Duas canções, duas traduções

salve, salve, minha azul & ingrata bloguesfera nossa de cada dia! mais um episódio do “Duas canções, duas tradudogs” no ar, hoje rememorando a mulher & as mulheres que tanta vida dão para que a Vida do mundo aconteça. hoje a experiência é verter do Espanhol ao Português, e do Português ao Inglês: de um lado, a folclorista Violeta Parra; do outro, o jornalista Adoniram Barbosa.

Violeta Parra é o nome de escritora de Violeta del Carmen Parra Sandoval,
nascida no quarto dia de Outubro de 1917, em San Fabián ou talvez em San Carlos, no Chile, a terceira filha numa linhagem de nove (a primeira das três mulheres em toda a prole). os filhos do casal Parra-Sandoval desde muito crianças já se inclinavam aos dotes artísticos, imitando artistas que itineravam pelo vilarejo: as crianças realizavam frequentes reuniões & soirées nas cercanias do bairro, naturalmente cobrando poir suas performances. Violeta já toca violão aos nove, e aos doze compõe sua primeira música. Violeta é sobrevivente de varíola, que só foi considerada erradicada em 1980. a família Parra teve que dar muito duro depois da perca do patriarca em 1929. Violeta torna mais frequente as apresentações em clubes, às vezes com as irmãs Hilda & Clara, e normalmente com os irmãos Eduardo & Roberto, interpretando boleros, rancheras & toadas do cancioneiro popular chileno. seu irmão, Nicanor, vai crescer para tornar-se um dos atuais expoentes da corrente poesia chi-chi-chilena!

casa-se em 1938, tendo dois filhos (de um total de quatro) que não demoram a adentrar o mundo artístico com o sobrenome da mãe. Deste primeiro casamento separa-se em 1948, mas levou como herança do marido, membro do Partido Comunista local, a militância política velada, que seguirá até o final de sua vida. Violeta apresenta-se em boates, em clubes de bolero, em programas de rádio, junta-se a um grupo de teatro mambembe. começa um trabalho de compilar as histórias do imaginário popular de seu país, recolhendo a tradição oral & compilando-a em textos. Violeta anda o país inteiro para isso, & foram nestas primeiras viagens que conheceu Pablo Neruda, Pedro Massone e Alberto Zapiacán. produz o livro “Cantos folclóricos chilenos”, com mais de 3000 canções, seguindo o exemplo de Charles Peraux e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, ainda nos anos 1800s, e escrevendo novamente a receita do sucesso para Luis da Câmara Cascudo, no Brasil do século XX. em 1954, Violeta ganha o prêmio Caupolicán de artista popular do ano, o que lhe credencia para viajar até a Polônia & se apresentar em um festival para jovens expoentes mundiais. nesta viagem aproveita para conhecer a Rússia & algumas partes da Europa.

a estadia em Paris foi particularmente proveitosa, já que registra em disco de longa duração várias canções que compilara do cancioneiro chileno. seu primeiro trabalho solo e de maior fôlego, pedra fundamental de tudo que virá depois, é de 1956, “Guitare et chant: chants et danses du Chili”, onde já constam “Violeta ausente”, e o grande sucesso que cantaria até o fim de sua vida, “La jardinera”. O sucesso deste trabalho foi grande, e inédito para qualquer artista fora das zooropas e EUA, o que encheu a escritora de inspiração e criatividade. Gravou mais quatro discos (“Canto y guitarra”, de 1957; “Acompañada de guitarra”, de 1958; “La tonada” e “La cueca”, de 1959), todos com temas sociais, canções em décimas ou composições poéticas, & também adaptações de poesia. diversifica ainda mais sua arte, e começa esculpir em cerâmica, a pintar com tinta óleo, e costurar em estopa, sempre retratando as origens mapuches.

criada longe do academicismo (um tanto por razões econômicas da família, outro tanto pelo pouco interesse que tinha na escola), Violeta tem um estilo inocente e autodidata. foi a primeira artista da América do Sul a a realizar uma exposição individual no Museu do Louvre, em Paris, aos 47 anos de idade. A cantautora inaugurou uma casa, onde recebia amigos e outras pessoas para tardes de poesia, que segue firme e forte até hoje – o Museu Violeta Parra. mata-se com um tiro na cabeça, aos 49 anos de idade, um ano depois de escrever o hino humanitário que desde que foi escrito não parou de ser entoado, “Graçias a la vida”. ainda hoje, os motivos que a levaram a saída tão trágica são desconhecidos.

 

 

 

 

 

14.xicara

 
o que nos traz de volta ao Brazyl. sabe-se menos da época primeira do Cinema (1896, até 1914) do que sobre a Pré-História da Humanidade (2 bilhões até uns 10 mil anos atrás, antes do Marco Zero de Jesus Cristo & a Cristandade). o Rádio, descoberto pelos anos 1860s, e com um Nobel em Física em 1901, só foi tornado massivo após 1927 (depois das chegadas das vitrolas tocadoras de discos que podiam ser acopladas diretamente ao aparato transmissor). até então, a Arte acontecia nos Jornais, & nos Palcos, & nas Ruas: onde pudesse ser reproduzida & apreciada. o átomo de Rutherford já dava as caras, mas só vai começar a ser levado a sério depois dos atentados de Hiroshima & Nagasaki: os que nasceram depois de 1944 são Filhos do Átomo; os que nasceram antes, Filhos do Rádio.

Adoniran Barbosa é nascido em Valinhos, SP, Brazyl, no sexto dia de Agosto de 1910, & era o nome de escritor de João Rubinato. filho dos Rubbinato & Rucchini italianatos chegados ao país na primeira leva dos anos 1890s, sua família percorre a tríade de cidades Jundiaí – Santo André – São Paulo, partindo das lavouras para chegar à capital paulistana. o menino João é o caçula dos sete filhos da família. de surrupiador de marmitas, na juvenília campineira, ascende aos palcos como ator. só ganhou sua porção de luz na ribalta porque este primeiro momento do Rádio estava em plena ascensão, já que tinha acabado de ganhar um irmão de peso: o cinema da década de 1920s, chamado comumente de “Sistema de Estrelas”.

porque o Rádio acontecia ao vivo, em pequenos estúdios (para a equipe técnica) com enormes anfiteatros (para o público, que comparecia em peso para assistir aos programas). Adoniran trabalha na rádio a partir da década de 1930, primeiro pela Cruzeiro do Sul, depois pela Rádio São Paulo, depois pela Difusora. inclusive, Adoniran é o nome de seu personagem mais adorado pelos ouvintes: era difícil para João sair da personagem. casa-se em 1936 com Olga Krum, de onde vem a primeira & única filha, hoje tradutora, Maria Helena Rubinato, em 1937. depois do desquite, acerta no segundo casamento com Mathilde de Lutiis (em 1949), que dura até sua morte, em 1982. em 1941 sua condição financeira começa a melhorar, graças ao contrato com a Rádio Record, onde ficará até 1972, quando se aposenta da rádio & inicia sua carreira enquanto musicista. na Rádio Record, atua em peças humorísticas escritas pelo produtor/escritor Osvaldo Moles, encarnando tipos como Zé Cunversa, o malandro; Jean Rubinet, o galã do cinema francês; Moisés Rabinovic, o judeu das prestações; Richard Morris, o professor de inglês; Dom Segundo Sombra, o cantor de tango-paródia; Perna Fina, o chofer italiano; e o sambista paulistano Charutinho.

o jovem Adoniran encontra dificuldades & ostracismo entre os anos 1930s – 1970s. o próprio artista se vê como escritor & não como cantor, mas ainda um escritor que poucos querem comprar. de uma época em que as rádios tocavam ostensivamente o romantismo & a dor de cotovelo de Aracy De Almeida, Nelson Gonçalves, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso & Orestes Barbosa, Adoniran tenta aumentar sua popularidade & mostrar que suas composições são mesmo boas, gravando em 1951 seu primeiro compacto, onde está sua “Saudosa maloca” (e, no outro lado, “Os mimosos colibri”, de Moles & Hervê Cordovil). de acordo com o artista, este single vendeu apenas duas cópias. a soma de experiências vividas, de doses de humor & da observação afiada dá ao país um de seus maiores & mais sensíveis cronistas, onde a construção linguística, pontuada pela escolha exata do ritmo da fala paulistana, transforma suas letras de sambas em poesia legítima. O uso do português falado nas ruas, e não o idioma formal, é uma das suas características: “escrevo samba para as pessoas comuns”, é uma das suas clássicas defesas da corruptela do idioma. mais uma das grandes citações, esta dentro da letra de samba: “eu gosto dos meninos deste tal de ie-ie-iê porque com eles canta a voz do povo”. o grande tema cantado pelo poeta foi a vida comum em meio à miséria e à especulação imobiliária na capital paulista (entre os anos 1930 e 1960), o que vai ecoar na capital brazuca-fluminense como samba de pedigree 100% vindo do alto dos morros. um Ira Gershwin nascido nos trópicos, por assim dizer.

a amizade com os Demônios da Garoa começa em 1949 quando gravam “Trem das onze”, para o filme “O cangaceiro”, de Lima Barreto (lançado em 1953, ganhador do prêmio do Festival de Cannes daquele ano, na categoria de Melhor Filme de Aventura). “Saudosa maloca” & “O samba do Arnesto” foram seu passaporte para o estrelato, na gravação do disco dos Demônios em 1954, vendendo 90mil cópias à época e levando-os para o programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha (o disco contém também “Iracema” e “Apaga o fogo, Mané!”) . em 1964 veio “Trem das onze”, que ganha prêmio no carnaval carioca de 1965, confirmando Adoniran no time de colaboradores dos Demônios.

Adoniran-1974-capa

capa do disco de 1974

Adoniran só vai virar referência obrigatória no compêndio da Escola da Vida em 1974, quando lança seu primeiro disco de longa duração. Neste disco fulguram pérolas como “Bom dia, tristeza”, “As mariposas” e “Prova de carinho”. “Samba do Arnesto” também deveria estar no primeiro disco, mas foi barrada pela Censura, pelos erros de português (sic) (((ha! haha! hahahaha! cês nunca ensinam nada, tão nem aí pra m3rd4 toda e vem agora arrotar o que é certo do que é errado! hahahaha!))) e pelo alto teor de deboche frente à marcha da urbanização. não se passam nem seis meses do primeiro lançamento e, com as vendas só crescendo, a gravadora encomenda um segundo disco a Adoniran. o produtor Pelão convida para escrever o texto de contracapa nada mais, nada menos do que Antonio Cândido, celebrado professor da Universidade de São Paulo, que escreve: ”tenho lido que Adoniran usa uma língua misturada de Italiano e Português. Não concordo. Da mistura, que é o sal da nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se alia com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nós fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse país”. com o Candinho é que a gente aprende as coisas, diz aí! no segundo disco, ainda figuram peças já celebradas do autor, como “Pafunça” e “Joga a chave”.

contracapa do disco de 1975adoniran-1975-contracapa.jpg

 

escolhi para o exercício de tradução do dia “Apaga o fogo, Mané!”, do disco de 1974, inspirado pelas celebrações do Dia Internacional das Mulheres. tem uma mulher na letra, vocês devem ter notado. ela se chama Inês. ou Inêz. com S ou com Z, tanto faz: o fato é que o nome da música é “Apaga o fogo, Mané!”. Inês (ou Inêz) é irmã de “Irene no Céu”, de Manuel Bandeira. são poucas as mulheres que estão nas nossas cenas ficcionais. e são ainda menos as que aparecem sorrindo. Em Bandeira, Irene entra no céu, bonachona, porque ela sabe que é lá que pertence. aqui com Adoniran, a cena é de um relacionamento abusivo. a menina não pode nem ir ao mercado, que o cara fica esperando no portão? e ele só vai descobrir o fim do dito relacionamento num bilhete, no chão da cozinha, no final da noite, ou do dia, sabe-se lá quanto tempo depois que passou que Inês (ou Inêz) se foi, mas sabemos que Inesz ainda não voltou! E nem vai voltar!
APAGA O FOGO, MANÉ (letra de Adoniran Barbosa)
1.
Inês saiu
Dizendo que ia
comprar um pavio pro lampião
Pode me esperar, Mané, que eu já volto já

2.
Acendi o fogão
Botei água pra esquentar
E fui pro portão
Só pra ver Inês chegar

3.
Anoiteceu
E ela não voltou
Fui pra rua feito louco
Pra saber o que aconteceu

r1.
Procurei na Central
Procurei no Hospital e no xadrez
Andei a cidade inteira
E não encontrei Inês

r2.
Voltei pra casa
Triste demais
O que Inês me fez
Não se faz

4.
E no chão bem perto do fogão
Encontrei um papel escrito assim:
“Pode apagar o fogo, Mané!,
que eu não volto mais!”

\\||//

UNLIT YOUR FIRE, MY LOVE (tradução de r.l.almeida)
1.
Ignez has flee, she said
she would bought refil to the gas lamp
“Will you wait me here, my love?
I do not think I will be long”

2.
Water in the can
And then I lit the fire
Looking in the streets
Waiting Ignez arrive

3.
Falling the night
She did not came back
I hit the streets like a maniac
To understand what was happening

r1.
Searched the bus stations
Searched into the prisons and infirmaries
Walked around the whole town
Ignez could not be found

r2.
Went back to my place
Sad and lonely
What she did to me
Just can not be

4.
I saw in the ground nearing our stove
I have found a note, look how it was written
“You will unlit your fire, my love!
I will never more go home.”

depois disso tudo, Adoniran Barbosa empresta seu nome a escola municipal, a rua no bairro do Bexiga, a praças, ganha cinco vezes o prêmio Roquette Pinto. quase ganhou um Museu, mas o acervo do escritor ainda não tem rumo certo, e por enquanto está alojado na Galeria do Rock. calma aí, meu amigo, porque ainda vai chegar o dia em que o Brazyl vai compreender que a História vale quanto pesa.

