Duas canções, duas traduções

salve salve, meu bom povo & minha boa pova desta querida & neurastênica, mas não plana!, bloguesfera nossa de cada dia! está no ar mais um “Duas canções, duas traduções”.

é tão covarde tirar uma música do contexto em que ela está inserida quanto tirar uma frase do contexto em que foi produzido: os sentidos estão eternamente em rotação&resignificação, e só com todo o material (o tal do ”contexto”) em mãos é possível chegar a um significado mais “correto”, ou pelo menos, mais perto da proposta de quem enunciou. podem ficar tranquilos que, quando apresento alguma música aqui, passei os olhos no disco, ouvi, analisei, interpretei & brinquei pingue-pongue com a budega inteira por um bom tempo, antes de passar à transcriação propriamente dita.

o nome desta seção deveria ser “montado no ombro dos gigantes”!

a atração de hoje é um Bob Dylan, não tão polêmico quanto o anterior, & uma tentativa de levar ao idioma de Shaguespeare as letras de Renato Russo&Sua Real Companhia Ilimitada.

a primeira vez que o mundo ouviu “The ballad of a thin man” foi em 30 Agosto de 1965, quando lançaram o disco “Highway 61 revisited” – que no meu português de caipira ficou “Bê Érre 101 revisitada”. estão neste álbum pedradas importantíssimas da história de Dylan, como “Like a rolling stone” e “Desolation row”. até o fechamento desta edição, o bardo de Duluth, Minnesota, declara 1237 exibições públicas desta música, desde sua primeira exibição pública, em 28 de Agosto de 1965, no estádio de Tenis de Forest Hills, Nova Uórque.

acho que esta foi a primeira música de Dylan que traduzi. do catálogo dele foi a que mais demorou a atingir um estado de maturação – a tal da transcriação. até recentemente, ainda não sabia bem como cantar os versos de refrão, depois de cada uma das 7 estrofes, mas agora acho que já consegui resolver este problema. o vídeo a seguir ilustra a música bem perto de ficar pronta:

ainda sobre o disco: ele é um dos álbuns de Dylan em que o letrista coloca um textão de “notas de rodapé” – quando a gente abre o disco de vinil, & tem um monte de surpresas – quase uma historinha – além da playlist & da ficha técnica. às vezes fotas. quem gravou, quem arranjou, quem produziu quando em qual estúdio. o original, vou deixar neste uébi link direcionado, porque não é o foco do estudo de hoje (clicar em “show all \\|// expandir” da caixinha “liner notes”), mas a minha versão, quem estiver acessando aqui, pode ler e conferir se o que o prêmio Nobel de Literatura do ano de 2016 está fazendo é literatura ou é música. incrusive, quem tiver a resposta, que atire a primeira pedra!
bob-dylan-highway-61-2

