquela mãozinha dos meus irmãoszãos

O que eu faço                sem meu amor por perto?
Se me queima as fuça         ficar completamente só?
O que eu penso               quando o dia acaba?
É a depressão                por estar completamente só?

Não, eu sempre tenho    uma mãozinha dos meus irmãos
Só chego longe          com uma mãozinha dos meus irmãos
Se tem um jeito é       aquela mãozinha dos meus irmãoszãos

De quem você      sente falta?
Preciso de alguém       para amar
Pode ser          qualquer pessoa?
Só quero alguém         pra eu amar

Você ainda acredita          em amor de primeira?
Tenho certeza                de que é o que acontece sempre
E o que você vê              quando a luz se apaga?
Não sei o que é isso         mas eu sei que é meu

Só vai dar certo        com uma mãozinha dos meus irmãos
Só chego longe          com uma mãozinha dos meus irmãos
Vou tentar assim        com uma pequena, uma ajudazinha de todos
meus grandes irmãoszãos

08 A-03 Lúzia do Céu Diamantes
Imagine que desce um caiaque a vereda
Árvores tangerina e céu de marmelada
Alguém lhe chama, devagar atende
É a garota de caleidoscópio n’olhar

Flores celofane verdes&amarelas
Deslizam na tua cabeça
Cadê a garota com a Sol nos olhos
Já foi

Lúzia do Céu Diamantes!

A segue até a ponte bem perto da fonte onde
Cavalos de pau manjam mexericas
Todos te sorriem e navega entre as flores
Que crescem a perder de vista

Táxis de papelão estacionam na costa
Querem te levar com eles
Aceita a carona a cabeça nas nuvens
Partiu

Imagine que está em um trem numa estação
Dos porteiros de plástico com gravatas borboleta
De repente nota alguém lá na catraca
É a garota de caleidoscópio n’olhar

08 A-04 A vida é só melhora
A vida é só melhora

Passava os dias em mau humor
(reclamar de nada!)
Na escola só tinha gente ruim
(reclamar de nada!)
Repetir de ano, te virar do avesso
te forçar a engolir seus malignos planos
(malignos planos!)

Eu vou te admitir, é melhor assim
(melhor!)
Melhor um pouquinho de cada vez

Tenho que admitir, a vida é só melhora
(melhor!)
Desde que estamos juntos

A vida é só melhora desde que estamos juntos
A vida é só melhora

Mim sempre nervoso, velhinho
Mim dorme co’a cabeça dentro do oco
Quando me chamou, pude te ouvir
Demos o nosso melhor de si

😐

Eu já fui ruim com mulher
As humilhei e afastei do que lhes importava
Eu já fui covarde, mas me entendi
Estamos aqui para dar o melhor de si

08 A-05 Tampando um buraco
Tampando um buraco           onde o vento faz a curva
Me enerva e me interrompe                o raciocínio
Pra onde vou

Fechando umas fendas         o rangido da porta
Corta minha brisa            de imaginar
Pra onde vai

E não faz mais nenhum sentido
Se foi bola dentro ou fora
Daqui não vou-me embora
Daqui não vou…

Ali ficam as pessoas
que só discordam e não dão as mãos
e ainda reclamam que nunca as convido à discussão

Pintando as paredes do       meu colorido quarto
Foi quando eu                pude imaginar
Prá lá que vou

😐

E não faz mais nenhum sentido
Se foi bola dentro ou fora
Daqui não vou embora
Daqui não vou…

Pessoas ocupadas
e estabanadas me metem medo
e me fazem pensar aonde é que este mundo vai parar

Dedicando meu tempo          a mais de um bilhão de coisas
Que ainda ontem              me eram bem fúteis
Ainda vou

08 A-06 Indo embora de casa
Quarta-feira o dia começou de manhã bem cedo
Fez nenhum barulho, arrumava o quarto
Deixou num bilhete o endereço novo

E desceu, pra cozinha e deixou o molho de chaves na parede
Tinha também um lenço de mão
Saía de casa e da prisão

Ela
(Demos nossa vida por ela)
vai deixar
(Sacrifício de planos por ela)
o lar
(Lhe demos tudo do bom e do que era melhor)
Ela vai nos deixar depois de morar sozinha desde sempre
(Já vai)

O pai chorava no quarto, foi ele quem encontrou a carta
A mãe entra e deita ao seu lado
Abraça o marido e soluça seu choro

Se recompõe e diz, “viu, meu pai o que sua filhinha aprontou?
Como ela pôde ser tão egoísta?
Não é isso o que ensinamos aqui!”

Ela
(Ela sempre em primeiro lugar)
vai deixar
(Não sobrava nenhum tempo para nós)
o lar
(Ralamos muito para chegar até onde chegamos)
Ela vai nos deixar depois de morar sozinha desde sempre
(Já vai!)

Sexta-feira, tarde da noite ela já está lonjão
Torcia para na sua nova vida correr tudo muito bem
Ela e um amigo que conheceu no trem

Ela
(Onde foi que nós erramos)
vai deixar
(Ainda não sabemos aonde erramos)
o lar
(A paz é algo que o dinheiro não pode comprar)
Talvez fosse algo dentro dela que ela quisesse fazer desde sempre
(Já vai)
Vai deixar seu lar
Já vai!

08-07 Em homenagem ao Senhor Vagem

 

08-08 sem você mas com
a conversa              era do espaço que nos envolve
e das pessoas que se escondem por entre barreiras de enganação,
sem suportar ao outro        até quando for muito tarde
a gente morre de repente

a conversa              era do amor que nos rodeia
que se descobre              e que se tenta ao máximo manter para só você
e com o amor,     isto muda o mundo,      a gente vai aprender

tente entender que tudo já está dentro de si
parte de entender que tudo está em si mesmo
só se muda a si mesmo
é quando aprende o tamanho da partícula pequena
que a vida flue         por dentro de           e até sem ti

😐

a conversa              era do amor que adormece
e das pessoas do mundo da troca que corrói
eles não sabem nem entendem, qual destes é você?
quando se vê o contexto,           além de si está

a paz de espírito                  é ali que habita
e vai vir o tempo                  que saberá estar só
já viu que a vida flue       por dentro de     e até sem ti

08-09 Quando eu tiver Sessenta e quatro
Quando eu virar velho              sem nenhum mais cabelo
O futuro                           daqui a algum tempo
Será que vai lembrar               além do dia em que nasci
Com cartão de lembrança            ou garrafa de vinho?

Quando eu for para uma festa       não voltar até as seis horas
Vai trancar                        a nossa casa?
Ainda vai se importar,             vai me dar comida
quando um velhote                  eu virar?

Ficar velho é normal
E só converse comigo
Se eu moro com você

Eu sei fazer várias coisas         já construí usinas
quando você                        estava na escola

Eu sei fazer várias coisas         trocar um fusível queimado
Ir pagar                           suas contas

Você lê o jornal                   quieto de manhazinha
Todo dia de manhã                  ir andar com os cachorros

Faço o jardim
Quem poderia querer mais?

08-10 Louve-lhe Rita
Louve-lhe Rita               minha Leide
Não existe nada              que vá nos separar
Mesmo muito longe eu sei dizer      que você está bem

Pondo moedas em um parquimétro
Foi lá que eu vi a minha Rita
Escreve bilhetinhos na caderneta de mão!

Usa um chapéu com óculos escuros
Carteira de couro e mala de rodinhas
Ela adora fingir que é da Polícia Federal!

Louve-lhe Rita, minha leide
Será que posso fazer uma pergunta de cunho pessoal?
Será que está livre para tomar um café comigo?

A convenci, saímos juntos
Tiramos um sarro, comemos juntos
E quando estava no fim eu disse que queria ter mais

Na hora da conta, ela pagou tudo
Lhe dei carona, e o gol foi quase
Estava eu no sofá com ela os gatos e as irmãs

Louve-lhe Rita, minha leide!
Nunca ia ter feito sem você
Me mande um beijinho pra saber que se lembra de mim

08-11 Um bom dia, um dia bom
Não vai mais ter como salvar este aqui, podem levar embora
Não vai ter o que se dizer, além de “olha que bom, meu, foi tudo bem!”
Não vai ter o que se fazer, é só você
Não tenho nada pra ti, mas é isso aí

Depois de um tempo, é que sentiu, bateu o vento
Foi aí que lembrou, ia ser bom andar por lá de novo
Nada mudou, e o tempo parou
to sem nada pra ti, mas é isso aí

Porque alguém tinha que saber da hora, por isso eu vim junto
E pra ver umas coxas, a dessas moças, cara isso faz bem!
E se está aqui, é porque ela quer curtir!
Não tenho nada pra ti, mas é isso aí

08-13 Um dia numa vida
Tenho uma triste, irmão                  agora
Daquele outro meu irmão                  que cavou a própria cova
Esta não é nenhuma                       boa nova
Não vai ter como                         não sofrer
Já vi essa imagem                        acontecer

Eu vi o carro                            se espatifar
Ninguém nunca que viu                    sinal fechado
O mundaréu de gente                      que foi lá olhar
Ele achavam o conhecer mas ninguém nunca lembrava quem era
o cara do Jornal das Nove

É hora do filme agora                   irmão
Estavam lá todos os cáubóis              de cús nas mãos
O mundaréu de gente                       que desistiu
Eu estava lá pra olhar
Era minha mão jurando, parada,           em cima do livrão
Eu estou aqui           só    pra         vo    cê

De pé                                    caiu do catre
Levava a kombi                           e mais badulaques
Descobre um atalho para casa             e ganha mais uns tragos
Foi bem na hora que notei                já era a minha vez
Acha o casaco                      toma o chapéu

Lembrei do trampo                  que escarcéu!
Lembra onde foi que guardou a escada     e fuma mais um cigarro
Alguém mais falou                  e eu caí dentro de um sonho

😐

Ouvi ao jornal, irmão                    agora
4mil covas em                            Blackburn, Lancashire
As covas eram bem rasas                  e cada foi cavada
Agora eles já sabem quantos mortos       enchem o Albert Hall
Fui eu quem             te                de                dou

dylanniversário, uma tradução: Blonde on blonde \\|// Cara a cara (16 de Maio de 1966)