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Duas canções, duas traduções

 

 

 

“La vie en ròse” X Dolores Duran, Maysa

IV

La vie en rose – Edith Piaf, Louiguy, Robert Chauvigny

Mayza? Dolores Duran?

 

 

L4 V13 3N R053

A-I

Des yeux qui font baisser les miens

Un rire que se perd sur sa bouche

Voilà le portrait sans retouche

De l´homme auquel j´appartiens

 

1.

Quand il me prend dans ses bras

Il me parle tout bas

Je vois la vie en rose

 

2.

Il me dit des mots d´amour

Des mots de tout les jours

Et ça me fait quelque chose

 

3.

Il est entré dans mon coeur

Une part de bonheur

Dont je connais le cause

 

r.

C´est lui pour moi

Moi pour lui dans la vie

Il me la dit

La juré pour la vie

 

4.

Et dès que je l´aperçois

Alor je sens en moi

Mon coeur qui bat

 

A-II

Des nuits d´amour à plus finir

Un grand bonheur qui prend sa place

Des ennuis, des chagrins s´effacent

Heureux, heureux à en morrir

 

 

 

L4 V13 3N R053, versão de Neil Armstrong

1.

Hold me close and hold me fast

The magic spell you cast

This is la vie en rose

 

2.

When you kiss me heaven sights

And though I close my eyes

I see la vie en rose

 

3.

When you press me to your heart

I´m in a world apart

A world where roses bloom

 

r.

And when you speak, angels sing from above

Everyday worlds seem to turn into love songs

 

4.

Give your heart and soul to me

And life will always be

La vie en rose

 

 

A V1D4 3M R054, versão Max Brandão
A-I
Os olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em vossa boca
Eis o retrato sem retoque
De meu homem

1.
Quando estou em seus braços
Ele me fala todo baixo
Eu vejo a vida em rosa

2.
Me fala palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me faz alguma coisa

3.
Que atinge meu coração
Um pouco de felicidade
Que conheço a causa

r.
É ele por mim, eu por ele na vida
Ele me disse, me jurou pela vida

4.
E então que eu o percebo
E sinto em mim
Meu coração pulsar

A-II
Das noites de amor a não mais findar
A grande felicidade que toma lugar
Os tédios, e as tristezas desfazem
Feliz, feliz até morrer

 

A V1D4 3M R05É, versão rlalmeida

A-I

Seu olhar que quando encontra me beija

Um riso que salta de dentro dos dentes

Você é o retrato sem nenhum retoque

De uma pessoa que mal e mal me lembro

 

1.

Quando nos descruzamos os braços

Saudades de teus abraços

Vejo a vida en rosè

 

2.

Você disse que ia me amar

O simples que era gostar

O querer bem que me faz bem

 

3.

Você meu coração ganhou

No labirinto que adentrou

Fui eu quem deu as deixas

 

r.

Você vive por mim e eu vivo por você

Nós dois juntos dure a nossa vida inteira

 

4.

Antes achava que ia morrer

Agora já sinto bater

De volta o meu coração

 

A-II

As nossas noites juntos não parecem ter fim

A quantidade de paz que decide ficar

O tédio e a tristexa parecem vagar

A loucura, a alegria em morrer

Dois poemas, \\|// duas traduções

“o surrealismo é destrutivo, 
 mas ele destrói somente      
o que limita a nossa visão”
                                                                 Salvador Dali      

taí, ainda não tinha começado um artigo com citação. por isso que falo sempre: esta seção tinha que se chamar “Dançando no lombo das gigantes”. eita, teje feito!

minha apocalíptica & apopléctica bloguesfera nossa de cada dia, salve, salve!, mais um episódio do “Duas tradussas” no ar, totalmente inspirado pela cobiça & conspiração que assopram os ares andinos, a vã cobiça & a estúpida conspiração disposta a calar mais uma vez o sonho de unidade de todo um continente de Simón Bolívar!

hoje, a proposta é brincar de poesia, lendo & traduzindo do Inglês para o Português, & também trilhando & vagando da língua de Camões para a língua de Shakespirito, e um detalhe ainda inédito nestas páginas digitais: uma versão em Alemão! nos calções preto&branco da bandeira do estado da capital cinza, cinza, marginal Tietê de São Paulo: Roberto Piva; nos calções das flâmulas listradas & estreladas em vermelho, azul e branco do tio Sam, ou o Agente Laranja: Kenneth Rexoth. os dois, com uma lata de cerveja na mão, assistem à partida de bocha & papeiam animadamente, no mesmo canto esquerdo do ringue.

porque Roberto Lopes Piva é o nome deste paulistano, nascido em 25 de Setembro de 1937. o material impresso pelo Brasil referente à Renascença de São Francisco, à contracultura que assolou os Estados Unidos a partir da década de 1950 em todas as frentes (midiáticas & as demais), veio pelas traduções de Piva, Claudio Willer, Eduardo Bueno & outros gurus do pop. Do xamanismo ao zen budismo, as imagens paralelas entre literatura brasileira & literatura mundial nunca ecoaram tanto quanto nesse conturbado período da História.

nos EUA, a figura importante do editor que comprou muita briga para publicar trabalhos diferentes do que circulavam pelas prateleiras, como “O uivo&outros poemas” (1956), foi o também escritor Lawrence Ferlinghetti. em terras brasilis, o movimento pelo formato não-discursivo foi tornado concreto graças ao suor da hiperbólica figura de Massao Ohno, que em cinco décadas de vida pública imprimiu pela sua editora cerca de 800 obras, a maior parte delas exímias pedradas da literatura tupiniquim da segunda metade do século XX.

o primeiro livro de Piva é de 1963: “Paranóia” contém 20 poesias que retratam o cotidiano da maior cidade da América do Sul. literalmente retrata: os versos ecoam os teatros, as estátuas, os viadutos, junto com fotos de página inteira deste grande personagem que é a cidade. quando foi lançado, o livro causou furor pelo conteúdo & pela forma: hoje, é ítem de colecionador ou de peças de museus, podendo ser acessado no espaço independente dedicado ao acervo pessoal do autor, na biblioteca da Fefê Léche da USP, ou então, na velha e boa Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

matéria mais do que obrigatória, para entender tradução e Roberto Piva, em:
https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/57055

prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo de línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys, igual num filme holandês: isso é a vida & a poesia de Roberto Piva, que vivia como escrevia. as influências remetem aos beats dos Estados Unidos, & sempre é bom lembrar que aqueles são beats não por estarem “batidos”, mas sim por questões de “beatitude”: ser beat é acreditar!

o poema que trouxe para a experiência de hoje, não sei onde consta a primeira publicação mas sei que não está no “Paranóia”. lembro que estava ainda na faculdade quando descobri Piva, e fiquei furioso com o fato de um cara que escreveu tanto sobre o que outros escreveram, traduzindo piamente cada livro, cada reportagem, fazendo chegar a mensagem dos beats até os canarinhos, e quão pouco se falava dele lá fora. o problema é o código em que ele se expressa, & o meu também & também o seu que nos lê: o idioma Português! ninguém além dos falantes de Português dá á mínima para a última flor do Lácio. talvez se Piva tivesse nascido em algum país falante do Espanhol ou suas corruptelas, talvez ele fosse lido: Silvina Ocampo está no mesmo patamar que Virginia Woolf; Jorge Luis Borges é levado tão a sério quanto Albert Camus; a única exceção ao nosso idioma parecem ser José Saramago (Nobel em 1998), e Fernando Pessoa, que, por exemplo, extrapola quaisquer comparações a James Joyce, Ezra Pound, Marcel Proust & Walt Whitman. devido à baixa ocorrência em outros idiomas, este “Poema XVI” foi uma das minhas primeiras experiências com tradução de poesia. junto com o “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira – mas o Bandeira tem uns 15 tradutores para cada um dos idiomas que são considerados sérios, dentro das ONU. o que salta aos olhos é como o poema ocupa a folha, & é esse “desenho” que tentei reproduzir, nas traduções para Inglês & Alemão: a palavra tem um tempo para sua enunciação & posterior apreciação, & a espacialidade na folha é a chave para decodificar este tempo. transcrevo o poema em linguagem de máquina & proponho uma solução imagética, logo após cada uma das transcrições:


Poema XVI – Roberto Piva

abandonar tudo.

conhecer praias. amores novos.
poesia em
cascatas floridas com
aranhas azuladas nas samambaias.

todo trabalhador é escravo.
toda autoridade é cômica. fazer da anarquia
um método & modo de vida.

estradas.

bocas perfumadas. cervejas
tomadas nos acampamentos.

Sonhar Alto.

 

piva-poemaXVI-ptbr

 

english translation: Poem XVI


abandon everything.

sands to known. brand new loves.
poetry in
flowery cascades with
blue spideys that hover the bromelias.

every worker is slave.
every authority is comic. turn the anarchy
a manner & way of life.

roads.

smely smiles. to have severals beers
and drink them in a camp.

Dream High.

 

piva-poemaXVI-engb

 

deutsche übersetzen: Gedicht XVI

alles verlassen.

strand wissen. sehr neue lieben.
poesie auf
blumenden wasserfäller mit
blauen spinnen da drinnen des grünnenkräuter.

jede arbeiter ist sklave.
jede autörität ist komischer. tun die anarchie
lebens -methode & -weise.

wege.

duftender münder. bierrre
ins läger getrunken.

Laut Träumen.

 

piva-poemaXVI-deutsch

 

a segunda parte da matéria de hoje é dedicada a Ken Rexroth, atendendo a pedidos de um ouvinte lá dos interior paulista, terra da laranja, da cana & aonde o Aedes Aegypth vôa solto & gordo, impávido colosso.

Kenneth Charles Marion Rexroth é nascido em 22 de Dezembro de 1905, em South Bend, Indiana. foi poeta, professor de universidade, jornalista & tradutor da literatura de formação chinesa. falando em formação, Rexroth vem de infância pobre. perde os pais bem cedo, aos 14 anos, quando se muda para a casa de uma tia em Chicago. depois de concluir os estudos pelo Instituto de Artes de Chicago, faz viagens caroneando pelos EUA, até arranjar trabalho como estivador & sair para conhecer o mundo – notadamente o México, a América do Sul, também Paris, por uma semana, quando pôde se aproximar dos surrealistas & até mesmo conhecer Tristan Tzara. na década de 1930 consegue se fixar em São Franscico: já tem trabalho fixo como repórter pelo San Francisco Chronicle, & sua prosa com foco em assuntos sociais, ecologia, política & cultura é ao mesmo tempo incitação & participação, testemunha & história do processo de formação das contraculturas hippie & beat: fazer amor & não a guerra, o inconsciente, improvisação, espontaneidade, doar à caridade tudo o que tem, jazz, drogas. era a consciência de uma Nova Visão (termo emprestado de WB Yeats), para contrariar os ideais conservadores & formais da Academia.

também lendo:
http://www.culturapara.art.br/opoema/opoema.htm
https://en.wikipedia.org/wiki/National_Film_Registry#Films

durante a década de 40 traduz Li Bai & também Tu Fu; na década de 1950 faz leituras públicas junto com Allen Ginsberg & Phillip Lamantia; na década de 1970s, traduz do Chinês “A dinastia Song”, poema epopéico de Li Ch’ing-Chao, & publica uma antologia apenas de poetas chinesas. publica ainda “Os poemas de amor de lady Mariko”, dizendo que os poemas pertencem a uma jovem poeta japonesa, mas mais tarde revela que os versos são seus, o que lhe rendeu muito reconhecimento crítico por ter conseguido transpor verdadeiramente os sentimentos de alguém de outro gênero & de outra cultura. o poema de hoje, “Thou shall not kill” \\|// “Não matar”, foi publicado pela primeira vez em 1955, mas já tinha passado por várias leituras públicas, desde 1944. é um poema longo estruturado em 4 partes, com tema central em tom de denúncia, sobre o abuso das grandes corporações (leia-se: o dinheiro) & as pessoas.


TH0U SH4LL7 N07 K1LL, de Kenneth Rexroth

I
They are murdering all the young men.
For half a century now, every day,
They have hunted them down and killed them.
They are killing them now.
At this minute, all over the world,
They are killing the young men.
They know ten thousand ways to kill them.
Every year they invent new ones.
In the jungles of Africa,
In the marshes of Asia,
In the deserts of Asia,
In the slave pens of Siberia,
In the slums of Europe,
In the nightclubs of America,
The murderers are at work.
They are stoning Stephen,
They are casting him forth from every city in the world.
Under the Welcome sign,
Under the Rotary emblem,
On the highway in the suburbs,
His body lies under the hurling stones.
He was full of faith and power.
He did great wonders among the people.
They could not stand against his wisdom.
They could not bear the spirit with which he spoke.
He cried out in the name
Of the tabernacle of witness in the wilderness.
They were cut to the heart.
They gnashed against him with their teeth.
They cried out with a loud voice.
They stopped their ears.
They ran on him with one accord.
They cast him out of the city and stoned him.
The witnesses laid down their clothes
At the feet of a man whose name was your name —
You.