No trem devagar o tempo não interfere & na cruzada Arábica espera Pilha Branca, o homem do jornal & ao seu lado a centena de Inevitáveis feitos de sólidas pedra & rocha — o Juiz Creme & o Palhaço — a casinha de bonecas em que Selvagem Rosè & Fixável moram humildes em sua selvagem e maliciosa natureza . . . . Autono, que tem dois zeros acima das fuças e argumenta acerca do sol estar escuro ou ser Bach tão famoso quanto seu distúrbio & que é ela mesmo — e não Orfeu — a poeta lógica “Eu sou a poeta lógica” ela gritava “Primavera? A Primavera é só o começo!” ela tenta deixar o Juiz Creme com inveja contando a ele sobre o povo que mora debaixo-da-terra & enquanto o universo explode, ela aponta para o trem devagar rezando para que a chuva e o tempo interfiram — ela não está muito gorda mas ao contrário disso progressivamente infeliz. . . .a centena de Inevitáveis esconde suas previsões & vão para os bares & bebem & ficam bebassos de sua maneira muito especial e consciente & quando tom dooley, o tipo de gente que você se lembra de já ter visto antes, chega de passeio com Pilha Branca, a centena de Inevitáveis dizem todos “quem é esse cara branco por demais?” & o garçom, menino bom & um outro que sempre mantém os brios à flor da pele, dizem, “eu não o conheço, mas é certeza que já ví o outro camarada n’algum outro lugar” & quando Paulo Sargento, homem de trajes simples de lá da Rua 4, aparece às três da manhã & prende todo mundo por estarmos sendo incríveis, ninguém ficou brabo de verdade — só o mínimo de anafalbetismo que a maioria das pessoas entende & Roma, um da centena de Inevitáveis, segreda “Eu te avisei” a Madama João . . . . Selvagem Rosè & Fixável assopram beijocas corajosas para Hexagrama Jade da Rua Carnaby & para todos as jovens misteriosas & o Juiz Creme escreve um livro sobre o puro significado de uma pêra — ano passado, foi um sobre cachorros ilustres da guerra civil & agora ele tem dentes falsos & nenhum filho. . . . quando o Creme conheceu Selvagem Rosè & Fixável, ele lhes foi apresentado por ninguém menos que Futilidade — Futilidade é o Grande Inimigo & sempre usa um protetor nos quadris — ele é muito dos protetores de quadris . . . . Futilidade disse enquanto apresentava o pessoal “vá salvar o mundo” & “envolvimento! este é o assunto!” & coisas assim & Selvagem Rosè piscou para Fixável & o Creme foi embora com o braço numa tipóia cantando “summertime & the linvin is easy” . . . . o palhaço aparece — veste com uma mordaça a boca de Autono dizendo “existem dois tipos de gente: as simples & as normais” isto normalmente extraía grandes risadas da caixa de areia & Pilha Branca espirra — desmaia & rasga a mordaça de Autono & diz “Que conversa é essa que você é Autono e que sem você não haveria a primavera! sua tola! sem a primavera, você não existiria! o que você acha disto?” e daí Selvagem Rosè & Fixável vêm também & o chutam nos miolos & o pintam de rosa por ser um filósofo de mentirinha — daí surge o Palhaço que grita “Seu filósofo de mentirinha” & pula sobre a sua cabeça — Paulo Sargento surge novamente vestindo roupa de árbitro & algum moleque do colegial que já leu tudo do Nietzsche surge & diz “Nietzsche nunca vestiu roupas de árbitro” & Paulo diz “Quer comprar umas roupas, meninão?” & então Roma & João saem do bar & eles estão indo até o Harlem . . . . hoje cantamos sobre a GANGUE DO ARRASTÃO — a GANGUE DO ARRASTÃO compra, é dona & opera a Fábrica da Insanidade — para quem não sabe onde fica a Fábrica da Insanidade, deve por causa disso dar dois passos para a direita, pintar os dentes & ir dormir . . . . as músicas neste disco em específico não são exatamente músicas mas ao invés disso exercícios de respiração para controle tonal. . . . o assunto é o que importa — e por mais insignificante que seja — tem alguma coisa a ver com os belíssimos estranhos. . . . os belíssimos estranhos, a jaqueta verde de Vivaldi & o santíssimo trem devagar.

você está certo john cohen — quazimodo acertou —  mozart acertou . . . . não consigo mais dizer a palavra olho. . . . quando falo esta palavra olho, é como se falasse do olho de alguém que vagamente me recordo. . . . não existe olho algum — existe apenas várias bocas — vida longa às bocas — o seu telhado — se ainda não percebeu — foi demolido. . . . o olho é um plasma & você está certo sobre esta também — você tem sorte — você não tem que pensar sobre coisas tais como olhos & telhados & quazimodo.

 Bob Dylan – guitarra, gaita, piano e viatura da polícia
Michael Bloomfield – guitarra
Alan Kooper – órgão e piano
Paul Griffin – piano e órgão
Bobby Gregg – bateria
Harvey Goldstein – baixo
Charles McCoy – guitarra
Frank Owens – piano
Russ Savakus – baixo

OoO–OoO

TH3 84LL4D 0F 4 7H1N M4N (Robert Allen Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t A 84LL4D4 DUM M46R0 H0M3M (r.l.almeida)
1.
You walk into the room with your pencil in your hand
You see somebody naked and you say, “Who is that man?”
You try so hard but you don´t understand
            Just what you will say when you get home

Você entrou no quarto, segura o lápis nas mãos
Você viu alguém pelado e diz, “Quem será o irmão?”
Você tentou tudo, mas não entendeu nada não
            O que se vai dizer lá pra patroa?

r.
Because something is happening here
But you don´t know what it is
Do you, mister Jones?