01.MULH3R36 D3 D145 CHUV0505 #12 & 35
Eles te pilham se você tenta ser do bem
eles te pilham, já disseram que iriam
eles te pilham se você volta pra casa
eles te pilham quando você está sozinho
mas eu não me sinto tão sozinho
todo mundo devia chapar só um pouquinho

Eles te pilham se você anda pela rua
eles te pilham se você guarda um lugar
eles te pilham se você não sabe qual é o andar
eles te pilham quando voc~e tentar ir embora
mas eu não me sinto tão sozinho
todo mundo devia chapar só um pouquinho

Eles te pilham se você toma um café
eles te pilham se você está jovem e sozinho
eles te pilham se você está dando duro
eles te pilham e só então te dão um “boa sorte”
mas eu não me sinto tão sozinho
todo mundo devia chapar só um pouquinho

Eles te pilham e dizem que isso é o fim
eles te pilham e voltam para mais uma vez
eles te pilham se você dirige o carro
eles te pilham quando você toca a guitarra
mas eu não me sinto tão sozinho
todo mundo devia chapar só um pouquinho

Eles te pilham mesmo se você está só andando
eles te pilham quando você parte pra casa
eles te pilham e depois dizem que você tem coragem,
eles te pilham com você quietinho na sua cova
mas eu não me sinto tão sozinho
todo mundo devia chapar só um pouquinho

04. UM D3 NÓ5 V41 V3R (C3D0 0U T4RD3)
eu nunca quis te tratar mal assim
não era pra você ter levado pro lado da emoção
eu nuynca quis te deixar mal assim
coincidiu de você estar lá e foi só isso
quando eu vi, você deu tchau” pro teu camarada e sorriu
isto pra mi já era sinal de cumplicidade
voê ia dar uma volta, já voltava rapidinho
nem imaginava que era um “tchau” pra nunca mais voltar

cedo ou tarde um de nós vai ver
você foi embora fazer o que tinha que fazer
é questão de tempo pra um de nós saber
você nem imagina o que eu fiz pra chegar até você

05.T3 QU3R0
Carrascos quase se arrependem
O piano de sopro é o que suspende
O saxofone é claro e me diz pra te recusar
Sinos rachados e tubas partidas
Jogam na minha cara a verdade
Não é pra ser assim
Eu não nasci pra te perder

te quero, te quero
te quero demais mesmo
benzinho, como te quero

Políticos bêbados saltam de um lado
ao outro nas ruas em que mães secam seu pranto
e os sábios que são os primeiros a dormir, esperam por ti
eu só espero a interrupção
do gole do drinque na minha mão
eles vão vir e pedir pra eu
abrir os portões pra ti

          Igual aos meus antepassados, todos eles falharam
          passar por uma vida inteira sem um amor de verdade
por que as suas filhas todas, nunca me escolheram
eu não queria nem saber

Agora voltei pra Rainha de Espadas
no quarto cozinhava marmelada
ela sabe que não vou achá-la esquisita
Ela é muito boa pra mim
e não existe nada que ela não saiba ver
ela entende onde eu queria estar
e isso não importa

Sua cria criativa, de crina chinesa
ralhou comigo, lhe tomei a flauta
com isso mostrei a quantas andava minha educação
Só fiz isso porque ele é um mentiroso
ele te levou para comer miojo
Ainda mais porque o tempo lhe foi vantajoso
Ainda…

 

06.F1C4R PR350 D3NTR0 D0 C4RRO 0UV1ND0 A0 MEMPHIS BLU35 T0C4R
O andarilho anda em círculos
De um lado ao outro da quadra
Até lhe perguntaria qual é o problema
Eu já sei, ele não sabe falar
E as garotas me tratam com candura
E me floreiam com adesivos
Lá bem dentro de mim
Já entendei, não tem mais jeito

Ai, minha mamãe, será que o fim é mesmo assim?
ficar preso dentro de um carro
ouvindo ao Memphis Blues tocar

Então Shaguespear, ele fica nas ruelas
Vestes sapatos pontudos & harpas
Falando com uma francesinha
Ela diz me conhecer muito bem
Até que enviava uma carta
Para saber que ela dedurou agora
Mas os correios sofreram um roubo
A caixa de cartas está lacrada

Mona tentou me avisar
fique longe dos trilhos do trem
Ela disse que todos os operários
Bebem todo seu sangue, igual a um vinho
Daí eu disse, “olha só, eu não sabia disso
então tem só um deles que eu conheci
ele fumou minhas duas pálpebras
e socou minha cigarrilha”

Vovô morreu na última semana
e agora está enterrado sobre as pedras
mas todo mundo ainda só fala sobre
o quanto mal isso lhes fez
Pra mim, só esperava isso acontecer
eu já sabioa que ele ia surtar
antes de ele atear fogo na rua inteira
ficando lá, com suas armas a descarregar

Hoje o senador veio aqui pra baixo
mostrou a todo mundo usas armas
ele entregou um monte de entrada grátis
pro casamento de seu filho
Foi quando eu quase fui pra prisão
e nem para ter nenhuma sorte
de estar sem nenhum bilhete
ser encontrado embaixo de um caminhão

Hoje o padre parecia sem fôlego
quando lhe perguntei porque ele vestia
vinte quilos de manchetes
carimbados em seu peito
Mas ele me jogou um xingo quando eu provei
e depois sussurrei “Nem mesmo você pode se esconder
já viu, você é igual a mim
espero que isso lhe satisfaça”

Agora o pajé me dá duas curas
e depois disse ”Cai bem dentro”
um era remédio dos Texanos
o outro era só dos trilhos, um gim
Inocentemente misturei as duas
e isso estrangulou minha mente
e agora as pessoas só ficam mais feias
e eu perdi a noção das horas

Quando Ruthie me pediu para ir ter com ela
no meio de seu pesqueiro caipira
ir lá pra assistir suas danças grátis
bem ao lado do Panamá, e da Lua
E eu disse, “Ah, mas qualé agora!
você deve ter ouvido da minha debutante”
E ela, “Sua debutante só sabe do que você precisa,
já eu, sei do que você gosta”

Colocaram paralelepípedos pela Grand Street
onde os malucos de neon escalam
eles todos caem de lá com perfeição
até parece estão ensaiados
E eu fico aqui, sentado pacientemente
para adivinhar quanto é que custa
para conseguir sair daqui
depois de passar por tudo, duas vezes

08. 16U4L 4 UM4 MULH3R
Ninguém sente dor nenhuma
É hoje que me benzo nessa chuva
O mundo já percebeu
Como você cresceu
E já faz tempo que as presilhas&os elásticos
Abandonaram os teus cachos
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha

Queen Mary, esta é uma amiga
Vamos sair de novo, dá até pra acreditar
Ninguém ia adivinhar
O padre não quis casar
E ela entendeu que faz parte de um grande resto
com sua imprecisão, suas anfentas&suas bolinhas
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha

De começo foi uma chuva, e eu lá
Morrendo de sede e não
Conseguia beber.
E tua cicatriz antiga ainda não sarou
Vai ver até que piorou
Tudo o que dói em mim
Não posso ficar aqui!
E ainda não sei se…

Eu não sirvo, não!
Acho que chegou a hora da nossa separação
Se nos vermos de novo
Talvez um amigo em comum
Vê se não vai agir como se não me conhecesse
Era só fome e era do teu mundo
      Fingida! Igual a uma mulher
      Tú até faz amor igual a uma mulher
      E até se ressente igual a uma mulher
      Mas daí briga igual a uma menininha.

13. Ó8V105 C1NC0 CR3NT35
Cedo manhãzinha
cedo manhãzinha
te chamo para
te chamo para
ir lá em casa
Acho que não preciso de você,
mas não gosto nem um pouco dessa solidão

Não me deixe mal
não me deixe mal
não vou te deixar
não vou te deixar
passar mal
Eu também posso se você também pode
mas não me faça isso amor benzinho nunca, não

Meu cachorro preto late
o cachorro preto late
está lá fora
ele está lá fora
no meu quintal
Só de ouvir dá para entender o que ele diz
mas tem muita gente que não cansa de nem querer saber, não!

Tua mãe no trampo
tua mãe no parto
ela chora por ti
ela tenta por ti
é melhor ir embora
Sei te dizer bem o que ela quer
mas não sei por onde começar a te dizer tudo isso agora, não!

Quinze 171
quinze 171
cinco dos crentes
cinco dos crentes
vestidos de gente
Diz pra sua mãe não precisa cabeça quente
cada um dos meus amigos me têm quase que nem a um irmão

Duas canções, duas traduções

“POR UNA CABEZA”, de Carlos Gardel e Alfredo de La Pera

I.
Por una cabeza de un noble potrillo
Que justo en la raya afloja al llegar
Y que al regresar parece decir
No olvides, hermano
Vos sabes, no hay que jugar

II.
Por una cabeza metejón de un día
De aquella coqueta y risueña mujer
Que al jurar sonriendo el amor que está mintiendo
Quema en una hoguera
Todo mi querer

rI.
Por una cabeza
Todas las locuras
Su boca que besa
Borra la tristeza
Calma la amargura

rII.
Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir

III.
Cuántos desengaños, por una cabeza
Yo juré mil veces no vuelvo a insistir
Pero si un mirar me hiere al pasar
Su boca de fuego
Otra vez quiero besar

IV.
Basta de carreras, se acabo la timba
Un final reñido ya no vuelvo a ver
Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo
Yo me juego entero
Qué le voy a hacer

\\|//

“POR UMA CABEÇA”, de Gardel & La Pera, versão de r.l.almeida

1.
Por uma cabeça de um nobre potrinho
Bem perto da raia afrouxa o chegar
E que ao regressar parece até dizer
Não se esqueça irmão, ninguém tem que jogar

2.
Por uma cabeça decidi um dia
Ter com aquela coquete risonha mulher
Que jura sorrindo o amor que está mentindo
Queima em uma fogueira todo o meu querer

r1.
Por uma cabeça
Todas essas loucuras
Sua boca que beija
Apaga a tristeza
Acalma a margura

r2.
Por uma cabeça
Se ela me esquece
Não me importa perder
Mil vezes a vida
Para que viverei?

3.
Quantos desencantos por uma cabeça
Me jurei mil vezes não mais insistir
Quando um só olhar me fere ao passar
Sua boca de fogo outraa vez quero beijar

4.
Basta de jogatina, não tem mais cachaça
Um final sonhado não quero mais ver
E quando um dos pinguços chega em casa, fim de domingo
Eu me jogo inteiro, é só o que sei fazer!