You are the murderer.
You are killing the young men.
You are broiling Lawrence on his gridiron.
When you demanded he divulge
The hidden treasures of the spirit,
He showed you the poor.
You set your heart against him.
You seized him and bound him with rage.
You roasted him on a slow fire.
His fat dripped and spurted in the flame.
The smell was sweet to your nose.
He cried out,
“I am cooked on this side,
Turn me over and eat,
You
E
at of my flesh.”

You are murdering the young men.
You are shooting Sebastian with arrows.
He kept the faithful steadfast under persecution.
First you shot him with arrows.
Then you beat him with rods.
Then you threw him in a sewer.
You fear nothing more than courage.
You who turn away your eyes
At the bravery of the young men.


You,
The hyena with polished face and bow tie,
In the office of a billion dollar
Corporation devoted to service;
The vulture dripping with carrion,
Carefully and carelessly robed in imported tweeds,
Lecturing on the Age of Abundance;
The jackal in double-breasted gabardine,
Barking by remote control,
In the United Nations;
The vampire bat seated at the couch head,
Notebook in hand, toying with his decerebrator;
The autonomous, ambulatory cancer,
The Superego in a thousand uniforms;
You, the finger man of behemoth,
The murderer of the young men.

II
What happened to Robinson,
Who used to stagger down Eighth Street,
Dizzy with solitary gin?
Where is Masters, who crouched in
His law office for ruinous decades?
Where is Leonard who thought he was
A locomotive? And Lindsay,
Wise as a dove, innocent
As a serpent, where is he?
         Timor mortis conturbat me.

What became of Jim Oppenheim?
Lola Ridge alone in an
Icy furnished room? Orrick Johns,
Hopping into the surf on his
One leg? Elinor Wylie
Who leaped like Kierkegaard?
Sara Teasdale, where is she?
         Timor mortis conturbat me.

Where is George Sterling, that tame fawn?
Phelps Putnam who stole away?
Jack Wheelwright who couldn’t cross the bridge?
Donald Evans with his cane and
Monocle, where is he?
         Timor mortis conturbat me.

John Gould Fletcher who could not
Unbreak his powerful heart?
Bodenheim butchered in stinking
Squalor? Edna Millay who took
Her last straight whiskey? Genevieve
Who loved so much; where is she?
         Timor mortis conturbat me.

Harry who didn’t care at all?
Hart who went back to the sea?
          Timor mortis conturbat me.

Where is Sol Funaroff?
What happened to Potamkin?
Isidor Schneider? Claude McKay?
Countee Cullen? Clarence Weinstock?
Who animates their corpses today?
          Timor mortis conturbat me.

Where is Ezra, that noisy man?
Where is Larsson whose poems were prayers?
Where is Charles Snider, that gentle
Bitter boy? Carnevali,
What became of him?
Carol who was so beautiful, where is she?
          Timor mortis conturbat me.

III
Was their end noble and tragic,
Like the mask of a tyrant?
Like Agamemnon’s secret golden face?
Indeed it was not. Up all night
In the fo’c’sle, bemused and beaten,
Bleeding at the rectum, in his
Pocket a review by the one
Colleague he respected, “If he
Really means what these poems
Pretend to say, he has only
One way out —.” Into the
Hot acrid Caribbean sun,
Into the acrid, transparent,
Smoky sea. Or another, lice in his
Armpits and crotch, garbage littered
On the floor, gray greasy rags on
The bed. “I killed them because they
Were dirty, stinking Communists.
I should get a medal.” Again,
Another, Simenon foretold
His end at a glance. “I dare you
To pull the trigger.” She shut her eyes
And spilled gin over her dress.
The pistol wobbled in his hand.
It took them hours to die.
Another threw herself downstairs,
And broke her back. It took her years.
Two put their heads under water
In the bath and filled their lungs.
Another threw himself under
The traffic of a crowded bridge.
Another, drunk, jumped from a
Balcony and broke her neck.
Another soaked herself in
Gasoline and ran blazing
Into the street and lived on
In custody. One made love
Only once with a beggar woman.
He died years later of syphilis
Of the brain and spine. Fifteen
Years of pain and poverty,
While his mind leaked away.
One tried three times in twenty years
To drown himself. The last time
He succeeded. One turned on the gas
When she had no more food, no more
Money, and only half a lung.
One went up to Harlem, took on
Thirty men, came home and
Cut her throat. One sat up all night
Talking to H.L. Mencken and
Drowned himself in the morning.
How many stopped writing at thirty?
How many went to work for Time?
How many died of prefrontal
Lobotomies in the Communist Party?
How many are lost in the back wards
Of provincial madhouses?
How many on the advice of
Their psychoanalysts, decided
A business career was best after all?
How many are hopeless alcoholics?
René Crevel!
Jacques Rigaud!
Antonin Artaud!
Mayakofsky!
Essenin!
Robert Desnos!
Saint Pol Roux!
Max Jacob!
All over the world
The same disembodied hand
Strikes us down.
Here is a mountain of death.
A hill of heads like the Khans piled up.
The first-born of a century
Slaughtered by Herod.
Three generations of infants
Stuffed down the maw of Moloch.


IV
He is dead.
The bird of Rhiannon.
He is dead.
In the winter of the heart.
He is Dead.
In the canyons of death,
They found him dumb at last,
In the blizzard of lies.
He never spoke again.
He died.
He is dead.
In their antiseptic hands,
He is dead.
The little spellbinder of Cader Idris.
He is dead.
The sparrow of Cardiff.
He is dead.
The canary of Swansea.
Who killed him?
Who killed the bright-headed bird?
You did, you son of a bitch.
You drowned him in your cocktail brain.
He fell down and died in your synthetic heart.
You killed him,
Oppenheimer the Million-Killer,
You killed him,
Einstein the Gray Eminence.
You killed him,
Havanahavana, with your Nobel Prize.
You killed him, General,
Through the proper channels.
You strangled him, Le Mouton,
With your mains étendues.
He confessed in open court to a pince-nezed skull.
You shot him in the back of the head
As he stumbled in the last cellar.
You killed him,
Benign Lady on the postage stamp.
He was found dead at a Liberal Weekly luncheon.
He was found dead on the cutting room floor.
He was found dead at a Time policy conference.
Henry Luce killed him with a telegram to the Pope.
Mademoiselle strangled him with a padded brassiere.
Old Possum sprinkled him with a tea ball.
After the wolves were done, the vaticides
Crawled off with his bowels to their classrooms and quarterlies.
When the news came over the radio
You personally rose up shouting, “Give us Barabbas!”
In your lonely crowd you swept over him.
Your custom-built brogans and your ballet slippers
Pummeled him to death in the gritty street.
You hit him with an album of Hindemith.
You stabbed him with stainless steel by Isamu Noguchi,
He is dead.
He is Dead.
Like Ignacio the bullfighter,
At four o’clock in the afternoon.
At precisely four o’clock.
I too do not want to hear it.
I too do not want to know it.
I want to run into the street,
Shouting, “Remember Vanzetti!”
I want to pour gasoline down your chimneys.
I want to blow up your galleries.
I want to bum down your editorial offices.
I want to slit the bellies of your frigid women.
I want to sink your sailboats and launches.
I want to strangle your children at their finger paintings.
I want to poison your Afghans and poodles.
He is dead, the little drunken cherub.
He is dead,
The effulgent tub thumper.
He is Dead.
The ever living birds are not singing
To the head of Bran.
The sea birds are still
Over Bardsey of Ten Thousand Saints.
The underground men are not singing
On their way to work.
There is a smell of blood
In the smell of the turf smoke.
They have struck him down,
The son of David ap Gwilym.
They have murdered him,
The Baby of Taliessin.
There he lies dead,
By the Iceberg of the United Nations.
There he lies sandbagged,
At the foot of the Statue of Liberty.
The Gulf Stream smells of blood
As it breaks on the sand of Iona
And the blue rocks of Canarvon.
And all the birds of the deep sea rise up
Over the luxury liners and scream,
“You killed him! You killed him.
In your God damned Brooks Brothers suit,
You son of a bitch.”

NÃ0 M4T4R, tradução de r.l.almeida

I
Assassinam todos os jovens.
Já faz hoje meio século, e todo dia
Os jovens têm sido caçados e abatidos.
Matam-nos agora mesmo.
Neste minuto, no mundo inteiro,
Matam os jovens.
Já sabem 10 mil maneiras de matá-los.
A cada ano novo inventam jeitos novos.
Nas selvas da África,
Nos pântanos da Ásia,
Nos desertos da Ásia,
Nas colônias penais da Sibéria,
Nas favelas das Zooropa,
Nas baladas das Américas,
Os assassinos trabalham.

Apedrejam Stephen,
Expulsam o menino da cada cidade do mundo.
Sobre a placa de bem-vindos,
Sobre o emblema do Rotary,
Nas pistas dos distritos,
Seu corpo repousa embaixo das pedras atiradas.
Ele era cheio de fé e de poder.
Ele operou grandes milagres em sua gente.
Não conseguiram ir contra sua sabedoria.
Não conseguiram suportar o espírito pelo qual aconselhava.
Ele gritava pelo nome
Do tabernáculo das testemunhas no meio da floresta.
E eles ficaram desolados.
E eles rangeram-no contra os dentes.
E eles gritaram com uma voz mais alta ainda.
E eles desligaram seus ouvidos.
E eles correram junto dele porque tinham um trato.
E eles o expulsaram da cidade e o apedrejaram.
As testemunhas se despiam das roupas
Defronte uma pessoa que tinha o teu nome –
Você.

O assassino é você.
Quem mata os jovens é você.
Quem assa Lawrence na grelha é você.
Quando exigiste que ele saísse a divulgar
Os tesouros escondidos no espírito,
Ele te mostrou os pobres.
Mas você já tinha se decidido contra ele.
Você o capturou e o isolou com raiva.
Você o fritou em fogo lento,
A gordura dele pingando e jorrando sobre as chamas.
O cheiro adoçando o teu nariz.
Ele gritava
“Já cozinhei deste lado,
Podem me virar e comer,
Vocês,
Comam de minha carne”

O assassino dos jovens é você.
Você atira flechas em Sebastian.
Ele foi inflexível na perseguição dos fiéis.
Primeiro você atirou as flechas.
E depois lhe deu uma surra de vara de pesca.
E depois o despejou no lixão.
O teu maior pavor é ver a coragem.
Você, que prefere olhar para qualquer outra coisa
Que não seja a bravura dos teus jovens.
Você,

A hiena de cara raspada e gravata borboleta,
Dentro de um escritório de bilhar de dólar
De alguma Corporação dedicada ao servir.
O abutre que sua podridão,
Cuidadoso e desleixado em linho roubado e importado,
Ensinando sobre a Era dos Excessos;
O chacal que usa jeans reforçado,
Latindo por controle remoto
Para as Organizações das Nações Unidas.
O morcego vampiro que senta-se à cadeira do chefão,
Caderneta nas mãos, brincando com seu descerebrador;
O câncer autônomo e ambulante,
O Superego de mil uniformes;
Você, o delator do hipopótamo,
O assassino da juventude.


II
O que aconteceu ao Robinson,
Que vinha sempre cambaleante de rua abaixo,
Mareado por ter tomado sozinho uma garrafa de rum?
Aonde foi parar o Masters, que viveu escondido
Em seu escritório de advocacia décadas ruidosas adentro?
Aonde está Leonard, que tinha certeza de que era
Uma locomotiva? E Lindsay,
Tão sábio quanto uma coruja, e tão inocente
Quanto uma serpente, aonde está ele?
          O medo da morte me perturba.

E o Jim Opperheim, virou o quê?
E Lola Ridge, que estava sozinha em
Um quarto mobiliado e gelado? E Orrick Johns,
Pulando surf adentro e só com
Uma perna? Elinor Wylie,
Que pulou igual ao Kierkegaard?
E Sara Teasdale, aonde está ela?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está George Sterling, aquele viado domado?
E Phelps Putnam, que roubava coisas?
E Jack Wheelwright, que não sabia passar os mata-burros?
E Donald Evans, sempre de bengala e monóculos, aonde está ele?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está Gould Fletcher, que não
Tinha como magoar seu poderoso coração?
E Bodenheim que foi esquartejado na maledeta
Squalor? E Edna Millay, que tomou o 
Úlitmo whiskey caubói? E Genevieve que
Amou por demais, aonde foi parar?
          O medo da morte me perturba.

E o Harry, que não estava nem aí pra merda?
E o Hart, que preferiu voltar para o mar?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está Sol Funaroff?
E que fim levou o Potemkin?
E Isidor Schneider? E Claude McKay?
E Cauntee Cullen? E Clarence Weinstock?
Quem anima estes cadáveres hoje em dia?
          O medo da morte me perturba.

Que fim levou o Ezra, de personalidade estrondosa?
Aonde está o Larsson, dos poemas iguais a reza?
O que fizeram com Charles Snider, aquele menino
Amargo mas educado? E o Carnavali, onde o enfiaram?
E a Carol, que era tão bonita, aonde foi parar?
          O medo da morte me perturba.