Porque alguma coisa acontece aqui
E você não sabe bem o que é
Ou sabe, senhor Jones?

2.
You raise up your head and you ask, “Is this where it is?”
And somebody points to you and says, “It´s his!”
And you say, “What is mine?” and somebody else says, “Where what is?”
            And you say “Oh my God, am I here all alone?”

Você levantou a cabeça e pergunta, “O lugar é este aqui?”
E alguém mais aponta você e diz, “É dele ali!”
E você, “Bem, qual é o meu?” e ainda um outro alguém “Ué, então, e
aí?”
            E você, “Ó meu Deus, será que sou eu só?”

3.
You hand in your ticked and you go watch the geek
Who immediately walks up to you when he hears you speak
A
nd says, “How does it feel to be such a freak?”
            And you say, “Impossible!”, as he hands you a bone.

Você entregou a entrada e vai ver a aberração
Que imediatamente anda até você, ouviu tua respiração
E diz “Como é pra você ser assim tão esquisitão?”
            Impossível: ele te estende um ossão!

b.
You have many contacts among the lumberjacks
To get you facts when somebody attacks your imagination
But nobody has any respect, and anyway they already expect you
            To give a check
            To tax-deductible
            Charity organizations

Você tem muitos fornecedores entre os tais dos lenhadores
Pra te dizer verdades quando agridem a tua imaginação
Mas ninguém respeita nada, não, todos eles só querem saber se
            Você já assinou o cheque
            Doou toda a renda
            Pra organização

4.
You have been with the professors and they all liked you looks
With great lawyers you have discused lepers and crooks
You have been through all of F Scott Fitzgerald´s books
            You are very well read, it is well known

Você esteve com os estudados e todos curtiram teu perfil
Com grandes advogados sobre a lepra e o escorbuto você discutiu
Você já leu tudo do F.  Scot  t   Fitz    geral    dô
            Você é bem lido, sabe-se bem disso

5.
Well, the sword swallower he comes up to you and ten he kneels
He crosses himself and then he clicks his high heels
And without further notice he asks you, “How it feels?”
            And he says, “Here is your throat back, thanks for the loan!”

Lembra do engole-espadas? Ele vem até você e se ajoelha
Se faz o sinal da cruz e bem alto tamanqueia
E sem ninguém notar te pergunta, “Como vai tua orelha?
Aqui tua garganta, agradeço o uso!”

6.
Now you see this one eyed-midget shouting the word “Now!”
And you say, “For what reason?”, and he says, “How?”
And you say, “What does this mean?”, and he screams back, “You
re a cow!
            Give me some milk or else go home

Você viu o anão caolho grita a palavra “Tão!”
E você, “Pra que isso?”, ele diz “Vão!”
E você, “Qual o sentido disso?”, ele grita “Volta! Você é uma vaca!
            Dê-me um leite ou vá pra casa!”

7.
Well, you walk into the room like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket, and your nose on the ground
There oughta be a law against you coming around
            You should be made to wear earphones

Você entrou no quarto igual a um camelo se jogou no chão
Guardou os olhos no bolso, deixou o nariz no porão
Deve existir alguma lei que não te deixa aparecer, não
            A gente tinha que ter os rádios bem no meio das fuças!

01

frontispício original da loucura!


      cito mais uma vez os Nobel para dar continuidade a este artigo, & aproveito a oportunidade para chorar: o Brasil ainda não tem um Nobel de Literatura – nem da Paz, nem da Química, nem da Física, nem da Medicina. e nem da Economia, sr. Supermi-mi-ministro… na seara da Literatura temos uma infinidade de nomes que certamente NÃO ganhariam o prêmio, & um seleto grupo que poderia comover a academia sueca: Lia Luft, Lígia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony, Machadão, Lima Barreto, Ferreira Gullar. se fizermos o paralelo do prêmio com a música, adiciona também Noel Rosa, Cazuza & Renato Manfredini Russo Júnior neste distinto panteão de batalha.