 

 

 

“ALEGRIA, ALEGRIA”, de Caê

I.
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

II.
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou

III
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

IV
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

V
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores
Vãos

r.
Eu vou
Por que não?
Por que não?

VI.
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou

VII.
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

VIII.
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil

IX.
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

X.
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo
Amor

\\|//

“JOY, JOY”, versão de r.l.almeida

1.
We all walk against the winds
No tissue, no paper in my hands
It is summer, look at the sun
I go

2.
The Sun is parted by crimes
Spaceshuttles, guerrilas
And so handsome Cardinales
I go

3.
It is my dear president
So huge kisses with love
My flag, my leg and my teeth
Nuke and Brigitte Bardot

4.
The Sun is shinning crazy diamonds
Fullfill me with joy and lazyness
Who care with what the news says
I go

5.
Inbetween names and pictures
My eyes are fullfilled with them colors
My chest is fullfilled with a disdained
Love

r.
I go
And why not?
And why not?

6.
She thinks she is going to get marry
I never more saw my school
No tissue, no paper in my hands
I go

7.
I drink a coca-cola
She thinks she is going to get marry
A little song makes me merry
I go

8.
Among the pictures and names
No thing to read nor to aim
No thing to eat nor to say
We are inside my home land

9.
She does not know, I have already figured out
I know I got to make a living
The Sun it is so very beautiful
I go

10.
No tissue, no papper in my hands
Nothing in pockets or arms
I only want to live my life
With love

 

 

 

 

 

 

 

Dois contos, duas traduções

          salve, salve, minha maturada & famigerada bloguesfera nossa de cada dia. mais um “Duas tradussas” no ar, hoje transvertendo contos curtos do inglês para o português e o costumeiro caminho inverso, do português ao inglês.

          o primeiro convidado é nascido em Oak Park, estado de Illinois, nos EUA, no dia 21 de Julho de 1899: Ernest Miller Hemingway foi habilidoso contista, romancista, jornalista, espião, apaixonado por touradas, boxe, pescaria & uma boa birita. foi homenageado com o Nobel de Literatura em 1954, bem perto do fim da vida: o escritor já tinha legado suas mais importantes obras (por exemplo, o libelo libertário de “Por quem os sinos dobram”; & também a canção da solidão de “O velho e o mar”), andado o mundo inteiro (à serviço & por diversão), lutado nas duas Guerras Mundiais, casado quatro vezes, pai de três filhos, além de ser tutor de inumeráveis cães & gatos que viviam em uma de suas casas, num sítio em Cuba. é mais um exemplo do literato autodidata que leu mais do que escreveu, criado longe das eiras do academicismo!

          a vida do jovem escritor começa no idílico estado de Illinois, entre nativos-americanos, cachoeiras & montanhas. seu pai foi o médico da vila, & a mãe era professora de piano – os pais são dois dos pilares em que Ernest vai erguer sua obra: é o pai, Clarence, quem ensina ao jovem garoto a pesca, a natação, a caça, nas férias que passavam em família no Lago Wallon, no Michigan. esta formação está bem presente em tudo que escreveu: retratos da natureza, da vida selvagem, uma paixão por aventuras & a busca de uma vida mais simples em partes remotas ou ermas do mundo. o jovem Ernest editou o jornal da sua escola, “O trapézio”, &, depois de terminar o equivalente em terras brasilis ao Ensino Médio, aos 14 já trabalhava pelo jornal The Kansas City Star como repórter honorário. assim como outro ícone estadunidense da literatura, Mark Twain, e talvez um ou dois da brazileña, talvez Lima Barreto ou Dom Machadão, o caso é que Ernest Hemingway também passou pela imprensa enquanto primeira formatação de seu estilo. veio do guia de estilo do Kansas City os principais fundamentos que nortearão sua vida de escritor: “usar frases curtas. usar primeiros parágrafos curtos. usar um idioma vigoroso. seja positivo, & não negativo”

          talvez seria esta a vida que Ernest levaria até o fim de seus dias, pescar no Waloon e escrever para o jornal, não tivesse o mundo enlouquecido de vez em 1914 & rebentado a Primeira Guerra Mundial. o jovem Ernest tenta se alistar pelo exército de seu país para lutar, mas é preterido por causa de sua miopia – fraca, mas ainda miopia. bate então à porta da Cruz Vermelha, que não se faz de rogada em enviar o jovem Ernest para a Europa, para lutar na guerra como motorista de ambulância.

          Ernest Hemingway fez a guerra por alguns meses, até que foi ferido por estilhaços na perna, e enviado de volta para casa. essa primeira experiência nas Zooropas vira livro, um romance de fôlego que estréia somente em 1929, “Adeus às armas” (seu terceiro romance). porque mesmo de volta pra casa, o jovem já não é mais tão inocente depois das demandas de uma guera. em 1919 escreve o conto “O rio gigante de dois corações”, onde surge pela primeira vez seu outro eu nas histórias curtas, Nick Adams. vive por algum tempo no Canadá, onde escreve o cotidiano para o The Toronto Star Weekly, primeiro como freelancer & depois como parte do time. em 1921, casa-se pela primeira vez & vai morar em Paris, como correspondente do Toronto Star e até mesmo com textos publicados pelo Morning Post de Londres. a França foi indicação de seu amigo em Chicago, o editor & escritor Sherwood Anderson, que afirmava que depois do conflito mundial, as taxas de câmbios fizeram de Paris um lugar nada caro de se morar.

          Ernest vai criar a técnica do iceberg (uma história é tudo aquilo que está para baixo da água: o que o escritor coloca em palavras, a parte acima da água); para Hemingway trabalhar, aprimora em seu período às margens da rive gauche do rio Sena suas ferramentas básicas: um lugar limpo & bem iluminado. vivendo Paris até 1928, este é considerado o período mais frutífero do escritor. nesses tempos, aproxima-se de Gertrude Stein, Ezra Pound, Sylvia Beach. Gertrude e Ezra ainda começavam suas carreiras, mas Sylvia já tinha uma livraria em Paris, que cobrava preços irrisórios por algumas diárias de aluguel de uma obra (((uma livro-loucadora!!!))): a livraria Shakespeare & Company, acho que você deve tê-la visto no filme de Richard Linklater, “Antes do pôr-do-sol” (2003) (se não viu, mas me lê, corre lá porque ainda dá tempo!!). essa livraria era ponto de encontro de pintores & poetas, modernistas ou dadaístas, da boemia em geral, no que ficou conhecido como “Geração perdida” – a geração que lutou a primeira grande guerra & viveu para contar os loucos anos 20 até a Grande Depressão.

          é em Paris que Ernest consegue se organizar para organizar seu primeiro livro: “Três estórias e dez poemas” (1923), trazia além dos dez poemas (que hoje ninguém mais se lembra), os contos “Lá em Michigan”, “Meu velho” e “Fora de temporada”, em 300 cópias. no ano seguinte, publica “In our time”, com 14 contos (e duas das mais famosas aventuras de Nick Adams, “Acampamento índio”, trabalho inédito, e “O rio gigante de dois corações”, pela primeira vez em livro, em 170 cópias). em 1926, alça vôos maiores com romances, lançando no começo do ano “As correntes da primavera” (uma sátira ao universo literato, escrito em dez dias) & depois, em Outubro, “O sol também se levanta”, romance com tiragem de 5090 cópias para sua primeira edição, o primeiro pela editora dos filhos de Charles Scribner, de Nóva Úorque. o livro acompanha um bando de expatriados em tournée pela Espanha, para pescar, beberem vinho, acompanhar as touradas – um guia para quem pretende seguir caminhos peregrinos, o que fazer para se ficar vivo: planos são importantes! Foi com “O sol também se levanta” que transformou o autor conhecido do dia para a noite, já que dois meses depois veio a segunda tiragem (7000 cópias), e a cada ano, até 1983, tiragens em seqüência, tornando esta a obra mais traduzida & comentada do autor. publica em 1927 mais um livro de estórias curtas, “Men without women” com 14 contos (10 dos quais publicados anteriormente, em outros veículos). foi o primeiro livro de Ernest Hemingway a ter uma tiragem de 7600 cópias para sua primeira edição.

          o conto que trago para apresentar uma versão em português está nesse livro, que também contém outras pérolas como “Colinas iguais elefantes brancos” & “Em outro país”. aqui no Brëzyl, os quase 70 contos curtos foram permeados em edições trincadas, inicialmente pela editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), e os romances pela Companhia Editora Nacional (São Paulo), em traduções de Monteiro Lobato, Antonio Veiga Fialho e Ênio Silveira.

          tinha preparado uma primeira versão dele para uma aula de teoria da narrativa com o saudoso Luis Gonzaga Marchezan, @FCLar/UNESP, idos de 2005. atualizei o texto para os dias de hoje, Brëzyl, um país de ninguém, e ficou beeeem mais fluído do que na minha primeira tentativa. me considero mais ousado nos dias de hoje, por exemplo, ao comentar uma das polêmicas do texto: trazer uma tradução do nome da cidade. porque uma das regras que preza o manual é que nomes não se traduzem – nem de pessoas, nem de lugares. mas tivesse deixado no original, “Summit”, essa palavra parece com simplesmente nenhuma outra do idioma português. arrisquei um “Do Alto” na vez & a hora que chegou a menção à cidade, porque “Do Alto” é o nome dumas quarenta e& quinze localidades neste nosso Brëzyl grande, rico, insano por aqui adentro.

“The killers”, de Ernest Hemingway. in: “Men without women”. Editora Scribner´s & Sons, 1927, New York, EUA.