III
Foi trágico e nobre o fim deles,
Igual à máscara do tirano?
Igual à face secreta de Agamenon?
Certamente que não. Até tarde da noite acordado
No ante castelo, abatido e confuso,
Sangrando pelo reto, e tinha nos
Bolsos uma crítica do único
Colega que respeitava, “Se ele quer
Mesmo dizer o que seus poemas
Fingem dizer, então para ele
Só resta uma alternativa -.” Adentro do
Quente e ácido sol do Caribe,
Adentro do ácido, transparente e
Nebuloso mar. Ou ainda um outro, cheio de piolhos
Nos sovacos e pela virilha, o lixo em litros
Sobre o piso, retalhos marrons e gordurosos espalhados
Pela cama. “Matei porque eram uns
Sujos e fétidos duns comunistinhas.
Deveriam me homenagear!” E de novo,
Um outro também, Simenon adivinhou
O fim que ia ter num instante. “Duvido
Que tú puxa o gatilho.” De olhos fechados, ela emborca
o gim sobre o vestido.
A arma oscilou para a mão dele.
Mas passou horas até morrerem.
Tem ainda uma outra, atirou-se escadas abaixo
E quebrou o pescoço. Foram anos para ela.
Tem ainda aqueles dois que mergulharam
Nas águas da banheira e encheram os pulmões.
Tem ainda aquele que se lançou pra baixo
Do trânsito intenso do alto de uma ponte.
Tem ainda aquela que estava bêbada
Pulou do terceiro andar mas quebrou o pescoço.
Tem ainda aquela que se ensopou em
Gasolina e correu igual bola de fogo
Pelas ruas e passou o resto da vida
Presa. Tem aquele que fez amor
Uma vez apenas com uma moradora de rua.
Morreu anos depois, sifilítico, atacou o
sistema nervoso e se alojou na coluna. Foram quinze
Anos de pobreza e de dor,
Enquanto sua mente vazava.
Tem ainda aquele que por três vezes durante vinte anos
Tentou se afogar. Na última vez
Teve sucesso. Tem ainda aquela que abriu o gás
Porque ela não tinha mais dinheiro, nem
Comida, e só metade de um pulmão.
Teve aquela menina que estava no Harlem, passou na
Mão de trinta caras, conseguiu chegar em casa e
Cortou a garganta. Tem ainda aquele
Cara que passou a noite em claro
Falando com H.L.Mencken para
Ir se afogar, de manhã cedinho.
Quantos pararam de escrever aos trinta?
Destes, quantos fugiram, trabalhando para a Time?
Destes, quantos tiveram morte por lobotomia no
Prefrontal pelo Partido Comunista?
E ainda, quantos estão perdidos nos fundos
Dos manicômios das províncias?
Quantos são os que, sob conselho de
Um psico-analista, decidiram que é mesmo
Bem melhor ter uma carreira se sucesso?
Quantos são os alcoólatras inveterados?
René Crevel!
Jacques Rigaud!
Antonin Artaud!
Maiakovski!
Iéssenin!
Robert Desnos!
Saint Pol Roux!
Max Jacob!
Ela está no mundo inteiro
A mesma mão desmembrada
Que abate a nossa gente.
Toma aqui uma montanha de morto.
Uma pilha de cabeças igual à que os Khans empilharam.
O primogênito de um século
Massacrado por Heródoto.
Três gerações de infantes
Recheiando lá embaixo o estômago de Moloch.

IV
Ele está morto.
O pássaro de Rhiannon.
Ele está morto.
No inverno do coração.
Ele está Morto.
Nos labirintos da morte,
Depois de muito tempo ele foi encontrado, mudo,
Dentro de uma tempestade de mentiras.
Ele nunca mais falou.
Porque morreu.
Ele está morto.
Foi em suas mãos assépticas que
Ele morreu.
O pequeno e fabuloso orador de Cader Idris.
Ele está morto.
O rouxinol do Cardife.
Ele está morto.
A cotovia de Swansea.
Quem o matou?
Quem matou o passarinho de cabelo claro?
Foi você mesmo, seu filho da puta!
Você o afogou no coquetel dos teus miolos.
Ele caiu e morreu dentro do teu coração artificial.
É você quem mata,
Oppenheimer seu um milhão de mortes,
É você quem mata,
Einstein sua iminência cinzenta.
É você quem mata,
Havanahavana, você e teu prêmio Nobel.
É você quem mata, General,
Por meio dos teus canais adequados.
É você quem estrangula, Le Mouton,
com suas mains étendues.
Ele confessou em audiência pública para uma caveira de pince-nez.
Quem atirou por trás da cabeça dele foi você
E ele tropeçava na última cela.
É você quem mata,
A Indesejada das Gentes no selo da correspondência.
Ele foi encontrado morto em um almoço dos Liberal Semanal.
Ele foi encontrado morto no chão da sala de edição.
Ele foi encontrado morto em uma conferência de política da Times.
Quem matou foi o telegrama de Henry Luce para o Papa.
A Mademoiselle estrangulou-o usando um soutien acolchoado.
O Velho Possum deu nele com um baile de chá!
Depois que os lobos acabaram, os profetas
Voltaram, arrastando com as tigelas de volta para suas salas e suas tabelas.
Quando falaram disso na tê vê,
Era você mesmo quem se levantava,gritando: “Devolva-nos Barrabás!”
E tua turba solitária andou e varreu com ele.
Teus cróquis de pé personalizados, e também tua sapatilha de ballet,
Esmurravam-no até morrer sobre a rua arenosa.
Você lhe deu uma surra com um disco de Hindemith.
É você quem esfaqueia, usando teu aço inoxidavel de Isamu Noguchi,
E que agora está morto.
Agora está Morto.
Igual a Ignacio, o toureiro,
Eram quatro horas da tarde.
Exatamente quatro horas.
Não quero ouvir dizer disso.
Não quero nem saber disso tudo.
Só quero sair correndo pela rua,
Gritando, “Lembrem-se de Vanzetti!”
Quero derramar gasolina tuas chaminés abaixo.
Quero explodir tuas galerias.
Quero destroçar teus escritórios editoriais.
Quero entalhar as barrigas de tuas mulheres frígidas.
Quero afundar teus navios e teus portos.
Quero estrangular os teus filhos em suas garatuchas manuais.
Quero envenenar teus afegões e teus poodles.
E agora está morto, meu pequeno e ébrio querubim.
Que agora está morto,
O emérito percursionista corporal.
Agora está morto.
Os pássaros sempre vivos não cantam mais
Para a cabeça de Bran.
Os pássaros marinhos também estão quietos
Desde Bardsey dos Dez Mil Santos.
O pessoal no metrô também não canta
Mais enquanto vai para o trabalho.
E tem um cheiro de sangue
Dentro do cheiro da cinza das horas.
Eles chegaram até ele,
O filho de David Ap Gwylin.
E eles o mataram,
O bebê de Taliessin.
Lá jaz ele morto,
Junto ao continente congelado que é das ONU.
Lá jaz ele, encaixotado,
Aos pés da Estátua da Liberdade.
A Corrente do Golfo fede a sangue
Quando rebenta nas areias do Iona
E nas montanhas azuis de Canarvon.
É quando todos os pássaros vêm à tona do fundo do mar,
Sobrevoam os transatlânticos luxuriosos gritando
“Vocês mataram! Foram vocês quem mataram-no!
Vestindo seus malditos ternos dos Brooks Brothers,
Seus filhos da puta.”

 

 

Duas canções, \\|// duas traduções

salve, salve, bloguesfera a cada dia mais profana nossa de cada dia! mais um “Duas tradussas” no ar, hoje para trazer do inglês para o português mestre Bob Marley, & realizar o caminho inverso com Cazuza.

Robert Nesta Marley é nascido em 06 de Fevereiro de 1945, em Saint Ann Parish, na Jamaica. Desde cedo praticava música na escola, inclusive com o primo Neville Livingston (que mais tarde adotaria o nome artístico de Bunny Wailer). Depois da morte do pai, muda-se com sua mãe para Trenchtown, subúrbio ao sul da capital do país, Kingstoned. Agora Robert & Neville moravam na mesma casa, o que facilitou suas experimentações musicais, que passaram a incluir o R&B e o ska que chegava pelas ondas das rádios estadunidenses. Joe Higgs já era um músico de renome, vizinho da rua de baixo de Robert & Neville. os ensaios da banda de Higgs logo viraram ponto de encontro & de congregação a todos os interessados em música do bairro. os garotos montaram um grupo vocal – o embrião dos The Wailers. foi Joe Higgs quem começou a ensinar o jovem Robert a tocar guitarra, desenvolvendo o estilo do musicista que cresceria para tornar-se o campeão de vendas de reggae.

Bob Marley é considerado um porta-voz dos estilos de vida Ragamuffin e Ras Tafari. o Ragamuffin é mais contemporâneo, anos 80 da Jamaica; o Ras Tafaráia vem dos anos 1900, & o nome da religião é derivado do rei da Etiópia, o senhor Ras Tafari Makonnen (1892 ~1975), rei do primeiro estado independente da África, entre os anos 1916-30, & imperador reencarnado como divindade no século XX, quando foi renomeado Haile Selassie. a religião Ras Tafari é o resultado da digestão de um banquete farto em fontes judias & cristãs. têm apenas um Deus, chamado de Jah – o equivalente ao Yeshuah, no aramaico. legitimamente avessos ao estilo capitalista do Ocidente, são vegetarianos & contrários a quaisquer mudanças no corpo – o que explica evitar tatuagens na pele & cortes nos pelos corporais. o grande mote da religião é ver a África unida.

Higgs & Wilson, Derrick Morgan e seu “Fat man” de 1968, The Maytals, I Threes, são outras bandas que também praticavam o estilo Ras de vida, antes de Bob Marley aparecer na cena. depois de Marley, ainda identificamos este estilo de vida principalmente em George Clinton & os Parliament Funkadelic, nos The Wailers, em Ziggy Marley & seus The Melody Makers. era ainda 1963 quando Bob Marley juntou-se a Peter Tosh & Bunny Wailer em uma banda, continuando juntos até 1974, quando as partes mencionadas partiram em carreiras de vôo solo, ou melhor dizendo, Bunny Wailer & Peter Tosh deixam os The Wailers, que continua sendo a banda do vocalista até sua morte, em 1991.

Marley e seu cancioneiro completo estão nos meus planos de tradução, para incorporar decendetemente a mensagem aos falantes do português. por enquanto, trouxe hoje “Redemption song”, uma das últimas gravações de Marley, que faleceu em 11 de Maio de 1981, por complicações de um câncer no pé. “Redemption song” foi lançada em single & no nono álbum de estúdio dos The Wailers com Marley, “Uprising” (seu último disco de estúdio). as letras deste disco são consideradas hinos, & é o disco mais abertamente religioso, com cada uma das músicas endereçando as crenças no Ras Tafari, que culmina com “Redemption song”, na minha versão, o “Blues da piedade”.

R3D3MP710N 50N6 (música de Bob Marley) \\|// 8LU35 D4 P13D4D3 (trasncriação de r.l.almeida)

1.
Old pirates, yes, they rob I
Sold I to the merchant ships
Minutes after they took I
From the bottomless pit
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly

Foi piratas que raptaram eu
Me venderam como mercadoria
Segundos depois de me resgatar
Do inferno que caíra
Sabem quem fez minha mão forte?
O Todo Poderoso passou por aqui
Podem dizer que esta leva vai
Crescer forte e triunfante

r.
Won’t you help to sing
These songs of freedom?
Cause all I ever have
Redemption Songs
Redemption Songs

Ajudem-me a cantar
A música que liberta
É só o que vai ter pra hoje
O blues da piedade
O blues da piedade

2.
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy
‘Cause non of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look?
Some say it’s just a part of it
We have got to fulfill the Book

Emancipar-se da prisão da própria cabeça
Cada um de nós sabe o que vai fazer
Pode aceitar a energia atômica
Senão o tempo não vai mais bater
Quantos profetas mais vamos deixar morrer?
Vamos sair e deixar-nos ouvir
Há quem diga “isto é parte do plano,
A profecia vai se cumprir”.

14.xicara

uma rápida pausa para um expresso e voltamos a seguir!

o que nos traz de volta ao Brazyl, ao caso de um letrista e vocalista tupiniquim que também não gostava de dividir nada, muito menos o palco. nascido em 04 de Abril de 1958, Agenor de Miranda Araújo Neto é o nome civil do escritor Cazuza, ou o Exagerado, ou o Cajú, ou ainda o Poeta do Rock: aparece na cena com a banda Barão Vermelho, gravando junto deles os três primeiros discos, para depois trilhar sua carreira meteórica em vôo solo.

desde criancinha chamado em casa pelo apelido de Cazuza, Agenor é filho de Maria Lúcia e João Araújo (um dos executivos da gravadora Som Livre). influenciado desde cedo pela música brasileira, Cazuza demonstrava especial interesse pelos tons líricos & dramáticos das músicas de Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran e Cartola. o grande cronista Cartola, inclusive, compartilhava o mesmo primeiro nome que Cazuza, & é um dos motivos pelos quais o autor passa a aceitar o seu primeiro nome civil. mas já era tarde para se dar um nome: Cazuza vendeu mais de 5 milhões de cópias em apenas nove anos de carreira, interrompida pela vida louca, vida que levava.