Legião Urbana é um capítulo à parte da música brasileira – uma aventura que vai de 1978 a 1996, com a morte do letrista. existe muita menção ao roquenrou de Brasília, & dos grupos que se encontraram por lá, como Os Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e Capital Inicial. era tudo uma grande tribo punk, ou até mesmo uma família punk, que frequentava os shows e ensaios uns dos outros.

a faixa que arrisco uma versão em inglês fecha o terceiro disco da Legião Urbana, “Que país é este (1978/1987)”, lançado em novembro de 1987. esta é uma das poucas faixas que é composta pelo grupo em sua totalidade. neste disco estão pedradas como “Faroeste caboclo”, “Química” & “Tédio (com um T bem grande pra você)”. foi considerado o retorno da banda às origens do bate-cabelo, com letras de denúncia & de consciência, por meio de um olhar afiadamente político. & por falar no idioma inglês, lembro bem do Acústivo MTV, em que o antigo professor de inglês ensinava: “Querem cantar em inglês? Então canta assim!”, & emendava um “Head on”, dos Jesus And Mary Chain.

M415 D0 M35M0 (Renato Rocha, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos &t Renato Russo) &t M0R3 FR0M TH3 S4M3 (r.l.almeida)

1.
Ei, menino branco, o que é que você faz aqui
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem e você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?

Hey you little white boy, what are you doing right here
You cross valleys when you looking for some fun
A new supply has not arrived, i need a little something more
Would you just leave me alone?

2.
Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
Enquanto tem chacina de adolescentes?
Como é que você se sente?

In all those twenty years not a single has been good to me
and yet you want me to let it be like you, just like a rocking rolling stone
And in here we do not roll
Who will take care of those harmed people?
Or of the killing of young children?
Tell me how does you feel it?

r.
Em vez de luz tem tiroteio
No fim do túnel
O ooo o mas é sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

Instead of light, we saw gunfighting
Ending the tunnel
O owo o it is always more from the same
It was not this you were willing to hear?

3.
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como eu penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer
Um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando
Sucessos populares (todos os índios, índios, índios)
Todos os índios foram mortos

So kind you have explained with all that clarivoiancè
This is exactally how i fell and how i think and what am i
I just have never realised
You have the courage to ask
For a portrait of the nation
But they have burned out the reel
While we are speaking, at the infirmary
All the bruised people, they sing together
The songs they can remember
All of the indians, they were shooted, slaughtered

o nome desta seção definitivamente deveria ser “Assaltaram a gramática!” =b

 

Duas canções, duas traduções

salve salve, minha querida & azul bloguesfera! vem aqui mais um “Duas canções, duas traduções”.

no episódio de hoje, vamos atravessar a ponte para decodificar a mensagem de duas grandes músicas, uma de Bob Dylan & outra dos Secos&Molhados. na segunda parte, realizaremos o caminho inverso, usando de uma canção 100% tupiniquim que faz todas as pessoas cantarem juntas, & levá-la ao ingrêis do tio Donaldo, o Agente Laranja, para que ele entenda como se chacoalha o esqueleto no lado de baixo da linha do Equador, onde não existe o pecado.

o nome desta seção deveria ser “montado nos ombros dos gigantes”!

Bob Dylan, o nome de escritor de Robert Allen Zimmerman, nascido na cidade de Duluth, Minnesota, em 1941, já andou o mundo inteiro para apresentar o que ele chama de “A turnê que nunca acaba”. em terras brasilis, já visitou Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo & Porto Alegre, ao longo de cinco oportunidades para apresentar seu trabalho enquanto musicista: 1990, na segunda edição do festival Hollywood Rock; turnês em 1991, em 2008 & em 2012; & enquanto banda de abertura para os The Rolling Stones, em 1998. o olhar do bardo é ativo também nas artes plásticas, como podemos ver através de uma declaração sobre sua série de pinturas em tinta acrílica (quase 50 telas!), intitulada “The Brazil Series”:

“Existe uma parte na América do Sul onde não se fala espanhol, fala-se português. É um país adorável, com 184 milhões de habitantes vivendo lá. É o gigante da América Latina. Esse país ocupa quase metade do continente. Acredito que seja maior do que os Estados Unidos. Seu lema é “ordem e progresso”. É onde você encontra São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos lugares com as melhores festas que conheço. Estou falando do Brasil.”