          The door of Henry’s lunchroom opened and two men came in. They sat down at the counter.
          “What’s yours?” George asked them.
          “I don’t know,” one of the men said. “What do you want to eat, Al?”
          “I don’t know,” said Al. “I don’t know what I want to eat.”
Outside it was getting dark. The streetlight came on outside the window. The two men at the counter read the menu. From the other end of the counter Nick Adams watched them. He had been talking to George when they came in.
          “I’ll have a roast pork tenderloin with apple sauce and mashed potatoes,” the first man said.
          “It isn’t ready yet.”
          “What the hell do you put it on the card for?”
          “That’s the dinner,” George explained. “You can get that at six o’clock.”
George looked at the clock on the wall behind the counter.
          “It’s five o’clock.”
          “The clock says twenty minutes past five,” the second man said.
          “It’s twenty minutes fast.”
          “Oh, to hell with the clock,” the first man said. “What have you got to eat?”
          “I can give you any kind of sandwiches,” George said. “You can have ham and eggs, bacon and eggs, liver and bacon, or a steak.”
          “Give me chicken croquettes with green peas and cream sauce and mashed potatoes.”
          “That’s the dinner.”
          “Everything we want’s the dinner, eh? That’s the way you work it.”
          “I can give you ham and eggs, bacon and eggs, liver—”
          “I’ll take ham and eggs,” the man called Al said. He wore a derby hat and a black overcoat buttoned across the chest. His face was small and white and he had tight lips. He wore a silk muffler and gloves.
          “Give me bacon and eggs,” said the other man. He was about the same size as Al. Their faces were different, but they were dressed like twins. Both wore overcoats too tight for them. They sat leaning forward, their elbows on the counter.
          “Got anything to drink?” Al asked.
          “Silver beer, bevo, ginger-ale,” George said.
          “I mean you got anything to drink?”
          “Just those I said.”
          “This is a hot town,” said the other. “What do they call it?”
          “Summit.”
          “Ever hear of it?” Al asked his friend.
          “No,” said the friend.
          “What do they do here nights?” Al asked.
          “They eat the dinner,” his friend said. “They all come here and eat the big dinner.”
          “That’s right,” George said.
          “So you think that’s right?” Al asked George.
          “Sure.”
          “You’re a pretty bright boy, aren’t you?”
          “Sure,” said George.
          “Well, you’re not,” said the other little man. “Is he, Al?”
          “He’s dumb,” said Al. He turned to Nick. “What’s your name?”
          “Adams.”
          “Another bright boy,” Al said. “Ain’t he a bright boy, Max?”
          “The town’s full of bright boys,” Max said.
          George put the two platters, one of ham and eggs, the other of bacon and eggs, on the counter. He set down two side dishes of fried potatoes and closed the wicket into the kitchen.
          “Which is yours?” he asked Al.
          “Don’t you remember?”
          “Ham and eggs.”
          “Just a bright boy,” Max said. He leaned forward and took the ham and eggs. Both men ate with their gloves on. George watched them eat.
          “What are you looking at?” Max looked at George.
          “Nothing.”
          “The hell you were. You were looking at me.”
          “Maybe the boy meant it for a joke, Max,” Al said.
          George laughed.
          “You don’t have to laugh,” Max said to him. “You don’t have to laugh at all, see?’
          “All right,” said George.
          “So he thinks it’s all right.” Max turned to Al. “He thinks it’s all right. That’s a good one.”
          “Oh, he’s a thinker,” Al said. They went on eating.
          “What’s the bright boy’s name down the counter?” Al asked Max.
          “Hey, bright boy,” Max said to Nick. “You go around on the other side of the counter with your boy friend.”
          “What’s the idea?” Nick asked.
          “There isn’t any idea.”
          “You better go around, bright boy,” Al said. Nick went around behind the counter.
          “What’s the idea?” George asked.
          “None of your damned business,” Al said. “Who’s out in the kitchen?”
          “The nigger.”
          “What do you mean the nigger?”
          “The nigger that cooks.”
          “Tell him to come in.”
          “What’s the idea?”
          “Tell him to come in.”
          “Where do you think you are?”
          “We know damn well where we are,” the man called Max said. “Do we look silly?”
          “You talk silly,” Al said to him. “What the hell do you argue with this kid for? Listen,” he said to George, “tell the nigger to come out here.”
          “What are you going to do to him?”
          “Nothing. Use your head, bright boy. What would we do to a nigger?”
          George opened the slit that opened back into the kitchen. “Sam,” he called. “Come in here a minute.”
          The door to the kitchen opened and the nigger came in. “What was it?” he asked. The two men at the counter took a look at him.
          “All right, nigger. You stand right there,” Al said.
          Sam, the nigger, standing in his apron, looked at the two men sitting at the counter. “Yes, sir,” he said. Al got down from his stool.
          “I’m going back to the kitchen with the nigger and bright boy,” he said. “Go on back to the kitchen, nigger. You go with him, bright boy.” The little man walked after Nick and Sam, the cook, back into the kitchen. The door shut after them. The man called Max sat at the counter opposite George. He didn’t look at George but looked in the mirror that ran along back of the counter. Henry’s had been made over from a saloon into a lunch counter.
          “Well, bright boy,” Max said, looking into the mirror, “why don’t you say something?”
          “What’s it all about?”
          “Hey, Al,” Max called, “bright boy wants to know what it’s all about.”
Why don’t you tell him?” Al’s voice came from the kitchen.
What do you think it’s all about?”
I don’t know.”
What do you think?”
Max looked into the mirror all the time he was talking.
I wouldn’t say.”
          “Hey, Al, bright boy says he wouldn’t say what he thinks it’s all about.”
I can hear you, all right,” Al said from the kitchen. He had propped open the slit that dishes passed through into the kitchen with a catsup bottle. “Listen, bright boy,” he said from the kitchen to George. “Stand a little further along the bar. You move a little to the left, Max.” He was like a photographer arranging for a group picture.
          “Talk to me, bright boy,” Max said. “What do you think’s going to happen?”
George did not say anything.
          “I’ll tell you,” Max said. “We’re going to kill a Swede. Do you know a big Swede named Ole Anderson?”
          “Yes.”
          “He comes here to eat every night, don’t he?”
          “Sometimes he comes here.”
          “He comes here at six o’clock, don’t he?”
          “If he comes.”
          “We know all that, bright boy,” Max said. “Talk about something else. Ever go to the movies?”
          “Once in a while.”
          “You ought to go to the movies more. The movies are fine for a bright boy like you.”
          “What are you going to kill Ole Anderson for? What did he ever do to you?”
          “He never had a chance to do anything to us. He never even seen us.”
          And he’s only going to see us once,” Al said from the kitchen:
          “What are you going to kill him for, then?” George asked.
          “We’re killing him for a friend. Just to oblige a friend, bright boy.”
          “Shut up,” said Al from the kitchen. “You talk too goddamn much.”
          “Well, I got to keep bright boy amused. Don’t I, bright boy?”
          “You talk too damn much,” Al said. “The nigger and my bright boy are amused by themselves. I got them tied up like a couple of girl friends in the convent.”
          “I suppose you were in a convent.”
          “You never know.”
          “You were in a kosher convent. That’s where you were.”
          George looked up at the clock.
          “If anybody comes in you tell them the cook is off, and if they keep after it, you tell them you’ll go back and cook yourself. Do you get that, bright boy?”
          “All right,” George said. “What you going to do with us afterward?”
          “That’ll depend,” Max said. “That’s one of those things you never know at the time.”
          George looked up at the dock. It was a quarter past six. The door from the street opened. A streetcar motorman came in.
          “Hello, George,” he said. “Can I get supper?”
          “Sam’s gone out,” George said. “He’ll be back in about half an hour.”
          “I’d better go up the street,” the motorman said. George looked at the clock. It was twenty minutes, past six.
          “That was nice, bright boy,” Max said. “You’re a regular little gentleman.”
          “He knew I’d blow his head off,” Al said from the kitchen.
          “No,” said Max. “It ain’t that. Bright boy is nice. He’s a nice boy. I like him.”
          At six-fifty-five George said: “He’s not coming.”
          Two other people had been in the lunchroom. Once George had gone out to the kitchen and made a ham-and-egg sandwich “to go” that a man wanted to take with him. Inside the kitchen he saw Al, his derby hat tipped back, sitting on a stool beside the wicket with the muzzle of a sawed-off shotgun resting on the ledge. Nick and the cook were back to back in the corner, a towel tied in each of their mouths. George had cooked the sandwich, wrapped it up in oiled paper, put it in a bag, brought it in, and the man had paid for it and gone out.
          “Bright boy can do everything,” Max said. “He can cook and everything. You’d make some girl a nice wife, bright boy.”
          “Yes?” George said, “Your friend, Ole Anderson, isn’t going to come.”
          “We’ll give him ten minutes,” Max said.
Max watched the mirror and the clock. The hands of the clock marked seven o’clock, and then five minutes past seven.
          “Come on, Al,” said Max. “We better go. He’s not coming.”
          “Better give him five minutes,” Al said from the kitchen.
In the five minutes a man came in, and George explained that the cook was sick.
Why the hell don’t you get another cook?” the man asked. “Aren’t you running a lunch-counter?” He went out.
          “Come on, Al,” Max said.
          “What about the two bright boys and the nigger?”
          “They’re all right.”
          “You think so?”
          “Sure. We’re through with it.”
          “I don’t like it,” said Al. “It’s sloppy. You talk too much.”
          “Oh, what the hell,” said Max. “We got to keep amused, haven’t we?”
          “You talk too much, all the same,” Al said. He came out from the kitchen. The cut-off barrels of the shotgun made a slight bulge under the waist of his too tight-fitting overcoat. He straightened his coat with his gloved hands.
          “So long, bright boy,” he said to George. “You got a lot of luck.”
          “That’s the truth,” Max said. “You ought to play the races, bright boy.”
The two of them went out the door. George watched them, through the window, pass under the arc-light and across the street. In their tight overcoats and derby hats they looked like a vaudeville team. George went back through the swinging door into the kitchen and untied Nick and the cook.
          “I don’t want any more of that,” said Sam, the cook. “I don’t want any more of that.”
          Nick stood up. He had never had a towel in his mouth before.
          “Say,” he said. “What the hell?” He was trying to swagger it off.
          “They were going to kill Ole Anderson,” George said. “They were going to shoot him when he came in to eat.”
          “Ole Anderson?”
          “Sure.”
          The cook felt the corners of his mouth with his thumbs.
          “They all gone?” he asked.
          “Yeah,” said George. “They’re gone now.”
          “I don’t like it,” said the cook. “I don’t like any of it at all”
          “Listen,” George said to Nick. “You better go see Ole Anderson.”
          “All right.”
          “You better not have anything to do with it at all,” Sam, the cook, said. “You better stay way out of it.”
          “Don’t go if you don’t want to,” George said.
          “Mixing up in this ain’t going to get you anywhere,” the cook said. “You stay out of it.”
          “I’ll go see him,” Nick said to George. “Where does he live?”
          The cook turned away.
          “Little boys always know what they want to do,” he said.
          “He lives up at Hirsch’s rooming-house,” George said to Nick.
          “I’ll go up there.”
          Outside the arc-light shone through the bare branches of a tree. Nick walked up the street beside the car-tracks and turned at the next arc-light down a side-street. Three houses up the street was Hirsch’s rooming-house. Nick walked up the two steps and pushed the bell. A woman came to the door.
          “Is Ole Anderson here?”
          “Do you want to see him?”
          “Yes, if he’s in.”
          Nick followed the woman up a flight of stairs and back to the end of a corridor. She knocked on the door.
          “Who is it?”
          “It’s somebody to see you, Mr. Anderson,” the woman said.
          “It’s Nick Adams.”
          “Come in.”
          Nick opened the door and went into the room. Ole Anderson was lying on the bed with all his clothes on. He had been a heavyweight prizefighter and he was too long for the bed. He lay with his head on two pillows. He did not look at Nick.
          “What was it?” he asked.
          “I was up at Henry’s,” Nick said, “and two fellows came in and tied up me and the cook, and they said they were going to kill you.”
It sounded silly when he said it. Ole Anderson said nothing.
          “They put us out in the kitchen,” Nick went on. “They were going to shoot you when you came in to supper.”
          Ole Anderson looked at the wall and did not say anything.
          “George thought I better come and tell you about it.”There isn’t anything I can do about it,” Ole Anderson said.
          “I’ll tell you what they were like.”
          “I don’t want to know what they were like,” Ole Anderson said. He looked at the wall. “Thanks for coming to tell me about it.”
          “That’s all right.”
          Nick looked at the big man lying on the bed.
          “Don’t you want me to go and see the police?”
          “No,” Ole Anderson said. “That wouldn’t do any good.”
          “Isn’t there something I could do?”
          “No. There ain’t anything to do.”
          “Maybe it was just a bluff.”
          “No. It ain’t just a bluff.”
          Ole Anderson rolled over toward the wall.
          “The only thing is,” he said, talking toward the wall, “I just can’t make up my mind to go out. I been here all day.”
          “Couldn’t you get out of town?”
          “No,” Ole Anderson said. “I’m through with all that running around.”
He looked at the wall.
          “There ain’t anything to do now.”
          “Couldn’t you fix it up some way?”
          “No. I got in wrong.” He talked in the same flat voice. “There ain’t anything to do. After a while I’ll make up my mind to go out.”
          “I better go back and see George,” Nick said.
          “So long,” said Ole Anderson. He did not look toward Nick. “Thanks for coming around.”
          Nick went out. As he shut the door he saw Ole Anderson with all his clothes on, lying on the bed looking at the wall.
          “He’s been in his room all day,” the landlady said downstairs. “I guess he don’t feel well. I said to him: ‘Mr. Anderson, you ought to go out and take a walk on a nice fall day like this,’ but he didn’t feel like it.”
          “He doesn’t want to go out.”
          “I’m sorry he don’t feel well,” the woman said. “He’s an awfully nice man. He was in the ring, you know.”
          “I know it.”
          “You’d never know it except from the way his face is,” the woman said.
They stood talking just inside the street door. “He’s just as gentle.”
          “Well, good night, Mrs. Hirsch,’ Nick said.
          “I’m not Mrs. Hirsch,” the woman said. “She owns the place. I just look after it for her. I’m Mrs. Bell.”
          “Well, good night, Mrs. Bell,” Nick said.
          “Good night,” the woman said.
          Nick walked up the dark street to the corner under the arc-light, and then along the car-tracks to Henry’s eating-house. George was inside, back of the counter.
          “Did you see Ole?”
          “Yes,” said Nick. “He’s in his room and he won’t go out.”
          The cook opened the door from the kitchen when he heard Nick’s voice.
          “I don’t even listen to it,” he said and shut the door.
          “Did you tell him about it?” George asked.
          “Sure. I told him but he knows what it’s all about.”
          “What’s he going to do?”
          “Nothing.”
          “They’ll kill him.”
          “I guess they will.”
          “He must have got mixed up in something in Chicago.”
          “I guess so,” said Nick.
          “It’s a hell of a thing!”
          “It’s an awful thing,” Nick said.
          They did not say anything. George reached down for a towel and wiped the counter.
          “I wonder what he did?” Nick said.
          “Double-crossed somebody. That’s what they kill them for.”
          “I’m going to get out of this town,” Nick said.
          “Yes,” said George. “That’s a good thing to do.”
          “I can’t stand to think about him waiting in the room and knowing he’s going to get it. It’s too damned awful.”
          “Well,” said George, “you better not think about it.”