Cazuza começou a escrever seus primeiros poemas em 1965. no final de 1974, passa uma temporada em Londres, onde toma conhecimento e gosto pelo roquenrou de Janis Joplin, dos Led Zeppelin e dos The Rolling Stones. mais tarde muda-se para São Francisco, já trabalhando pela Som Livre, e aproxima-se da poesia dos beats. quando retorna para o Rio de Janeiro, em 1980, começa a se apresentar junto do grupo multiplataforma Asdrúbal Trouxe o Trombone. é aí que Léo Jaime o conhece (amigos de sala de aula), apresentando-o a uma banda de garagem que procurava vocalista.

a formação original do Barão Vermelho contava com Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados), Roberto Frejat (guitarra) & André Cunha (baixo), & se dedicavam a fazer versões de músicas famigeradas. quando Cazuza entra no time, mostra algumas letras antigas & começam a gravar composições próprias. gravam o primeiro disco, com dez faixas, em quatro dias. lançam em Setembro de 1982, & tinha um nome auto-explicativo, “Barão Vermelho”. São deste disco as pérolas “Todo amor que houver nesta vida”, “Bilhetinho azul” & “Down em mim”.

o segundo disco foi lançado em Julho de 1983, também com dez faixas. neste disco está a pedrada “Pro dia nascer feliz”, mas ela não impulsionou as vendas, nem fez a banda tocar nas rádios. A banda estava quase se desintegrando devido a pressões de baixas vendagens, até o momento em que Ney Matogrosso grava sua versão de “Pro dia nascer feliz” & a música vira febre: isto põe os letristas originais, Cazuza e Frejat, no foco da fogueira das vaidades midiática. o grupo é convidado para fazer trilhas em filmes & novelas, o que ampliou consideravelmente seu público. em Julho de 1984, o Barão Vermelho entra novamente no estúdio, agora com um mês inteiro dedicado às gravações. quando lançam o disco em Outubro deste ano, seu terceiro disco, “Maior abandonado” (que contém as faixas “Maior abandonado”, “Por que a gente é assim?” & “Bete Balanço”), vira faixa obrigatória em todas as rádios e bailinhos pelo país adentro. o resultado é levar o Barão Vermelho para os palcos, como atração do primeiro festival Rock in Rio, em janeiro de 1985, quando vieram ao Brasil James Taylor, AC/DC, Whitesnake e o Queen, pela segunda vez. o grande detalhe deste show é que era dia de eleição indireta no colégio eleitoral de Brasília, para decidir se abria de vez ou fechava novamente a cortina da dita-frouxa. Frejat vestia verde-amarelo, e Cajú finaliza a apresentação tocando “Pro dia nascer feliz”!

o grupo começaria então os preparativos para o seu quarto disco de estúdio, mas Cazuza abandona as gravações, alegando ser muito egoísta para dividir os palcos. a parceria Cajú e Frejat duraria até o fim da vida de Cazuza: quando Cazuza faleceu devido a complicações com a Imuno Deficiência Adquirida, em Julho de 1990, é escoltado até a cova pelos membros da sua primeira banda.

o novo disco do Barão, “Declare guerra”, só sairia em 1986. em Novembro de 1985 Cazuza lança o primeiro disco em vôo solo, “Exagerado”. Neste disco, as pedradas “Exagerado” (parceria com Leoni e Ezequiel Neves), Balada de um vagabundo” (letra de Frejat & o poeta Wally Salomão), “Só as mães são felizes” (letra de Cajú & Frejat), “Codinome Beija-flor” (parceria de Cazuza, Ezequiel Neves & Reinaldo Arias). em Março de 1987 veio “Só se for a dois”, & em Março de 1988, “Ideologia”- este sim, consenso de crítica & público como o melhor de Cazuza. neste terceiro disco estão as pedradas “Ideologia”, “Faz parte do meu show” e “Brasil” (que surgiu depois de uma inveja criativa pelo “Que país é esse?, de Renato Russo). é também do terceiro disco a música de Cazuza que trouxe para fazer uma versa em inglês aqui hoje, o “Blues da piedade”, na minha versão chamada de “Redemption blues”.

Cazuza ainda gravaria um show no Canecão, dirigido por Ney Matogrosso, lançado em disco com o nome de “O tempo não pára” (1988), e um disco de estúdio em 1989, “Burguesia”, antes de tombar vítima da AIDS.

          para saber mais sobre Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cajú, o Poeta do Rock, o Exagerado, uma entrevista concedida à extinta Rádio Nacional FM do Rio de janeiro foi transcrita e disponibilizada no endereço sublinhado a seguir:
http://www.ebc.com.br/cultura/2015/07/programa-terca-especial-com-cazuza

BLU35 D4 P13D4D3 (música de Cazuza e Frejat) \\|// R3D3MP710N 8LU3S (versão r.l.almeida)

1.
Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

And now I wanna sing the miserables
Who wonder the world, they are so lonelly
Sing the seeds so poorly plainted
If they born, they will sure do look like abortations
To those people with such a tiny soul
Let themselves to be slaved by their tiny problems
Always wanting the one thing they never have

2.
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Sing who has seen the light and yet
There is only shades in what they are sure about
Who lives only to count someone else´s money
And that does not shivers when it’s full moon midnite
Who does not know to love
And only waits for
That someone who is made for his dreams
Like varixes that highly increases
Or flying bugs round and round electricity

r.
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Let us all pray for redemption
My Lord show us some yours redemption
They are only old red necks with no courage
Let me hear you pray for some mercy
My Lord show us yours redemption
Make them no more cowards and some distinctness
3.
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

I wanna sing only for the weaked people
Those that are in this world, and have missed they journeys
Let me sing the blues
In the streets with the preacher and the kettle drums
Lets all pray for some redemption
They have been burned out under the thin rain
We are all the same with our disgrace
Lets all sing to our redemption

06.JeVousSalue

o nome desta seção deveria sim ser “Montado nos ombros dos gigantes”

 

=D

Duas narrações \\|//, duas traduções

          salve, salve, minha querida & onipotente bloguesfera nossa de cada dia!

          mais um “Duas Tradussas” chegando na sua área, hoje para ler & traduzir dois textos um tanto quanto mais longos – um romance, & um conto curto. porque traduzir canção & poesia é bolinho de se fazer, não é mesmo? são formas mais curtas&diretas, normalmente repetem a última estrofe do verso, qualquer presidente iletrado consegue fazer igual ou pelo menos melhor, em qualquer um dos tantos idiomas que domine a fala, a  escrita, a compreensão… o problema é quando surgem aqueles textos grandes, cheios de nomes & informações, idéias que nos tiram do universo-umbigo para fazer ver que o mundo não é chato, nem pequeno…em suma: texticulassos! no artigo de hoje, Charles Bukowski & Roberto Drummond.

          Charles Bukowski é o nome de escritor de Heinrich Karl Bukowski, nascido em 16 de Agosto de 1920 nas Zooropa, em Andernach, na Prússia, depois chamada de República de Weimar, & hoje, um dos estados da Alemanha, a Renânia-Vestfália. Veio muito cedo para a América, apenas aos 3 anos de idade, devido à impossibilidade da família em ganhar um vintém honesto na Alemanha: depois da Primeira Guerra, a economia do país estagnou & a inflação batia a cada dia novos recordes. seus pais, antevendo os desvarios loucos do fabulário fascista que começava a entrar em voga no Velho Mundo, subiram num barco & só desceram quando chegaram aos EUA, em Baltimore, no estado de Maryland – cidade quase 60 km da capital federal, Washington DC: era 23 de Abril de 1923.

          até 1930, a família de Bukowski chegaria à Costa Oeste, seu pai passaria muito tempo à procura de emprego & abusando da família & do jovem Charles, enquanto que o mundo viraria de cabeça para baixo com a queda da Bolsa de Nóva Úorque & a Grande Depressão. a Grande Depressão impulsionava a raiva do jovem Charles, enquanto Buko saía da adolescência e adentrava a vida adulta. é este cenário dos EUA, entre as décadas de 30 e 60, que é parte do tema do autor. Bukowski conseguiu publicar alguns contos em revistas e jornais quando tinha 20 anos de idade, mas não foi adequadamente referenciado ao círculo de escritores. então, começa a se dedicar a conseguir pagar suas contas, deixando a escrita para quem sabe. é aí que nasce um escritor, que antes faz uma pausa de 10 anos, dedicados a muita birita, empregos que começam & empregos que terminam tão abruptamente quanto começaram, pesquisa de campo, ações de vandalismo público, cadeias, mulheres, sarjetas. & andanças, muitas andanças: Buko perambulou por todo os EUA, em seus anos de formação. existem memoriais dedicados às casas alugadas por Bukowski em Nova Orleans, em Detroit, em São Diego, & por toda a América do Norte afora.

          uma matéria interessantíssima com notas sobre o velho safado, e o acesso ao seu memorial virtual, está disponível em:
https://www.publico.pt/2013/08/29/culturaipsilon/noticia/espolio-de-charles-bukowski-disponivel-na-internet-1604355

          há muito, muito tempo atrás, numa galáxia não tão distante daqui, pude traduzir o “Hollywood”, seu penúltimo livro. prolixo não define o autor: produtivo sim: Buko tem uma extensa participação no mundo das Letras, seja com poesias, seja com contos curtos, seja com romances, & até mesmo com as grandes abstrações na Literatura, os roteiros para cinema. & a gente ainda nem começou a falar dos outros escritores que lia, & até mesmo dos musicistas de que era fãzasso! & de como minha história cruzou com a dele? era 2008 quando um grupo de artistas, roteirista & atores, pensaram em produzir um longa-metragem de ficção a toque de caixa. apenas eu era do estranho planeta dos seres audiovisuais, & daí tentei lembrar de algum manual para produção audiovisual que pudesse esclarecer o caminho que estávamos nos propondo a andar. lembrei imediatamente do “Hollywood”, mas não consegui achar o livro, impresso em terras brasilis pela editora LP&M, nem em bibliotecas, nem em sebos, nem em lugar algum. a saída foi adquirir uma nova edição do romance no idioma original, & a partir dela fazer uma versão para a equipe.

          porque “Hollywood” é o manual definitivo de “Como fazer cinema?”, mas lançado sem esta nota explicativa.  o livro surgiu da experiência de Bukowski, convidado pelo produtor & diretor Barbet Schroeder, enquanto escrevia o roteiro do filme “Barfly – condenados pelo vício” (1987), acompanhando de perto as filmagens, o processo de montagem, o lançamento do filme nas telas de cinema, a chegada do filme à televisão. a história é contada pelo ponto de vista do escritor-roteirista, seu outro eu no mundo do faz de conta, o faz-de-tudo-um-pouco de nome Henry Chinasky.

          polêmicas sobre esta tradução: 1) quis traduzir o nome do lugar, mesmo sendo uma regra da tradução não traduzir nomes de lugares e de pessoas. claro que todo mundo sabe aonde fica Hollywood, & já viram seus sagrados bosques na Califórnia da Costa Oeste: a grafia de “Róliúdi”, essa foi especial para bater em outra regra da gramática de língua portuguesa: a de que as palavras só carregam um acento gráfico – ou, quem ver a arte da capa vai entender o segredo da pedra filosofal de como transformar um daiquirí em uma caipirinha; 2) Chinasky dirige um Fusca da Volkswagem, que no meu texto virou um ainda mais icônico 147 da Fiat; 3) já é um texto com quase dez anos, & desde a primeira versão “pronta” já tinha notado uns erros de concordância, umas vírgulas fora do lugar, então, se fosse fazer uma atualização começaria por aí…no mais, ele está bem funcional! 4) o filme que eu & minha equipe preparávamos, não conseguimos filmar todas as cenas nem finalizá-lo, mas o manual continua vivo e passa bem neste linque aí de baixo, para quem quiser um manual de cinema E TAMBÉM um relato de perto sobre a mais malévola indústria que já andou nesta Terra, nos últimos 300 anos:

          https://e.issuu.com/anonymous-embed.html?u=rodrigoliborio&d=buko-r_li_di
          <<<<<acesse o pê dê éfe do livro Hollywood, de Bukowski \\|// com tradussa simultânea deste  rlalmeida que vos fala>>>>>>

BukoRDrumma

          o que nos traz de volta para o Brazyl pós-Utopia e pré-Distopia. Roberto Drummond é nascido na cidade de Ferros, região do Vale do Rio Doce do estado de Minas Gerais, em 21 de Dezembro de 1933, e enquanto não era escritor assinava Roberto Francis Drummond. torcia futebol pelo Clube Atlético Mineiro, e foi um dos primeiros repórteres empreendedores do país: atuou no jornal, em revistas, na rádio & na televisão. começou a escrever suas próprias novelas influenciado pelo rádio, aos treze anos de idade.