para abrir os trabalhos aqui no blogue, foi escolhida uma música para aproveitarmos o atual momento de discussão da sociedade falocrata&fratricida que envenena nossas terras. “Just like a woman” apareceu no primeiro disco duplo de rocknroll da história, o “Blonde on blonde” de 16 de Maio de 1966, o sétimo disco de estúdio de Dylan. é neste disco que estão pedradas importantes da história do bardo de Duluth, como “Temporary like Achilles”, “Stuck inside a mobile with the Memphis Blues again”, “One of us must know” & “I want you” (a única de todo o disco que já tinha ganhado uma versão em português, “Tanto”, na tradução de Chico Amaral, para o disco de estréia dos  Skank).

se a gente não tiver tato na hora de traduzir para transcriar, Dylan vira um desses tais monstros machistas, mimados & sem cabeça que se vê por aí. de acordo com o próprio autor, ele escreveu as letras desta música no Kansas, enquanto estava em turnê, no feriado de Ação de Graças de 1965. porém, existem relatos de que o artista chegou em Nashville para as sessões de gravação sem nada escrito além da linha melódica do piano, & começou a improvisar cantando frases desconexas & sem sentido.

desde que surgiu, esta música é criticada por uma misoginia exacerbada, colocando os homens & as mulheres nos lugares comuns de heróis valentes protagonistas VS de sofredoras histéricas subjugadas. acredito ser uma letra sem polêmicas, mas que pode levar a uma interpretação errada, numa leitura rápida: muitos dizem que Dylan é altamente machista neste letra. como dizem meus amigos futebolistas: de elevado teor de testosterona!; o que consegui enxergar foi apenas uma homenagem ao sexo com sexto sentido. não compreende-se as mulheres porque uma palavra tem dois sentidos. como pode um Ser ter seis?

…retomando, se não formos tão longe, no ano de 2016, foi laureado a Dylan o prêmio Nobel de Literatura: Dylan pode não ser um hábil musicista, mas certamente é um escritor talentoso (se você domina duas cozinhas, isto lhe abre precedentes para dizer que faz nada além de um simplório&dedicado exercício de Humanismo!).

a música é estruturada em três estrofes com seis versos,  cada estrofe seguida por um refrão que se repete idêntico nas duas primeiras para, na última, soar suavemente diferente. & ainda, antes do último refrão, um estribilho de ponte. os lugares comuns da música são colocados como ironias, ferramentas para o autor brincar com as pessoas, se não para mudar o mundo, mudar pelo menos as pessoas. no placar que mantém no ar, o artista declara até a data do fechamento desta edição 871 exibições públicas desta música.

JU57 L1K3 4 W0M4N (Robert Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t I6U4L 4 UM4 MULH3R (r.l.almeida)

 1.
Nobody feels any pain
Tonight I stand inside the rain
Everybody knows
That baby´s got new clothes
But lately I see her ribbons and her bows
Have fallen from her curls
She takes just like a woman
And she makes love just like a woman
And she aches just like a woman
But she breaks like a little girl

Ninguém sente dor nenhuma
É hoje que me benzo nessa chuva
O mundo já percebeu
Como você cresceu
E já faz tempo que as presilhas&os elásticos
Abandonaram os teus cachos
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha

2.
Queen Mary, she´s my friend
Yes, I believe I´ll go see her again
Nobody has to guess
That baby can´t be blessed
Till she sees finally that she´s like all the rest
With her fog, and her amphetamine and her pearls
      She takes just like a woman
      And she makes love just like a woman
      And she aches just like a woman
      But she breaks like a little girl

Queen Mary, esta é uma amiga
Vamos sair de novo, dá até pra acreditar
Ninguém ia adivinhar
O padre não quis casar
E ela entendeu que faz parte de um grande resto
com sua imprecisão, suas anfentas&suas bolinhas
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha 

r.
It was raining from the first
And I was dying there of thirst
So I came in here
And your long-time curse hurts
But what´s worse
Is this pain in here
I can´t stay in here
Ain´t clear that…

De começo foi uma chuva, e eu lá
Morrendo de sede e não
Conseguia beber.
E tua cicatriz antiga ainda não sarou
Vai ver até que piorou
Tudo o que dói em mim
Não posso ficar aqui!
E ainda não sei se…

3.
…I just can´t fit
Yes I believe it´s time for us to quit
When we meet again
Introduced as friends
Please don´t let on that you knew me when
I was hungry and it was your world
      You fake just like a woman
      You make love just like a woman
      Then you ache just like a woman
      But you break like a little girl

Eu não sirvo, não!
Acho que chegou a hora da nossa separação
Se nos vermos de novo
Talvez um amigo em comum
Vê se não vai agir como se não me conhecesse
Era só fome e era do teu mundo
      Fingida! Igual a uma mulher
      Tú até faz amor igual a uma mulher
      E até se ressente igual a uma mulher
      Mas daí briga igual a uma menininha.