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“Os assassinos”, de Ernest Hemingway. tradução de r.l.almeida.

          A porta do restaurante do Henry abriu e dois homens entraram. Sentaram-se ao balcão.
          “O que vai ser?” George perguntou-lhes.
          “Eu não sei”, um dos homens disse. “O que você quer comer, Al?”
          “Não sei”, disse Al. “Ainda não sei o que quero comer.”
          Escurecia lá fora. Adentravam as luzes dos postes pela janela. Os dois homens no balcão liam o cardápio. Na outra parte do balcão Nick Adams só observava. Ele e George conversavam, quando os dois entraram.
          “Vou comer o porco grelhado no molho de maçãs e purê de batatas,” disse o primeiro homem.
          “Não está pronto ainda.”
          “Por que diabos você coloca isto no cardápio, então?”
          “Isso é para a janta,”, George explicou. “Você pode comer isso às seis horas.”
          George olhou para o relógio na parede atrás do balcão.
          “São cinco horas.”
          “O relógio diz cinco horas e vinte minutos,” disse o segundo homem.
          “Quase vinte minutos.”
          “Ora, para os diabos com o relógio”, o primeiro homem disse. “O que
você tem aqui para mastigar?”
          “Eu posso fazer qualquer tipo de sanduíches,” George disse. “Vocês podem comer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.”
          “Quero croquetes de frango com ervilhas verdes e creme apimentado, e purê de batatas.”
          “Isto é para a janta.”
          “Tudo o que nós queremos é para jantar, certo? É assim que vocês trabalham aqui.”
          “Eu posso oferecer a vocês presunto e ovos, bacon e ovos, fígado – “
          “Escolho presunto e ovos,” disse o homem de nome Al. Vestia um chapéu escuro e uma casaca negra com botões, cruzando o peito. Sua face era pequena e branca, seus lábios finos. Usava cachecol de seda e luvas.
          “Dê-me bacon e ovos,” disse o outro homem. Ele era quase do mesmo tamanho de Al. Rostos bem diferenciados, mas vestidos quase idênticos. Os dois com sobrecasacas muito pequenas para cada um. Sentavam-se inclinados para a frente, com os cotovelos no balcão.
          “Tem alguma coisa para beber?” Al perguntou.
          “Cerveja clara, refris, pinga de gengibre,” disse George.
          “Eu perguntei se você tem alguma coisa para beber?”
          “Apenas estes que eu disse.”
          “Esta é uma cidade quente,” disse o outro. “Como eles chamam aqui?”
          “Do Alto.”
          “Já ouviu dizer daqui?” Al pergunta ao amigo.
          “Não,” responde o amigo.
          “Sabe o que eles fazem nas noites?” Al perguntou.
          “Eles comem a janta,” seu amigo disse. “Todos vêm aqui e manjam uma grande janta.”
          “Só é,” disse George.
          “Então você acha que é isso mesmo?” Al pergunta a George.
          “Com certeza.”
          “Você é bem espertinho, não é verdade?”
          “Com certeza,” disse George.
          “Bem, você não é,” disse o outro pequeno homem. “Ele é, Al?”
          “Ele é estúpido,” disse Al. Ele se volta para Nick. “Qual é teu nome?”
          “Adams.”
          “Outro menino de ouro,” disse Al. “Ele não é uma gracinha, Max?”
          “A cidade é cheia de espertinhos,” Max disse.
          George pousa as duas bandejas, uma de presunto e ovos, a outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Ele sentou dois pratos de fritas e fechou a portinhola da cozinha.
          “Qual é o teu?” pergunta a Al.
          “Não se lembra?”
          “Presunto e ovos.”
          “Só mais um menino de ouro,” disse Max. Inclinando-se para a frente pega o presunto e ovos. Os dois homens comeram vestindo as luvas. George observava-os a comer.
          “O que é que está olhando?” Max olhava George.
          “Nada.”
          “O inferno que era. Você estava olhando para mim.”
          “Talvez o rapaz tenha feito uma brincadeira, Max,” Al disse.
          George riu.
          “Você não tem que rir,” Max lhe disse. “Você não tem que rir disso, entende?”
          “Tudo bem,” disse George.
          “E agora ele pensa que está tudo bem.” Max se volta para Al. “Ele pensa que está tudo bem. Essa é muito boa.”
          “Ora, mas é um pensador,” Al disse. Eles continuaram comendo.
          “Qual o nome do menino de ouro do outro lado do balcão?” Al perguntou a Max.
          “Ei, meninão,” Max disse a Nick. “Você vai para o outro lado do balcão com o seu amiguinho.”
          “Qual é a idéia?” Nick perguntou.
          “Não existe nenhuma.”
          “É melhor você ir para o outro lado, menino de ouro,” Al disse. Nick foi para trás do balcão.
          “Qual é a idéia?” George perguntou.
          “Não interessa aos teus negócios,” Al disse. “Quem está lá atrás, na cozinha?”
          “O negrão.”
          “Como assim, o negrão?”
          “O negrão cozinheiro.”
          “Mande-o vir para cá.”
          “Qual é a idéia?”
          “Mande-o vir para cá.”
          “Aonde vocês acham que estão?”
          “Nós sabemos muito bem aonde estamos,” disse o homem de nome Max. “Nós parecemos loucos?”
          “Você que fala engraçado,” Al disse. “Pra que diabos você conversa com esses moleques? Ouça,” ele disse para George, “diga ao negrão para vir aqui fora.”
          “O que você vai fazer com ele?”
          “Nada. Use sua cabeça, menino de ouro. O que faríamos com um negrão?”
          George abriu a portinhola de acesso à cozinha. “Sam,” ele chamou. “Venha até aqui rápido.”
          A porta da cozinha abriu e o negrão entrou. “O que foi?” ele perguntou. Os dois homens no balcão deram uma olhada nele.
          “Pois bem, negrão. Você fica bem aí,” Al disse.
          Sam, o negrão, parado em avental, olha para os dois homens sentados ao balcão. “Pois não, senhor,” ele disse. Al desce da cadeira.
          “Vou voltar para a cozinha com o negrão e o menino de ouro aqui,” ele disse. “De volta pra cozinha, negrão. Você vai com ele, menino de ouro.” O pequeno homem andou atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, de volta para a cozinha. Fecha a porta depois que somem. O homem de nome Max sentou-se do lado oposto a George no balcão. Não mirava George, mas o espelho que corria ao longo do balcão. Henry tinha adaptado seu bar antigo para o atual restaurante.
          “Pois bem, menino de ouro,” Max disse, através do espelho, “por que não diz algo?”
          “O que está acontecendo aqui?”
          “Ei, Al,” Max chamou-o, “o menino de ouro quer saber o que está acontecendo aqui.”
          “Por que não conta pra ele?” vinha da cozinha a voz de Al.
          “Sobre o que você acha que é tudo isso?”
          “Eu não sei.”
          “O que você acha?”
          Max olhava através do espelho o tempo todo em que conversava.
          “Eu nem imagino.”
          “Ei, Al, o espertinho disse que nem imagina o que está acontecendo aqui.”
          “Dá para ouvir vocês daqui, entendi,” diz lá de dentro o tal do Al. Ele manteve aberta a portinhola pela qual os pratos chegam da cozinha com uma garrafa de catchup. “Olha aqui, menino de ouro,” ele disse da cozinha para George. “Fique um pouco mais para o meio do bar. E você um pouco mais para a esquerda, Max.” Ele era como um fotógrafo preparando uma foto de grupo.
          “Fale comigo, espertinho,” Max disse. “O que acha que vai acontecer?”
          George não disse nada.
          “Eu te conto,” Max disse. “Viemos assassinar um sueco. Você conhece um sueco grandalhão, de nome Ole Anderson?”
          “Sim.”
          “Todas as noites ele vem aqui para a janta, não vem?”
          “Quando vem.”
          “Nós sabemos de tudo isso, espertinho,” Max disse. “Diga-me sobre outra coisa qualquer. Costuma ir ao cinema?”
          “De vez em quando.”
          “Você deveria ir mais ao cinema. O cinema é bom para um menino de ouro como você.”
          “Por que vão matar Ole Anderson? O que ele já fez contra vocês?”
          “Ele nunca nem teve a chance de fazer nada contra nós. Ele que nunca nem nos viu.”
          “E só vai ver uma única vez,” Al disse da cozinha.
          “Por que matar, então?” George perguntou.
          “Nós vamos assassiná-lo para um amigo. Apenas para agradar a um amigo, menino de ouro.”
          “Cala a boca,” diz da cozinha o tal do Al. “Você fala demais.”
          “Bem, eu preciso manter o menino de ouro aqui interessado. Não preciso, espertinho?”
          “Você fala por demais,” Al disse. “O negrão e o meu espertinho aqui estão interessados por eles mesmos. Tenho os dois amarrados igual duas amiguinhas do convento.”
          “Falou o cara do convento.”
          “Nunca se sabe.”
          “Você fez convento kosher. É num desses que você esteve.”
          George olha para o relógio.
          “Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se eles continuarem depois disso, você diz que vai lá atrás e cozinhar você mesmo. Entendeu até aqui, espertinho?”
          “Tudo bem,” George disse. “O que vão fazer conosco depois de acabar?”
          “Isso vai depender,” Max disse. “É uma daquelas coisas que só se sabe na hora.”
          George olha para o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu. Um taxista entrou.
          “Olá, George,” ele disse. “Já está pronto o jantar?”
          “Sam sumiu,” George disse. “Deve voltar daqui a uma meia hora.”