          Na década de 1950, abandona os estudos sem concluir o curso científico para dedicar-se ao jornalismo, a convite da Folha de Minas, sediada em Belo Horizonte. Trabalha no semanário Binômio,  de 1952 até 1964, tablóide considerado um dos precursores da imprensa alternativa brasileira & afiliado à sucursal mineira do Última Hora. Em 1961, assume a direção da revista Alterosa, fechada em 1964 quando desceu a cortina de ferro da Ditadura Militar. Muda-se então para o Rio de Janeiro para atuar no Jornal do Brasil, voltando no ano seguinte para Belo Horizonte, onde passa a dedicar-se à crônica esportiva: durante 21 anos assina a coluna Bola na Marca, do jornal Estado de Minas. Estréia na literatura em 1971 com o livro de contos “A morte de D.J. em Paris”, provocando polêmica ao incorporar elementos da cultura pop à sua produção ficcional.

          talvez por ter nascido em terras Brèsilienes, o livro teve que ser relançado, o que conferiu uma chance de as pessoas lerem um livro bom e diferente. desse segundo lançamento é que veio a indicação ao prêmio Jabuti de 1975, galardoando a Drummond o prêmio na categoria “Autor revelação: Literatura Adulta”. o reconhecimento popular pela Literatura só viria da adaptação de “Hilda Furacão” (romance de 1991) para a televisão, em 1998, mas Roberto Drummond também foi bem reconhecido na época dos lançamentos dos livros  “Sangue de coca-cola” (1980, poemas) e “Quando fui morto em Cuba” (1982, romance).

          uma matéria interessantíssima de Roberto Drummond, que caracteriza seu estilo de jornal além do esporte, aqui neste  link sulinhado!
https://jornalggn.com.br/direitos-humanos/como-compramos-o-casal-de-retirantes/

          morre em 2002, em Belo Horizonte, deixando inédito um livro de contos. a cidade que adotou como estilo de vida o homenageia no ano seguinte, inaugurando uma estátua de bronze em tamanho natural do escritor, em um de seus bairros prediletos para levar um livro para passear. escolhi um dos contos de Drummond do seu primeiro livro para fulgurar aqui no site, acredito eu, em sua primeira versão em inglês do tio Sam, O Agente Laranja. sim, porque aqui é um lugar que a gente vem para quebrar o código & derrubar a Babel, matar a cobra & mostrar o pau!

          polêmicas sobre esta tradução? o texto é uma loucura porque mistura o português ao latim – toda a cena se passa durante uma aula em que o professor aplicará a prova final. para nós, falantes cujo primeiro idioma – o tal do idioma materno – é o português, o humor está em cada parágrafo. & isso porque o português é um fruto direto da evolução <<<indo-europeu – românico – latim>>> . mas & para os gringos? o inglês é outro ramo da fabulosa árvore do conhecimento, & só empresta alguns termos do latim. as grandes polêmicas desta tradussa ficaram por conta da homenagem ao Federico Fellini, transformando o “gato, gato, gatum” (parágrafo 11) em “cat, kitty, fellini”, e uma menção ao velho e bom bardo de Strattford perto de Avon, transformando as “cotovias cotoviae” (parágrafo 13) em “larks and nightingales” (os rouxinóis e as cotovias do terceiro ato de “Romeu & Julieta”)

RO54, R054, R0543 – conto do livro “A morte de DJ em Paris”, de Roberto Drummond

          Rosa, Rosa, Rosae na aula de latinorum do Prof. José Evangelistorum só as moscas voorum, ninguém piorum. Rosae, Rosa, Rosam por qualquer coisorum o prof. José Evangelistora relampeorum, trovejorum. A todos catigabus, gritava Violeta, Violetae, Violetorum escrever mil vezes vezorum nunca mais hei de mascar chicles chicletes chicletorum na aula de latinorum. Paulo Paulus Paulu ficabus de joelho lá na frente frentorum e se outra vez eu te pegorum, dominus, domine, domini, o Prof. José Evangelistorum a mesa esmurrorum na aula, aula, aulae de latinotum, como um Joe Louisorum, a mesa, mesa, mesae nocauteorum.
          Calça, calça, calçae quase pega frangorum, cruz crudibus na lapela, o Prof. José Evangelistorum 12 anos passorum na soli, solidão, solidorum do seminário. Nunca ridibus, semper serius e de meia preta, o colarinho da camisa encardido endardidae, as pontas viradas, nos olhos duas olheiras cor de uma 6a. feira da Paixãozorum. Só de entrar na sala, lá vem El Tigre Tigrorum, todos tremorum, aos alunos fuzilorum com seu olhar de lobisomem lobisomorum e todos tremiam peronia seculo seculorum.
          Mosca, mosca, moscae, onde o Prof. Evangelist idibus as moscas atrás voorum, zumbidorum, desrespeitorum querendo entrar no nariz, na boca, bocae, bocorum do Prof. José Evangelistorum. Dominus, domine, domini, o Prof. José Evangelistorum as moscas abonorum, prudens, prudens, prudentis todos ficavam calados, mas no recreio, longe do olhar do lobisomorum, gritavam qui quae quod com as moscas ninguém pode.
          Rosa, Rosa, Rosae, a aluna Rosa era morena, morena, morenae, verdes olhos verdorum, tristes tristorum. Bela, bela, belae passeava nas tarde tardorum,só, soli, solidorum, com as crianças parava, ajoelhava, beijava, e as ruas cheias de poeira, poeira, poeirae ficabus cheirando a Rosa, Rosa, Rosae. Triste tristeza triste, olhando Rosa passa às 6 da tarde tardorum, da mãe matter de Rosa Rosa Rosae só de lembrar chororum.
          Bela Aluna Rosa a ninguém amorum, nem flertorum, no carnaval Rosa Odalisca numa mesa trepava e sozinha dançava, cantavam vem Odalisca, ve, vem, vem. Olhos verdes verdorum, tristes tristorum, Rosa, Rosa, Rosae nem ligorum, só atirava serpentinorum, pra longe longe olhorum, Odalisca, Odaliscae, Odaliscorum, vontade de beliscorum.
          Fulgur, fulgur, fulguris, o aluno Jesus Cristo, magro, magrae, tocava viola, violão, feio feibus, mas era um bendito é o fruto entre as mulheres. Ama, amas, amat, conversava com Rosa, Rosa, Rosae na aula de latinorum, cornu, cornu, cornui, o Prof. José Evangelistorum explodibus, gritou: Quosque tandem abutere Jesus Cristo patientia nostra? Como castigorum pra todo segundo semestrorum, Jesus Cristo de braços abertos em cruz ficorum, lá na frente frentorum, na aula de latinorum, Rosa, Rosa, Rosae foi se sentar ao lado de Luiz Orlando, que era C.D.F., a cara de boi sonsorum.
          Tempus, tempus, tempi, o tempo passorum, a prova, prova, provae de latim chegou. Com sua mão manus morena morena morenae, tremens, tremendo, Rosa, Rosa, Rosae oo ponte de latim sorteorum, Jesus Cristo braços abertos em cruz cantava para si mesmorum:

          Eu tou doente, morena,
          doente estorum
          cabeça inchada, morena
          tou, tou e torum.

          Silens, silenciorum, a prova começou, as moscas zumbidorum, o Prof. José Evangelista pra lá pra cá andorum, lia “A Divina Comédia”, de soslaio os alunos e alunaes vigiava, com os olhos de lobisomorum, com o Prof. José Evangelistorum ninguém colorum. Pra lá pra cá andorum, o Prof. José Evangelista respirava o perfume de Rosa, Rosa, Rosae e suspirava, ah! suspiravae. Cola, cola, colae, Rosa as pernas morenas cruzou, louca, louca, loucae, a saia azul puxou, perna morena, morena, morenae apareceu e até as moscas estremeçorum. Rosa, Rosa, Rosae Loucae na perna morena a cola, cola, colae com a tinta azul escreveu, agora colava, Rosa, louca, louca, loucae.
          Memento Rosa, de Amélia, que colou, o Prof. José Evangelista como um tigre Tigrorum por trás de Amélia chegou, nnhóc, a prova tomou, deu zero zerorum para Amélia que ficabus vermelha, vermelhae como Ingrid Bergman em tecnicolor tecnicoloribus. Memento Rosa Louca, ssssss, Rosa, sssss Rosa, lá vem o Prof. José Evangelist, avisava Jesus Cristo, ssssss, Rosa, esconde a perna morena, morena, morenae, Rosa louca, louca, loucae.
          Gato, gato, gatum, o Prof. José Evangelista andou até Rosa, em cima do ombro perfumado de Rosa, Rosa, Rosae olhou como um lobisomem, recuorum, amarelorum, o livro nas mãos trêmulas fechorum. Otelo Otelo branco brancorum pro canto da sala caminhorum, dramaticus, voltou como um Tigre Tigrorum, ah meu Deus do zeuzorum vai dar o bote na prova prova provae de Rosa Rosa Rosae, mas a perna morena morena morenae o Prof. José Evangelista olhorum, ali ficorum, disfarçadorum que lerorum A Divina Comediorum.
          Violeta, Violeta, Violetorum, uma cola de sanfona abriu, o Prof. José Evangelista enxergorum, mas não importorum e achorum que a sanfona sanfona sanfonae música tocorum quando os verdes verdorum dos teus olhos olhorum se espalhorum. Colae, colam, todos colorum cochichorum, cola de avião mandorum, Leopoldo o livro de latim abriu, Clarice o ombro pra lá chegorum pra Paulo Paulus de olhos castanhorum olhorum.
          o Prof. José Evangelista perto de Rosa Rosa Rosae ficorum, morena perna perna pernae morenae olhorum, tremorum, só escutorum a sanfona de Violeta Violetae tocorum quando os verdes verdorum dos teus olhos olhorum. Quando Rosa, Rosa, Rosae a saia azul abaixorum, e a prova, prova, provae perfumada de latim entregorum, m o Prof. José Evangelista na sala soli ficorum, uma gargalhada gargalhadorum soltorum que as moscas moscae em borboletas borboletae cotovias cotoviae se transformorum e pra longe longebus voorum, cantavam alelui aleluiae.

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R054, R053, R0543 – tradução de r.l.almeida

           Rosa, Rose, Rosae at the laetinorum classes from professor Joseph Evagelistorum only the flies flyoorum, no one gets worstorum. Rosae, Rosa, Rosam just a single thingorum and professor Joseph Evangelist lightning and thunder boltorum. Everybody he punishabus, yelling Violet, Violetae, Violetorum you all going to write one thousand times timesorum never more shall we chew bubble gum gumetes gumetorum in laetinorum classes. Paulo Paulus Paulu you may restabus on your knees front stage stageorum and if I ever catchorum you again, domindus, domine, domini, and then professor Joseph Evangelistorum punchedorum his work desk at the latin, laetin, laetinorum classes, and just like The One Joe Louisorum, the desk, desk, deskae knockouteorum.
          Pants, pants, pantsae almost catches chickenorum, cross crudibus in his collar, the professor Joseph Evangelist has spentorum 12 year in the soli, solitude, solitarianessorum of a seminar . Never laughterbus, semper serius and wearing black socks, the grimy grimmae shirt, the tips of it upturns, two grey and small bags underneath his eyes, it is the color of a friday, a good old friday of the Easternorum. Only by enter the room, here comes El Tiger Tigerorum, everyone shiversorum, the students the pupils he fusilladeorum with his eyes of werewolf werewolforum and everyone shivers peronia seculo seculorum.
          Fly, flying, flies, where is the professor Evangelist goingbus the flies always chase, chasing, chased after him flyorum, buzzingorum, disdaindorum wanting to fly by into a nose or a mouth, mouthae, mouthorum of the professor Joseph Evangelistorum. Dominus, domine, domini, the professor Joseph Evangelistorum the flies waggedorum, prudens, prudens, prudentis everyone rest quietabus, but in the break time, far from the werewolforum eyes, screaming qui quae quod nobody beats the flies.
          Rosa, Rose, Rosae, the pupil Rosa was black, black, blackum, green greenorum eyes, sad saddorum. Beautiful, beautiful, beautifulous use to walk in the afternoon afternoonorum, lone, lonely, lonelydorum, stand aside some children, bend on her knees, kiss them cheeks, and the streets full of dust, dust, dustae restabus smelling the roses, Rosa, Rosae. Sad sadness sad, look at Rosa walking by at 6 in the noon noon norum, from her mother matter Rosa Rose Rosae she remembers and weepsorum.
          Beautiful pupil Rosa had ever lovedorum, neither a small flirtorum, in the Carnival Rosa Odalisque climbut the table, dancedum alone, they chant come here Odalisque, como on, let´s go, come on. Eyes green greenorum, sad saddorum, Rosa, Rose, Rosae did not mindorum, only casting ticker tape, far far away eyesorum, Odalisque, Odaliscae, Odaliscorum, I want to niblleorum.
          Fulgur, fulgur, fulguris, and the pupil Jesus Christ, thin, thinae, he played the guitárre, the bänjo, ugly uglybus, but also a blessed fruit among women. Ama, amas, amat, talks to Rosa, Rose, Rosae at the laetinorum classes, cornu, cornu, cornui, and then professor Joseph Evangelistorum explodingbus, yelling: Quosque tandem abutere Jesus Cristo patientia nostra? As punishmentorum for the whole second semesterorum, Jesus Christ with his arms wide open in the shape of a cross restorum, away front stage stageorum, at the laetinorum classes, Rosa, Rose, Rosae went to sit neighbouring Luiz Orlando, genuine nerd and geek, the legitimate figure of a sitting bullshorum.
          Tempus, tempus, tempi, the time had flewtum, and the exam, exami, final examminaetia of laetim finally came. With her hand handus black black blackum, shivens, shivering, Rosa, Rose, Rosae shufflesdorum who shoots the next question, Jesus Christ arms wide open singing for his selforum:

“I am so sick, my girl
          So sick to beorum
          My head only grows, my girl,
          am, was, worum.”