012

      mas Bob Dylan viveu no lado de cima dos trópicos. mesmo com poucas visitas oficiais ao Brazyl, pode-se afirmar que sua influência atingiu ao mundo inteiro. em terras brasilis tupiniquenses, podemos dizer que também retumbaram no grupo Secos&Molhados.

      os Secos&Molhados foram essencialmente um power trio com vários convidados especiais. a formação clássica contava com Gerson Conrad, Ney Matogrosso, Marcelo Frias & João Ricardo (o pensador da banda, filho mais velho do cronista português João Apolinário Teixeira Pinto). esta formação esteve na ativa entre 1970 & 1974, misturando não apenas Dylan: abraçavam declaradamente também o fado português, o glamorous rock & a guitarra elétrica. era um exercício de poesia na música, & nesta toada, puderam gravar algumas músicas em cima de poemas de Apolinário, Fernando Pessoa & Júlio Cortázar. ficaram reconhecidos por suas apresentações ousadas, com figurino & maquiagens extravagantes, além de um rockenrou considerado pesado (utilizando piano, flauta & violão 12 cordas). um flerte com a tropicália & a bossa nova, que sabe que é rock enquanto estilo de vida- & tudo isso em plena época de Dita Frouxa!

      o primeiro disco foi gravado entre Maio & Junho de 1973, em uma mesa de som com 4 canais – o ápice de tecnologia que o país tinha na época, mesmo para um dos grandes estúdios, no caso, a Continental. o disco reflete a condição latino-americana sem dinheiro no banco de cão sem dono caído da mudança em pleno tiroteio no morro da Urca, com músicas como “Rosa de Hiroshima”, “O patrão nosso de cada dia” & “Sangue latino”. o lançamento aconteceu em Agosto deste mesmo ano, & foi um sucesso porque o grupo já realizava apresentações ocasionais. talvez temendo represálias, Marcelo Frias, que operava as baquetas do grupo, pediu para sair depois de eternizado na capa e no som do disco. segundo o jornalista Jorge Tadeu, “o grupo conseguiu com o seu álbum inicial restaurar a liberdade estética & comportamental no Brasil depois do fim do Tropicalismo, num acinte contra a carranca dos verdugos que ocuparam Brasília & ditaram vetos moralizantes, torsurtando gente, insuflando a barbárie”.

para finalizar este artigo, trouxe da mesa de cirurgias a música “Fala”, que encerra o primeiro disco dos Secos. são 4 estrofes, cada uma com três versos curtos. cada uma das estrofes tem o mesmo verso ao final: “Então eu escuto” \\|// “And so i´ll just listen”. a grande polêmica nesta letra ficou por conta de “Se eu não entender, não vou responder”…acho que não existe nenhuma outra opção legítima que rime em inglês “entender” com “responder” além da que apresento (o que me faz prestar reverência aos irmãos Brittos e seu “Sem resposta”). cês lembra quando os Brittos encontraram com o Dylan Thomas, né? lembro à rapeize que escrevo o ingrêis sem contração por puro desprezo à esta atitude bárbara que destrói todo&qualquer código idiomático – no português mesmo, são poucos casos!

F4L4 (João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto &t Heloisa Orosco Borges da Fonseca) &t T3LL M3 (r.l.almeida)

1.
Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

I do not know how to say
What I do not want to say
And so I will just listen

2.
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

If you start to talk
The things that you may want
And so I will just listen

r.
Fala!

Tell me!