          “É melhor pegar a pista,” o motorista disse. George olhou para o relógio. Já eram vinte minutos depois das seis.
          “Isso foi bonito, menino de ouro,” Max disse. “Você é o perfeito cavalheiro do dia a dia.”
          “Ele sabia que eu ia explodir sua cabeça,” disse o tal do Al, lá da cozinha.
          “Não,” disse Max. “Não foi assim. O menino de ouro é educado. É um rapaz educado. Gosto dele.”
          Às seis e cinqüenta e cinco George disse: “Ele não vem.”
          Outras duas pessoas estiveram na lanchonete. E uma vez só George teve de entrar na cozinha e preparar um sanduíche com presunto-e-ovos “para viagem” que um homem queria levar consigo. Dentro da cozinha, viu Al, seu chapéu escuro levantado, sentado numa cadeira ao lado da janelinha com a boca de uma espingarda de cano serrado à espera, ao seu lado. Nick e o cozinheiro estavam de costas um para o outro no canto, uma toalha amarrando cada boca. George cozinha o sanduíche, embrulha num papel oleoso, para viagem numa sacola, trouxe para a frente, e o homem pagou pelo lanche e foi embora.
          “O menino de ouro faz mesmo de tudo,” disse Max. “Sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria qualquer garotinha se sentir uma boa esposa, meninão.”
          “Acha mesmo?” George disse. “Seu amigo, Ole Anderson, não parece que vai vir, não.”
          “Daremos dez minutos a ele,” disse Max.
          Max olhava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois, mais cinco minutos.
          “Vamos embora, Al,” disse Max. “Melhor nós irmos. Ele não vem.”
          “Melhor lhe darmos cinco minutos,” disse o tal do Al, da cozinha.
          Nestes cinco minutos um homem entrou, e George explicou que o cozinheiro estava doente.
          “E você não tem um cozinheiro reserva?” o homem perguntou. “Como você gerencia esta lanchonete?” Ele saiu.
          “Vamos embora, Al”, disse Max.
          “E os dois espertinhos e o negrão?”
          “Eles estão bem.”
          “Você acha mesmo?”
          “Claro. Nós já passamos por isso.”
          “Eu não gosto disso,” disse Al. “É bobeiragem. Você fala demais.”
          “Ora, mas que diabos,” disse Max. “Nós temos que deixá-los interessados, não temos?”
          “Você fala demais, sempre assim,” Al disse. Ele voltou da cozinha. Os canos serrados da espingarda fazia uma pequena saliência sobre o peito de sua apertada sobrecasaca. Ele ajustou a casaca com as mãos que ainda vestiam luvas.
          “Até mais, menino de ouro,” ele disse a George. “Você tem muita sorte.”
          “Isso é uma verdade,” disse Max. “Você deveria tentar apostar nos cavalos, meninão.”
          Os dois saíram porta afora. George observava-os, através do espelho, passando o arco de luz cruzando a rua. Com suas casacas apertadas e chapéus escuros os dois pareciam uma trupe de atores itinerantes. George foi para trás, atravessando a portinhola sanfonada, dentro da cozinha desamarrou Nick e o cozinheiro.
          “Nunca mais quero isso,” disse Sam, o cozinheiro. “Eu não quero nunca mais nada disso.”
          Nick ficou de pé. Ele nunca tinha tido uma toalha dentro da boca, antes desta vez.
          “Diga,” disse ele. “Mas com que diabos?” Ele estava tentando entender a situação.
          “Vieram aqui para matar Ole Anderson,” George disse. “Iam atirar nele assim que viesse comer.”
          “Ole Anderson?”
          “Com certeza.”
          O cozinheiro sentia os cantos de sua boca com seus dedos.
          “Eles foram embora mesmo?” ele perguntou.
          “Sim,” disse George. “Foram embora agora.”
          “Eu não gosto disso,” disse o cozinheiro. “Eu não gosto de nada disso mesmo.”
          “Olha,” George disse a Nick. “É melhor irmos ver Ole Anderson.”
          “Tudo bem.”
          “É melhor vocês não terem nada que ver com isso,” Sam, o cozinheiro, disse. “É melhor ficarem bem longe disso.”
          “Não vá se você não quiser,” George disse.
          “Se envolver nisso não vai levar vocês a lugar nenhum,” o cozinheiro disse.           “Fiquem fora disso.”
          “Eu irei vê-lo,” Nick disse a George. “Aonde ele mora?”
          O cozinheiro se virou.
          “Rapazinhos sempre sabem o que querem fazer,” ele disse.
          “Ele mora na sobre-loja do Hirsch,” George disse a Nick.
          “Vou até lá.”
          Fora, o arco de luz brilhava através dos galhos nus de uma árvore. Nick andou rua acima, seguia os trilhos quando virou a rua lateral no arco de luz seguinte. Três casas acima, naquela rua, ficava a sobre-loja do Hirsch. Nick subiu dois andares e tocou a campainha. Uma mulher veio à porta.
          “Ole Anderson está?”
          “Você quer vê-lo?”
          “Sim, se ele estiver.”
          Nick seguiu a mulher em mais um lance de escadas e até o final do corredor. Ela bateu na porta.
          “Quem bate?”
          “É alguém que veio vê-lo, Sr. Anderson,” disse a mulher.
          “Eu sou Nick Adams”
          “Entre.”
          Nick abriu a porta e adentrou a sala. Ole Andreson estava deitado na cama, completamente vestido. Ele já tinha sido premiado lutador peso-pesado e estava há muito na cama. Pousava a cabeça em dois travesseiros. Ele não olhou para Nick.
          “O que foi?” ele perguntou.
          “Eu estava no Henry,” Nick disse, “ e dois companheiros entraram e me amarraram e ao cozinheiro, dizendo que tinham vindo para assassiná-lo.
Soou como uma brincadeira quando ele disse. Ole Anderson nada disse.
          “Eles nos colocaram na cozinha,” Nick continuou. “Eles iam atirar em você assim que entrasse para comer.”
          Ole Anderson olhava a parede, nada disse.
          “George achou melhor que eu viesse, e lhe contasse o que aconteceu.”
          “Não há nada que eu possa fazer sobre o que aconteceu,” Ole Anderson disse.
          “Posso lhe dizer como eles eram.”
          “Eu não quero saber como eles eram,” disse Ole Anderson. Ele olhava a parede. “Obrigado por vir me contar.”
          “Não tem de quê.”
          Nick olhou para o homenzarrão deitado na cama.
          “Não quer que eu vá e chame a polícia?”
          “Não,” Ole Anderson disse. “Isso não faria nada de bom.”
          “Não há algo que eu possa fazer?”
          “Não. Não há nada a fazer.”
          “Talvez fosse só um blefe.”
          “Não. Não foi só um blefe.”
          Ole Anderson rolou-se para perto da parede.
          “A única coisa é que,” ele disse, falava enquanto se aproximava da parede, “eu só não consigo me convencer a sair. Estive aqui dentro o dia todo.”
          “Você não poderia sair da cidade?”
          “Não,” Ole Andreson disse. “Eu estou cheio dessa correria toda por aí.”
Ele olhava a parede. “Não há mais nada a fazer, agora.”
          “Você não poderia consertar isso de algum jeito?”
          “Não. Eu venci no erro.” Ele falou com a mesma voz plana. “Não há nada a fazer. Daqui a algum tempo, eu consigo sair.”
          “É melhor eu voltar e ir ver George,” Nick disse.
          “Até mais,” disse Ole Anderson. Ele não olhou para Nick. “Obrigado por ter vindo.”
          Nick saiu. Enquanto fechava a porta, viu uma vez mais Ole Anderson completamente vestido, deitado numa cama olhando para uma parede.
          “Ele esteve aí dentro o dia inteiro,” disse lá embaixo a senhoria. “Acho que não se sentia bem. Disse a ele: ‘Sr. Anderson, o senhor devia sair, dar uma andada em um dia lindo de Outono igual hoje’, mas ele não ficou com vontade.”
          “Ele não quer sair.”
          “Sinto muito que ele não esteja bem,” a mulher disse. “Ele é um homem terrivelmente bom. Ele esteve nos ringues, você sabe.”
          “Sei, sim.”
          “Você nunca adivinharia, não fosse pelo jeito que o rosto ficou,” a mulher disse. Eles falavam parados na frente da porta da rua. “Ele é tão educado.”
          “Bem, boa noite, Sra. Hirsch,” disse Nick.
          “Eu não sou a Sra. Hirsch,” a mulher disse. “Ela é a dona do lugar. Eu apenas cuido daqui para ela. Eu sou a Sra. Bell.”
          “Bem, boa noite, Sra. Bell,” disse Nick.
          “Boa noite,” a mulher disse.
          Nick andou a rua escura até a esquina embaixo do arco de luz, e então junto dos trilhos até a cantina do Henry. George estava dentro, atrás do balcão.
          “Encontrou Ole?”
          “Sim,” disse Nick. “Ele está em seu apartamento e não vai sair.”
          O cozinheiro abriu a porta da copa quando ouviu a voz de Nick.
          “Eu não estou ouvindo isso,” ele disse e fechou a porta.
          “Contou-lhe o que aconteceu?” George perguntou.
          “Com certeza. Contei, mas ele sabe sobre o que é tudo isso.”
          “O que ele vai fazer?”
          “Nada.”
          “Irão matá-lo.”
          “Eu acho que sim.”
          “Ele deve ter se envolvido em alguma coisa em Chicago.”
          “Também acho,” disse Nick.
          “É uma coisa dos diabos!”
          “É uma coisa terrível,” disse Nick.
          Depois disseram mais nada. George abaixou-se procurando uma toalha e limpou o balcão.
          “Eu me pergunto o que ele fez?” Nick disse.
          “Deu um cruzado duplo em alguém. Por isso que vieram matar.”
          “Eu vou sair dessa cidade,” Nick disse.
          “Sim,” disse George. “Esta é uma coisa esperta de se fazer.”
          “Eu não aguento pensar nele, esperando no quarto e sabendo o que vai acontecer. É muito terrível isso.”
          “Bem,” disse George, “então é melhor parar de pensar nisso.”