          Silens, silenciorum, exam has begun, the flies buzzingorum, and the professor Joseph Evangelist back and forth walkadorum, reading “The divine comedy”, leering guard on his students and pupils, his werewolfolorum eyes, with the professor Joseph Evangelistorum nobody cheatorum in finalsorum. Forth and back walkadorum, the professor Joseph Evangelist inhales the scent from Rosa, Rose, Rosae and sighs, ah! he sighsae. Cheat, cheating, cheatae, Rosa cross her black legs, crazy, crazy, crazyae, pulls up her blue skirt, the legs are black, black, blackae showing up and even the flies syncopedorum. Rosa, Rose, Rosae Crazyae in her black thigh the cheat, cheating, cheatae carved in blue ink, and she was cheating, Rosa, you crazy, crazy, crazyae.
          Memento Rosa, for Amélia, she cheated, the professor Joseph Evangelist just like a Tiger Tigerorum approached from behind Amélia, nnhóc, pulling out her test, gives a zero zerorum to Amélia that restabus red redae just like Ingrid Bergman in tecnicolor, tecnicoloribus. Memento Crazy Rosa, ssssss, Rosa, sssss Rosa, here comes the professor Joseph Evangelistorum, warned Jesus Christ, ssssss, Rosa, hide yer black, black, blackae thigh, woman!, Rosa you crazy, crazy, crazyae.
          Cat, kitty, fellini, the professor Joseph Evangelistorum walks toward Rosa, he is over the scented shoulder of Rosa, Rose, Rosae he glances just like a werewolf, back offorum, yelloworum, and closes the book within his shaky hands. Otelo Otelo white whiteorum walksadorum to the corner of the room, dramaticus, and he is back just like a Tiger Tigerorum, ah my God of heavenszorum he is going to bite the exam, exam, final examminaetia of Rosa, Rose, Rosae, but the legs are black, black, blackae and the professor Joseph Evangelistorum lookorum, by her he restsorum, in disguiseorum readingorum “The divine comedyorum”
          Violet, Violeta, Violetorum, she handdles a cheat in a concertina piece of paper, the professor Joseph Evangelistorum saworum it, but did not mindedorum, thoughtorum the concertina concertina concertinae could some arias playorum if the green greenorum of her eyes eyesorum spreadorum all over it. Cheatae, cheating, everyone was cheating wisperingorum, a cheat in a plane had fleworum, Leopold opened his book of laetim, Clarice leanedorum her shoulders in a way Paulo Paulos and his dark brown eyes could understandorum.
          The professor Joseph Evangelist restorum nearby Rosa, Rose, Rosae, her black thigh thigh thighae blackae lookingdorum, shiveringdorum, only listening Violeta Violetae´s concertina playing whith the green greenorum of your eyes watchedorum. When Rosa, Rose, Rosae pullus back her blue skirt, and deliveredorum her final and scented laetim examminaetia, the professor Joseph Evangelist was lone in the room, he cries such one biggus burst of laughter that the flies flew into butterfly butterflies larks and nightingales changing and away, far awaybus flewum, singing alleluia aleluiae.

          definitivamente, esta seção deveria se chamar “Sentado nos ombros dos gigantes!”

=D

Duas canções, duas traduções

salve salve, meu bom povo & minha boa pova desta querida & neurastênica, mas não plana!, bloguesfera nossa de cada dia! está no ar mais um “Duas canções, duas traduções”.

é tão covarde tirar uma música do contexto em que ela está inserida quanto tirar uma frase do contexto em que foi produzido: os sentidos estão eternamente em rotação&resignificação, e só com todo o material (o tal do ”contexto”) em mãos é possível chegar a um significado mais “correto”, ou pelo menos, mais perto da proposta de quem enunciou. podem ficar tranquilos que, quando apresento alguma música aqui, passei os olhos no disco, ouvi, analisei, interpretei & brinquei pingue-pongue com a budega inteira por um bom tempo, antes de passar à transcriação propriamente dita.

o nome desta seção deveria ser “montado no ombro dos gigantes”!

a atração de hoje é um Bob Dylan, não tão polêmico quanto o anterior, & uma tentativa de levar ao idioma de Shaguespeare as letras de Renato Russo&Sua Real Companhia Ilimitada.

a primeira vez que o mundo ouviu “The ballad of a thin man” foi em 30 Agosto de 1965, quando lançaram o disco “Highway 61 revisited” – que no meu português de caipira ficou “Bê Érre 101 revisitada”. estão neste álbum pedradas importantíssimas da história de Dylan, como “Like a rolling stone” e “Desolation row”. até o fechamento desta edição, o bardo de Duluth, Minnesota, declara 1237 exibições públicas desta música, desde sua primeira exibição pública, em 28 de Agosto de 1965, no estádio de Tenis de Forest Hills, Nova Uórque.

acho que esta foi a primeira música de Dylan que traduzi. do catálogo dele foi a que mais demorou a atingir um estado de maturação – a tal da transcriação. até recentemente, ainda não sabia bem como cantar os versos de refrão, depois de cada uma das 7 estrofes, mas agora acho que já consegui resolver este problema. o vídeo a seguir ilustra a música bem perto de ficar pronta:

ainda sobre o disco: ele é um dos álbuns de Dylan em que o letrista coloca um textão de “notas de rodapé” – quando a gente abre o disco de vinil, & tem um monte de surpresas – quase uma historinha – além da playlist & da ficha técnica. às vezes fotas. quem gravou, quem arranjou, quem produziu quando em qual estúdio. o original, vou deixar neste uébi link direcionado, porque não é o foco do estudo de hoje (clicar em “show all \\|// expandir” da caixinha “liner notes”), mas a minha versão, quem estiver acessando aqui, pode ler e conferir se o que o prêmio Nobel de Literatura do ano de 2016 está fazendo é literatura ou é música. incrusive, quem tiver a resposta, que atire a primeira pedra!
bob-dylan-highway-61-2

No trem devagar o tempo não interfere & na cruzada Arábica espera Pilha Branca, o homem do jornal & ao seu lado a centena de Inevitáveis feitos de sólidas pedra & rocha — o Juiz Creme & o Palhaço — a casinha de bonecas em que Selvagem Rosè & Fixável moram humildes em sua selvagem e maliciosa natureza . . . . Autono, que tem dois zeros acima das fuças e argumenta acerca do sol estar escuro ou ser Bach tão famoso quanto seu distúrbio & que é ela mesmo — e não Orfeu — a poeta lógica “Eu sou a poeta lógica” ela gritava “Primavera? A Primavera é só o começo!” ela tenta deixar o Juiz Creme com inveja contando a ele sobre o povo que mora debaixo-da-terra & enquanto o universo explode, ela aponta para o trem devagar rezando para que a chuva e o tempo interfiram — ela não está muito gorda mas ao contrário disso progressivamente infeliz. . . .a centena de Inevitáveis esconde suas previsões & vão para os bares & bebem & ficam bebassos de sua maneira muito especial e consciente & quando tom dooley, o tipo de gente que você se lembra de já ter visto antes, chega de passeio com Pilha Branca, a centena de Inevitáveis dizem todos “quem é esse cara branco por demais?” & o garçom, menino bom & um outro que sempre mantém os brios à flor da pele, dizem, “eu não o conheço, mas é certeza que já ví o outro camarada n’algum outro lugar” & quando Paulo Sargento, homem de trajes simples de lá da Rua 4, aparece às três da manhã & prende todo mundo por estarmos sendo incríveis, ninguém ficou brabo de verdade — só o mínimo de anafalbetismo que a maioria das pessoas entende & Roma, um da centena de Inevitáveis, segreda “Eu te avisei” a Madama João . . . . Selvagem Rosè & Fixável assopram beijocas corajosas para Hexagrama Jade da Rua Carnaby & para todos as jovens misteriosas & o Juiz Creme escreve um livro sobre o puro significado de uma pêra — ano passado, foi um sobre cachorros ilustres da guerra civil & agora ele tem dentes falsos & nenhum filho. . . . quando o Creme conheceu Selvagem Rosè & Fixável, ele lhes foi apresentado por ninguém menos que Futilidade — Futilidade é o Grande Inimigo & sempre usa um protetor nos quadris — ele é muito dos protetores de quadris . . . . Futilidade disse enquanto apresentava o pessoal “vá salvar o mundo” & “envolvimento! este é o assunto!” & coisas assim & Selvagem Rosè piscou para Fixável & o Creme foi embora com o braço numa tipóia cantando “summertime & the linvin is easy” . . . . o palhaço aparece — veste com uma mordaça a boca de Autono dizendo “existem dois tipos de gente: as simples & as normais” isto normalmente extraía grandes risadas da caixa de areia & Pilha Branca espirra — desmaia & rasga a mordaça de Autono & diz “Que conversa é essa que você é Autono e que sem você não haveria a primavera! sua tola! sem a primavera, você não existiria! o que você acha disto?” e daí Selvagem Rosè & Fixável vêm também & o chutam nos miolos & o pintam de rosa por ser um filósofo de mentirinha — daí surge o Palhaço que grita “Seu filósofo de mentirinha” & pula sobre a sua cabeça — Paulo Sargento surge novamente vestindo roupa de árbitro & algum moleque do colegial que já leu tudo do Nietzsche surge & diz “Nietzsche nunca vestiu roupas de árbitro” & Paulo diz “Quer comprar umas roupas, meninão?” & então Roma & João saem do bar & eles estão indo até o Harlem . . . . hoje cantamos sobre a GANGUE DO ARRASTÃO — a GANGUE DO ARRASTÃO compra, é dona & opera a Fábrica da Insanidade — para quem não sabe onde fica a Fábrica da Insanidade, deve por causa disso dar dois passos para a direita, pintar os dentes & ir dormir . . . . as músicas neste disco em específico não são exatamente músicas mas ao invés disso exercícios de respiração para controle tonal. . . . o assunto é o que importa — e por mais insignificante que seja — tem alguma coisa a ver com os belíssimos estranhos. . . . os belíssimos estranhos, a jaqueta verde de Vivaldi & o santíssimo trem devagar.

você está certo john cohen — quazimodo acertou —  mozart acertou . . . . não consigo mais dizer a palavra olho. . . . quando falo esta palavra olho, é como se falasse do olho de alguém que vagamente me recordo. . . . não existe olho algum — existe apenas várias bocas — vida longa às bocas — o seu telhado — se ainda não percebeu — foi demolido. . . . o olho é um plasma & você está certo sobre esta também — você tem sorte — você não tem que pensar sobre coisas tais como olhos & telhados & quazimodo.

 Bob Dylan – guitarra, gaita, piano e viatura da polícia
Michael Bloomfield – guitarra
Alan Kooper – órgão e piano
Paul Griffin – piano e órgão
Bobby Gregg – bateria
Harvey Goldstein – baixo
Charles McCoy – guitarra
Frank Owens – piano
Russ Savakus – baixo

OoO–OoO

TH3 84LL4D 0F 4 7H1N M4N (Robert Allen Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t A 84LL4D4 DUM M46R0 H0M3M (r.l.almeida)
1.
You walk into the room with your pencil in your hand
You see somebody naked and you say, “Who is that man?”
You try so hard but you don´t understand
            Just what you will say when you get home

Você entrou no quarto, segura o lápis nas mãos
Você viu alguém pelado e diz, “Quem será o irmão?”
Você tentou tudo, mas não entendeu nada não
            O que se vai dizer lá pra patroa?

r.
Because something is happening here
But you don´t know what it is
Do you, mister Jones?

Porque alguma coisa acontece aqui
E você não sabe bem o que é
Ou sabe, senhor Jones?

2.
You raise up your head and you ask, “Is this where it is?”
And somebody points to you and says, “It´s his!”
And you say, “What is mine?” and somebody else says, “Where what is?”
            And you say “Oh my God, am I here all alone?”

Você levantou a cabeça e pergunta, “O lugar é este aqui?”
E alguém mais aponta você e diz, “É dele ali!”
E você, “Bem, qual é o meu?” e ainda um outro alguém “Ué, então, e
aí?”
            E você, “Ó meu Deus, será que sou eu só?”

3.
You hand in your ticked and you go watch the geek
Who immediately walks up to you when he hears you speak
A
nd says, “How does it feel to be such a freak?”
            And you say, “Impossible!”, as he hands you a bone.

Você entregou a entrada e vai ver a aberração
Que imediatamente anda até você, ouviu tua respiração
E diz “Como é pra você ser assim tão esquisitão?”
            Impossível: ele te estende um ossão!

b.
You have many contacts among the lumberjacks
To get you facts when somebody attacks your imagination
But nobody has any respect, and anyway they already expect you
            To give a check
            To tax-deductible
            Charity organizations

Você tem muitos fornecedores entre os tais dos lenhadores
Pra te dizer verdades quando agridem a tua imaginação
Mas ninguém respeita nada, não, todos eles só querem saber se
            Você já assinou o cheque
            Doou toda a renda
            Pra organização

4.
You have been with the professors and they all liked you looks
With great lawyers you have discused lepers and crooks
You have been through all of F Scott Fitzgerald´s books
            You are very well read, it is well known

Você esteve com os estudados e todos curtiram teu perfil
Com grandes advogados sobre a lepra e o escorbuto você discutiu
Você já leu tudo do F.  Scot  t   Fitz    geral    dô
            Você é bem lido, sabe-se bem disso

5.
Well, the sword swallower he comes up to you and ten he kneels
He crosses himself and then he clicks his high heels
And without further notice he asks you, “How it feels?”
            And he says, “Here is your throat back, thanks for the loan!”

Lembra do engole-espadas? Ele vem até você e se ajoelha
Se faz o sinal da cruz e bem alto tamanqueia
E sem ninguém notar te pergunta, “Como vai tua orelha?
Aqui tua garganta, agradeço o uso!”

6.
Now you see this one eyed-midget shouting the word “Now!”
And you say, “For what reason?”, and he says, “How?”
And you say, “What does this mean?”, and he screams back, “You
re a cow!
            Give me some milk or else go home

Você viu o anão caolho grita a palavra “Tão!”
E você, “Pra que isso?”, ele diz “Vão!”
E você, “Qual o sentido disso?”, ele grita “Volta! Você é uma vaca!
            Dê-me um leite ou vá pra casa!”

7.
Well, you walk into the room like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket, and your nose on the ground
There oughta be a law against you coming around
            You should be made to wear earphones

Você entrou no quarto igual a um camelo se jogou no chão
Guardou os olhos no bolso, deixou o nariz no porão
Deve existir alguma lei que não te deixa aparecer, não
            A gente tinha que ter os rádios bem no meio das fuças!

01

frontispício original da loucura!


      cito mais uma vez os Nobel para dar continuidade a este artigo, & aproveito a oportunidade para chorar: o Brasil ainda não tem um Nobel de Literatura – nem da Paz, nem da Química, nem da Física, nem da Medicina. e nem da Economia, sr. Supermi-mi-ministro… na seara da Literatura temos uma infinidade de nomes que certamente NÃO ganhariam o prêmio, & um seleto grupo que poderia comover a academia sueca: Lia Luft, Lígia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony, Machadão, Lima Barreto, Ferreira Gullar. se fizermos o paralelo do prêmio com a música, adiciona também Noel Rosa, Cazuza & Renato Manfredini Russo Júnior neste distinto panteão de batalha.

Legião Urbana é um capítulo à parte da música brasileira – uma aventura que vai de 1978 a 1996, com a morte do letrista. existe muita menção ao roquenrou de Brasília, & dos grupos que se encontraram por lá, como Os Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e Capital Inicial. era tudo uma grande tribo punk, ou até mesmo uma família punk, que frequentava os shows e ensaios uns dos outros.

a faixa que arrisco uma versão em inglês fecha o terceiro disco da Legião Urbana, “Que país é este (1978/1987)”, lançado em novembro de 1987. esta é uma das poucas faixas que é composta pelo grupo em sua totalidade. neste disco estão pedradas como “Faroeste caboclo”, “Química” & “Tédio (com um T bem grande pra você)”. foi considerado o retorno da banda às origens do bate-cabelo, com letras de denúncia & de consciência, por meio de um olhar afiadamente político. & por falar no idioma inglês, lembro bem do Acústivo MTV, em que o antigo professor de inglês ensinava: “Querem cantar em inglês? Então canta assim!”, & emendava um “Head on”, dos Jesus And Mary Chain.

M415 D0 M35M0 (Renato Rocha, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos &t Renato Russo) &t M0R3 FR0M TH3 S4M3 (r.l.almeida)

1.
Ei, menino branco, o que é que você faz aqui
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem e você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?

Hey you little white boy, what are you doing right here
You cross valleys when you looking for some fun
A new supply has not arrived, i need a little something more
Would you just leave me alone?

2.
Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
Enquanto tem chacina de adolescentes?
Como é que você se sente?

In all those twenty years not a single has been good to me
and yet you want me to let it be like you, just like a rocking rolling stone
And in here we do not roll
Who will take care of those harmed people?
Or of the killing of young children?
Tell me how does you feel it?

r.
Em vez de luz tem tiroteio
No fim do túnel
O ooo o mas é sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

Instead of light, we saw gunfighting
Ending the tunnel
O owo o it is always more from the same
It was not this you were willing to hear?

3.
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como eu penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer
Um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando
Sucessos populares (todos os índios, índios, índios)
Todos os índios foram mortos

So kind you have explained with all that clarivoiancè
This is exactally how i fell and how i think and what am i
I just have never realised
You have the courage to ask
For a portrait of the nation
But they have burned out the reel
While we are speaking, at the infirmary
All the bruised people, they sing together
The songs they can remember
All of the indians, they were shooted, slaughtered

o nome desta seção definitivamente deveria ser “Assaltaram a gramática!” =b

 

Duas canções, duas traduções

salve salve, minha querida & azul bloguesfera! vem aqui mais um “Duas canções, duas traduções”.

no episódio de hoje, vamos atravessar a ponte para decodificar a mensagem de duas grandes músicas, uma de Bob Dylan & outra dos Secos&Molhados. na segunda parte, realizaremos o caminho inverso, usando de uma canção 100% tupiniquim que faz todas as pessoas cantarem juntas, & levá-la ao ingrêis do tio Donaldo, o Agente Laranja, para que ele entenda como se chacoalha o esqueleto no lado de baixo da linha do Equador, onde não existe o pecado.

o nome desta seção deveria ser “montado nos ombros dos gigantes”!

Bob Dylan, o nome de escritor de Robert Allen Zimmerman, nascido na cidade de Duluth, Minnesota, em 1941, já andou o mundo inteiro para apresentar o que ele chama de “A turnê que nunca acaba”. em terras brasilis, já visitou Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo & Porto Alegre, ao longo de cinco oportunidades para apresentar seu trabalho enquanto musicista: 1990, na segunda edição do festival Hollywood Rock; turnês em 1991, em 2008 & em 2012; & enquanto banda de abertura para os The Rolling Stones, em 1998. o olhar do bardo é ativo também nas artes plásticas, como podemos ver através de uma declaração sobre sua série de pinturas em tinta acrílica (quase 50 telas!), intitulada “The Brazil Series”:

“Existe uma parte na América do Sul onde não se fala espanhol, fala-se português. É um país adorável, com 184 milhões de habitantes vivendo lá. É o gigante da América Latina. Esse país ocupa quase metade do continente. Acredito que seja maior do que os Estados Unidos. Seu lema é “ordem e progresso”. É onde você encontra São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos lugares com as melhores festas que conheço. Estou falando do Brasil.”

para abrir os trabalhos aqui no blogue, foi escolhida uma música para aproveitarmos o atual momento de discussão da sociedade falocrata&fratricida que envenena nossas terras. “Just like a woman” apareceu no primeiro disco duplo de rocknroll da história, o “Blonde on blonde” de 16 de Maio de 1966, o sétimo disco de estúdio de Dylan. é neste disco que estão pedradas importantes da história do bardo de Duluth, como “Temporary like Achilles”, “Stuck inside a mobile with the Memphis Blues again”, “One of us must know” & “I want you” (a única de todo o disco que já tinha ganhado uma versão em português, “Tanto”, na tradução de Chico Amaral, para o disco de estréia dos  Skank).

se a gente não tiver tato na hora de traduzir para transcriar, Dylan vira um desses tais monstros machistas, mimados & sem cabeça que se vê por aí. de acordo com o próprio autor, ele escreveu as letras desta música no Kansas, enquanto estava em turnê, no feriado de Ação de Graças de 1965. porém, existem relatos de que o artista chegou em Nashville para as sessões de gravação sem nada escrito além da linha melódica do piano, & começou a improvisar cantando frases desconexas & sem sentido.

desde que surgiu, esta música é criticada por uma misoginia exacerbada, colocando os homens & as mulheres nos lugares comuns de heróis valentes protagonistas VS de sofredoras histéricas subjugadas. acredito ser uma letra sem polêmicas, mas que pode levar a uma interpretação errada, numa leitura rápida: muitos dizem que Dylan é altamente machista neste letra. como dizem meus amigos futebolistas: de elevado teor de testosterona!; o que consegui enxergar foi apenas uma homenagem ao sexo com sexto sentido. não compreende-se as mulheres porque uma palavra tem dois sentidos. como pode um Ser ter seis?

…retomando, se não formos tão longe, no ano de 2016, foi laureado a Dylan o prêmio Nobel de Literatura: Dylan pode não ser um hábil musicista, mas certamente é um escritor talentoso (se você domina duas cozinhas, isto lhe abre precedentes para dizer que faz nada além de um simplório&dedicado exercício de Humanismo!).

a música é estruturada em três estrofes com seis versos,  cada estrofe seguida por um refrão que se repete idêntico nas duas primeiras para, na última, soar suavemente diferente. & ainda, antes do último refrão, um estribilho de ponte. os lugares comuns da música são colocados como ironias, ferramentas para o autor brincar com as pessoas, se não para mudar o mundo, mudar pelo menos as pessoas. no placar que mantém no ar, o artista declara até a data do fechamento desta edição 871 exibições públicas desta música.

JU57 L1K3 4 W0M4N (Robert Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t I6U4L 4 UM4 MULH3R (r.l.almeida)

 1.
Nobody feels any pain
Tonight I stand inside the rain
Everybody knows
That baby´s got new clothes
But lately I see her ribbons and her bows
Have fallen from her curls
She takes just like a woman
And she makes love just like a woman
And she aches just like a woman
But she breaks like a little girl

Ninguém sente dor nenhuma
É hoje que me benzo nessa chuva
O mundo já percebeu
Como você cresceu
E já faz tempo que as presilhas&os elásticos
Abandonaram os teus cachos
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha

2.
Queen Mary, she´s my friend
Yes, I believe I´ll go see her again
Nobody has to guess
That baby can´t be blessed
Till she sees finally that she´s like all the rest
With her fog, and her amphetamine and her pearls
      She takes just like a woman
      And she makes love just like a woman
      And she aches just like a woman
      But she breaks like a little girl

Queen Mary, esta é uma amiga
Vamos sair de novo, dá até pra acreditar
Ninguém ia adivinhar
O padre não quis casar
E ela entendeu que faz parte de um grande resto
com sua imprecisão, suas anfentas&suas bolinhas
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha 

r.
It was raining from the first
And I was dying there of thirst
So I came in here
And your long-time curse hurts
But what´s worse
Is this pain in here
I can´t stay in here
Ain´t clear that…

De começo foi uma chuva, e eu lá
Morrendo de sede e não
Conseguia beber.
E tua cicatriz antiga ainda não sarou
Vai ver até que piorou
Tudo o que dói em mim
Não posso ficar aqui!
E ainda não sei se…

3.
…I just can´t fit
Yes I believe it´s time for us to quit
When we meet again
Introduced as friends
Please don´t let on that you knew me when
I was hungry and it was your world
      You fake just like a woman
      You make love just like a woman
      Then you ache just like a woman
      But you break like a little girl

Eu não sirvo, não!
Acho que chegou a hora da nossa separação
Se nos vermos de novo
Talvez um amigo em comum
Vê se não vai agir como se não me conhecesse
Era só fome e era do teu mundo
      Fingida! Igual a uma mulher
      Tú até faz amor igual a uma mulher
      E até se ressente igual a uma mulher
      Mas daí briga igual a uma menininha.

012

      mas Bob Dylan viveu no lado de cima dos trópicos. mesmo com poucas visitas oficiais ao Brazyl, pode-se afirmar que sua influência atingiu ao mundo inteiro. em terras brasilis tupiniquenses, podemos dizer que também retumbaram no grupo Secos&Molhados.

      os Secos&Molhados foram essencialmente um power trio com vários convidados especiais. a formação clássica contava com Gerson Conrad, Ney Matogrosso, Marcelo Frias & João Ricardo (o pensador da banda, filho mais velho do cronista português João Apolinário Teixeira Pinto). esta formação esteve na ativa entre 1970 & 1974, misturando não apenas Dylan: abraçavam declaradamente também o fado português, o glamorous rock & a guitarra elétrica. era um exercício de poesia na música, & nesta toada, puderam gravar algumas músicas em cima de poemas de Apolinário, Fernando Pessoa & Júlio Cortázar. ficaram reconhecidos por suas apresentações ousadas, com figurino & maquiagens extravagantes, além de um rockenrou considerado pesado (utilizando piano, flauta & violão 12 cordas). um flerte com a tropicália & a bossa nova, que sabe que é rock enquanto estilo de vida- & tudo isso em plena época de Dita Frouxa!

      o primeiro disco foi gravado entre Maio & Junho de 1973, em uma mesa de som com 4 canais – o ápice de tecnologia que o país tinha na época, mesmo para um dos grandes estúdios, no caso, a Continental. o disco reflete a condição latino-americana sem dinheiro no banco de cão sem dono caído da mudança em pleno tiroteio no morro da Urca, com músicas como “Rosa de Hiroshima”, “O patrão nosso de cada dia” & “Sangue latino”. o lançamento aconteceu em Agosto deste mesmo ano, & foi um sucesso porque o grupo já realizava apresentações ocasionais. talvez temendo represálias, Marcelo Frias, que operava as baquetas do grupo, pediu para sair depois de eternizado na capa e no som do disco. segundo o jornalista Jorge Tadeu, “o grupo conseguiu com o seu álbum inicial restaurar a liberdade estética & comportamental no Brasil depois do fim do Tropicalismo, num acinte contra a carranca dos verdugos que ocuparam Brasília & ditaram vetos moralizantes, torsurtando gente, insuflando a barbárie”.

para finalizar este artigo, trouxe da mesa de cirurgias a música “Fala”, que encerra o primeiro disco dos Secos. são 4 estrofes, cada uma com três versos curtos. cada uma das estrofes tem o mesmo verso ao final: “Então eu escuto” \\|// “And so i´ll just listen”. a grande polêmica nesta letra ficou por conta de “Se eu não entender, não vou responder”…acho que não existe nenhuma outra opção legítima que rime em inglês “entender” com “responder” além da que apresento (o que me faz prestar reverência aos irmãos Brittos e seu “Sem resposta”). cês lembra quando os Brittos encontraram com o Dylan Thomas, né? lembro à rapeize que escrevo o ingrêis sem contração por puro desprezo à esta atitude bárbara que destrói todo&qualquer código idiomático – no português mesmo, são poucos casos!

F4L4 (João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto &t Heloisa Orosco Borges da Fonseca) &t T3LL M3 (r.l.almeida)

1.
Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

I do not know how to say
What I do not want to say
And so I will just listen

2.
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

If you start to talk
The things that you may want
And so I will just listen

r.
Fala!

Tell me!

3.
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

If I not comply
I will give you no reply
And so I will just listen

4.
Eu só vou falar
Na hora que falar
Então eu escuto

The time I start to tell
It is the right time as well
And so I will just listen

011

 

falando sério agora: o nome desta seção deveria ser “Assaltaram a gramática!” =D