 

hemingway-guima

          direto de Do Alto, Illinois, EUA, de volta ao Brëzyl, para oferecer um autor tupiniquim ao mundo que lê, pensa, fuma & come em inglês do tio Sam, o Agente Laranja, inglês assemelhante ao do bardo de Stratford-Lá-Do-Alto-Do-Rio-Avon. o caso de hoje é nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, no vigésimo sétimo dia de Junho de 1908: João Guimarães Rosa, humanista, médico, diplomata &, por fim mas desde cedo, escritor – diga-se rapidamente: um dos poucos críveis brasileiros com know-how para o Nobel em Literatura. a minha versão em inglês deve ser a 300ª deste texto; enfim: vamos lá!

          porque Guimarães Rosa escreve como se estivesse dentro de sua pequena cidade natal, falando de igual para igual com todo e qualquer cidadão do mundo. Guimarães Rosa é universal, sendo particular. foi indicado para a Academia Brasileira de Letras em 1963, & postergou sua posse por quase 4 anos, tremetemendo o rótulo de “imortal” – tremeu até três dias depois da posse da cadeira de número dois, quando foi pimba!, no átrio esquerdo do miocárdio!, lá se vai mais um João!

          Guimarães Rosa ainda menino vai com a família para Belo Horizonte, depois para São João Del Rey, mais uma vez de volta à capital mineira: cursa Medicina, na Universidade Federal de Belo Horizonte, aos 16 anos. no mesmo ano em que se forma, 1930, também contrai o primeiro matrimônio, com Ligia Cabral Penna – com quem terá duas filhas. depois de formado, passa algum tempo em Itaguara, depois em Barbacena, e, quando chega a Revolução Constitucionalista de 1932, alista-se primeiro como voluntário à Força Pública e depois presta a prova, sendo admitido como doutor da infantaria do 9o batalhão. Guimarães já tinha visto muito do Sertão. do Cangaço. do Banditismo Por Necessidade. a este tempo de itinerância o escritor recordará como período vital à forma & sentido de sua escrita.

          em 1934, mais um concurso lhe permite adentrar outra carreia, agora a diplomática, onde permanecerá como funcionário público até o fim da vida: em 1938 está assistente do consulado em Hamburgo, na Alemanha, encarregado da seção de vistos em passaportes, da assistência aos concidadãos na terra do Führer, de representar o embaixador & de manter contatos com autoridades ou personalidades em cidades onde não está situada a embaixada, o que fomenta relações cultura-comerciais. para Guimarães Rosa, o trabalho de embaixada é diferente de tudo o que já tinha tentado – é aí que conhece Aracy de Carvalho, funcionária da embaixada que vai entrar para a História como a única mulher (& o segundo cidadão brasileño) a figurar no Jardim dos Justos Entre as Nações, memorial em Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto. Casa-se com Aracy em 1940.

aracydecarvalho

          Guima começa escrevendo poesia -anonimamente, codinome “Aviator” -para um concurso da ABL (premiado em 1934!), mas seu único volume de versos só chega ao público postumamente, em 1997, pela Editora Nova Fronteira, na coleção “Magma”. Guima presta um outro concurso, oferecimento da Livraria José Olympio, em 1938, onde propõe “Sagarana” quase como o conhecemos da publicação de 1946 (excluídos três contos, & de novo pelo codinome “Aviator”): escrito dos seus anos loucos do período 1926~1931. a publicação só vem em 1946, depois de várias revisões, & com ela, Guimarães Rosa inicia sua travessia no meio literário. neste primeiro trabalho já se faz notar o regionalismo enquanto experiência universal. entremeado ao trabalho institucional, que lhe põe novamente em contato com as particularidades de cada uma das entranhas do país, continua sua escrita.

          publica em 1956 “Corpo de baile” (7 contos um pouco mais longos, quase novelas), & algumas semanas depois, o inegüalável “Grande Sertão: Veredas”. uma travessia: dois tomos da mesma única & grande história de um Universo (na verdade, em três tomos, porque o “Corpo de bale” já tinha saído em dois livros, na sua primeira edição, quase 400 páginas). o pano de fundo onde acontece a ação, no entanto, é o mesmo etéreo espaço universal, mas “Veredas” é estrelado pelo jagunço Riobaldo, & no outro livro, vários personagens protagonistas em seus afazeres particulares, entrecortados simultaneamente.

          para fechar o caleidoscópio, “Primeiras estórias” (com 21 contos curtos) chega em 1962, & revela-se novamente uma guinada na escrivinhagem de Guima: porque, se no alto de suas mais de 500 páginas “Grande Sertão: Veredas” é um grande parágrafo, sem divisões de capítulos, contado vivido através da fala jagunça & simples de Riobaldo ao seu interlocutor, nunca nominado mas sempre referenciado, as “Primeiras estórias” é um volume denso, pouco mais de 150 folhas, às vezes em um narrador personagem, outras vezes com um narrador em 3a Pessoa: onde a forja de palavras chega ao seu ápice, o que envolve um complicado processo de origens das palavras, nos quase doze idiomas em que era fluente o autor. mais um ápice, lá de Do Alto, também.

          “Grande Sertão: Veredas” é seu máximo, digno a Thomas Mann & “A montanha mágica”, James Joyce & “Ulisses”, Homero & a “Ilíada”, livros em que o significado está sempre em rotação, onde cada experiência de leitura é uma nova experiência porque a experiência de vida está necessariamente ligada à experiência de texto. tijolos essenciais na construção do repertório literário, densos em sua prosa igual a uma boa poesia, que carrega a densidade nas palavras, soltas & vivas. uma prosa ainda, e ainda igual à necessidade do poeta: comunicar; culturalmente; socialmente; visceralmente. belo, belo: belo – – – infinitamente.

“A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa. in: “Primeiras estórias”. 4a. impressão, Editora Nova Fronteira, RJ, 2005.

          Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente —minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
          Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o rem ador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
          Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. No sso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
          Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
          Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda —descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
          No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao – longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
          Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
          A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta – de – ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável.
          Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
          Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
          Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda- sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
          Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinhaantecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
          Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio- rio – rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
          Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
          Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
          Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

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at the river’s third margin, by João Guimarães Rosa. Translate by r.l.almeida

          Our father, he were an under compliance, systematic, positive man; and has been ever since tiny kid and boy, such as the testify of a bunch of good old sensitive folks, when I have inquired for this info. From wich I myself remember, he did not looked like the sloppiest neither the saddest person, within our circle. Only very quietful. It was our mother who reign, who was with us in the everydays chides – – – my sister, my brother, and myself. Happened that, one certain day, our father indented himself a canoe.
          It was serious. Because he asked for a special canoe, a one with planthymenian woods, and small, severius with just a smidge of wood on the aftersails, it was meant to fit only the oarsman. Indeed it was personalized from the beginning, choosed strong and fit to arches, thought to last over the seas for twenty maybe thirty years. Our mother, she swoared against his deeds. Could it be that he, no fool in such domains, was about to go huntings and fishings? And our father, no thing he said. Our home, there in time, was still so close to that river, not even a quarter mile from our house: and then the river, it begun its large extension, deep, mute as ever. Broad and ample, could not be sawn the other reach even if you tried. And forget I can not, from the day the canoe finally was ready.
Without happiness nor careful, our father he shove his hat on and shoar
ed us a goodbye. He did not said anything else, he did not make a bag, neither a case, and he did not gave us any recommendation, surely. Our mother, we thought she was going mad, but there she stood pale and white, chewed them lips and then in simple lines: – – – “U go, you shall stay, never come back!”. Our father, he retarded his answer. Sent me some coverage eyes, nodding me to step aboard, for only a few steps. I have feared my mother’s rage, but obeyed, once and indeed. The way the things passed by, that encouraged me, I have carved my way and ask him: – – – “Dad, can you carry me too, in that canoon of yours?” He glanced me back a look, gave me his blessings, in the end it send me back. I have pretended to be in it, made a U-turn, crouched inside the woods, wanting to see. Our father, he entered his canoe and untied it, went on to roaring. And the canoe went away – – – it’s shadow always the same, likewise an alligater, narrow wide.
Our father, he never came back. He did not went any where. Was only playing as if he was going to be in there, among rivers, in between the middles, always aboard his canoe, from it he never departed, never more. The strangeness in this story stirred all of the people. That what can not be, it was happening. Our relatives and
neighbors and acquaintancèes got together, forged a joint council.
Our mother, she was so ashamed, beared herself very
guilelessness; and that is why they all thought of our dad what nobody wanted to say: lunaticness. There where a few who thought it was payment for some promisse; or it may be, that our father, who knows, fearing some ugly disease, whatever it may, Hansen’s, he was leaving for another path he should walk by, near and away from his family. And then it was the news through the voices of certain persons – – – the passing bys, the riverines and even the people living in the shelters across our lines – – – descrybing how our father, he was so sure about not to step the ground, not in here, neither in there, not by days, neither by nites, that’s the way he was across the river, alone and unattached. And then, it happened, our mother and our families, ashured: it would happen that his food, hidden inside the canoe, it would decay; and perhaps, he would disengage his canoe and travel for the far aways, into the ever, and this it was what it was the more certain, or perhaps he would regret, once and for all, back home.
In this no wrong can I be. I myself gave me the task to bring him, every single day, portions of burglarized food: an idea I have felt, in the very first nite, when our people lit watchfires along the
rears of the river, thus enlightening the prayers and the summons. Then, in the following, I have showed myself, with some brown sugar, loaf of bread, bananas in a bunch. I could see our father already passed one hour, so irksome to pass; alike alone, he into the fars, sat at the back of his canoe, hanged over the smooth river. He saw me, did not roared towards, did not saluted. I revealed him what to eat, placing it on an empty stone, safe from the beast intervention and dry from the rain and the mist. Is this, what I did, and did again, always, by and into the ages. Surprised me a little later: my mother, she knew this job of mine, disguising herself to not to know about it; herself she was spearing, making easy, the leftovers, for my success. Our mother, she so much not demonstrate her self.
Sent a uncle of ours, her brother, to aid into farm and bussines. Sent a tutor, to we, the kids. Entrusted the vicar to one day revet, at the beach in the margin, to cast away and to supplicate that
our father could give up his duty of so sad mulishness. And then one time when, she herself had arranged to, just for the scary, the two soldiers passed by. Everything it had not worked for anything. Our father just wandered along, sometimes in sight and other times waterish and scattered, he crossing his canoe, never allowing no one ever to be near or to be heard. Even in the time when, not so long ago, the people from the news, they have came in big large boats saying they would shot him, they did not won: our father simply vanishes into other plains, stern his canoe onto the marshes, lasting long leagues of it, among grass an lawn, he alone has the know how to, kilometers away, into the darkness of that.
We had to get used to that. Well, for the sake of honey and beans: with that, we never became used with, if I may tell the truth. I can say this for myself, because it never really mattered if I was willing for or not, I could only be found when I was with my father: a matter that torn away my thoughts. It was cruelty, because we could not understand, in any comprehensive way, how could he manage it. Day in, nite out, it may be raining or may be sun, heat, fog,
even when those cold and awful winter mornings, no nothing, only his old hat on the head, the weeks passing by, and months, and the years and you do not know what it is to make a living. He never set foot any of the margins, neither on the islands or on the gulfs from the river, he never more stand over the ground or the grass. It was certain, at least, that, only while he slept, that’s when he parks his canoe, somewhere outlining the borders, in a glimpse. But he did not set fires on the beach, also did not had artificial lights, never more stoke another match. What he could eat, this also was only a smidge of: from the piles he got from us, among the roots from the trees, or inside a stone in the cliffs, he used to take very few from it, not the enough.
How could not got sick? And the ever strong arms, always hovering the cano
e, in resistance, even when the tides were high, think to cross up, that’s when everything is more dangerous, those bodies from the beasts and also the branches from the trees that go down – – – to surprise to stumble. And he never spoke no more word, to no one. Us, we too, we spoke about him no more. Only in thoughts. No, our father could not be forgotten; and, if, when rapidly forgotten, in our pretends, it was only for a new awake, sudden, in a memoir, along side other interesting twists.My sister got married; our mother wanted no party. We were with him in thinking, in the days we got a more delicious supper; just alike, in the nites we were sacked, in those helplessness nites of lots of rain, cold and bulky, our father only his hand and a mug to empty his canoe from the water of the stormy winds. There where times when, among our friends someone said I was every day much more alike our father. But I knew that now he wore long hair, bear, with long finger nails, insane and thin, going brown with the sun and very hairy, like a beast, virtually naked, even with all the clothing provided by us every now and then.
He did not care about us anymore; had no more affection? But, by affection indeed, and respect, whenever I got a compliment, due to some of my fine procedure, I always answered: – – – “It was my father who taught me s
o…”; and this was not so certain, precise; but, it was a lie meant to be a true. And the thing is, if he did not remember, and if he did not care about us anyways, why, then, to live up in the river, or perhaps down the river, no any other place, away, inside the untraceable? Only he can answer. But my sister had a little boy, and she herself put in her minds go and show him his grandson. Everybody, we went, standing in the cliff, it was a beautiful day, my sister wears a white dress, the wedding dress, she lifts her little kid up within her arms, and her husband holds, protecting them all, the sun umbrella. All of us, we all called him, waited for him. Our father, he did not showed up. My sister cried, we all cried in there, among in embrace.
My sister moved, and her husband, way yonders. And then my brother made his mind and went, to a city. The times were in a change,
that is the slow speedness of times. And then our mother, she also went away, once and for all, to live with my sister, she was deeply aged. I rested in here, a remain. I would never want marry. I have remained, along with the luggages of live. Our father needed me, I am sure – – – in his wander along the quiet river – – – without ever agreeing about what he chosed to do. It happened once, when I really wanted to know, and went steady inquiring, to me said someone as someone told: as the story has it our father, only once, had revealed an explanation, and it was to the man who set his canoe. Only, for now, this man was already deceased, so no one knew, nor could have a slight remembrance, no thing, no more. Only senseless conversations, fake, just like, with the river’s early tides, in the beginning, arose all those never stopping rains, everybody feared the apocalipse, saying: it was our father a chosen one like Noah, and that, therefore, is because he advanced with his canoe; just now I can barely interremember. My father, I could not maligne him. And already signing my first early grey hairs.
I am a man of constant sorrow and sad spoke. What gave me so much, many guilt?
If my father, always marking his absence: and the river-river-river, the river endless stepping. I suffered the early elderness – this life was only about decayness. I myself had aches, anxieties, in my bottoms, fatigue, fringes of rheumatism. What about him? And why? He should be in a terrible pain. He was so old, could not avoid, it will happen today or tomorrow, a weak in his strength, the canoe goes overturned, perhaps floating no directions, onto the mood of the river, a few more hours he will crash, topsy, turvy, down the waterfall, who is mean, filled with boil and death. That ached me heart. Because he was in there, not in my companion. I do not know why but i am guilty, maybe an unsolved grief, from my inners. Only if he knew – – – if the things were different. And I begun to think about it.
          Without any preparation. Am i crazy? No. In our home, the word crazy it was not spelled, has not ever been spelled, in all those years, no one was claimed crazy. No one is crazy. Or, may be, we all are. What I did, just went there. I carried a handtissue, may this wave carry me more. I was my own master. Waited. When finally, he appeared, in here but still in there, so shadow. There he was, sitting by the rear. There he was, in a scream. Called, like fourty times. And saying, what was more urgent for me, sweared and declared, I carried some strength to my voice: – – -“Dad, you have became old, already worked what you should…For now, you may come here, there is no more need to. . .You may come here, and I, right now, whenever you feel like it, to both our wishes, I can replace your spot, yours, in the canoon! . . .” And by saying this, my heart begun a more confortable beat.
And he listened to me. Stood over his feets. Man
ished his oar hover the waters, heading towards me, agreeded. And I was shaking, frightened, so suddenly: because, before, he raised his arms and wave me a salute within his face – – – the first, after so many years that passed by! And I simply could not. . . In a fringe, horrified, I have runned away, to hide, in a foolish behavior. It was because he seemed to me: as sent way yonders. And here I am asking, asking, asking for forgiveness.
I have suffered a severe cold of the fears, f
ell ill. I know that no one else ever listened from him. Am I still a man, now that I have weakened? I am the one who was not, the one that will keeps his mouth shut. I know that now it’s too late, and I fear my life shall soon be ceased, a shallow plain. But, only, if you may, for my obituary, take me, place me inside a shallow and petty little canoe, that will
never stops, with wide spreads: and, I, down the river, up the river, river run – – – the river.

 

14.xicara

          fechando mais um “Domando os dragões pelo lombo”, diz aí se não é este o nome dessa sessão!!