3.
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

If I not comply
I will give you no reply
And so I will just listen

4.
Eu só vou falar
Na hora que falar
Então eu escuto

The time I start to tell
It is the right time as well
And so I will just listen

011

 

falando sério agora: o nome desta seção deveria ser “Assaltaram a gramática!” =D

disco XI {(1969)} Yellow submarine  \\|// Amarelo submarina

disco lançado em 17 de Janeiro de 1969 no Reino Unido, pela Apple.

salve salve minha pova e meu povo dessa imensa e azul bloguesfera. venho aqui como de costume em dias de #beatleniversários para atravessar a ponte do inglês para o portugês, naquela velha e boa tentativa de quebrar o código e entregar a mensagem para quem não lê nem compreende o idioma do bom bardo de sapatos pontudos.

hoje, quem vai para a bancada de cirurgias é a experiência em filme dos The Beatles conhecida como Yellow submarine, soprando as velinhas das bodas de ouro dos 50 anos. a música já fazia parte do compêndio dos distintos cavaleiros de Liverpool desde 1966, quando apareceu no disco “Revolver”e também em formato de single, dividindo a bolachinha com “Eleanor Rigby”. o filme estreia em Julho de 1968, e a trilha sonora sai em Janeiro de 1969. no filme, os personagens de Paul e John e Ringo e George são dublados por atores, e não pelos musicistas. Amarelo submarina veio dois meses depois do antológico “Album vazio”. vítima de tamanho eclipse, normalmente nos referimos ao Amarelo submarinacomo simples obrigação contratual do grupo para com sua gravadora, um disco menor e até mesmo infantil.

polêmicas desta tradução:
continuo com o uso do artigo de gênero feminino à estrela mãe, Sol (das seis faixas cantadas, o substantivo aparece em duas). inclusive, o gênero também é feminino para a Submarina, que adjetiva o Amarelo. na minha versão, o Amarelo é Submarina – e não o corriqueiro “Submarino amarelo” que passamos 50 anos ouvindo.
a primeira faixa de Georgie Harrisongs no disco é “Only a northern song”,  e decidi correr o risco de ser levemente preconceituoso e, ao invés de traduzí-la como “Só mais uma canção do norte”, chamei de “Só mais uma canção (sertanejo universitário)”esperando que o contexto explicasse a estranheza do título.
a segunda contribuição de Harrisongs ao disco é a exotérica “It´s all too much”, e foi com ela que ficou claro para mim que George Harrison é um poeta além da forma. as menções a Diadorim e ao celebrado “Grande Sertão: Veredas”foi uma tentativa de chegar perto da mensagem do beatle, naquelas loucuras que fazemos em nome da rima, e infelizmente não consta na letra original do musicista.

e agora,
como costumamos dizer em Ararararararararararararcrazy:
agora, com vocês…

 

OOOOOOOOOS BRIIIIIITTOOS!!!

 

DISCO XI Amarelo submarina (YELLOW SUBMARINE, lançado pela Apple em 13 de Janeiro de 1969 nos EUA e em 17 de Janeiro de 1969 no Reino Unido)

11 A-01 4M4R3L0 5U8M4R1N4 (transcriação para “Yellow submarine”, de John Lennon & Paul McCartney)
No lugar em que nasci
Tinha um velho lobo do mar
Que contava da sua vida
Na Terra de Lá das submarinas

Navegava atrás da Sol
Até o mais verde&fundo das marés
A nossa vida era entre as ondas
Na Amarelo Submarina

A nossa vida é Amarelo Submarina

Os amigões já estão à bordo
Tem muito mais deles mundo afora
Olha a banda já vai tocar

Uma boa vida de bonança
Cada um do todo tinha de tudo:
O Azul do Céu & os Verdes Mares
Na Amarelo Submarina

 

11 A-02 SÓ M415 UM4 C4NÇÃ0 (53RT4N3J0 UNIV3R5ITÁR10) (transcriação para “Only a northern song”, de George Harrison)
Quem ouvir a esta canção
Vai pensar que as notas estão indo mal
Mas não estão
Ela toca assim

Quem ouvir tarde da noite
Vai pensar que a banda não ensaiou
Mas ensaiam
E ainda tocam assim

Não faz nenhum sentido as notas que eu toco
As palavras ditas & o tempo que já é
Esta é só mais uma canção
      Não faz nenhum problema usar roupa nenhuma
      Qual é o câmbio & se um olho é castanho
      Esta é só mais uma canção

Quem pensar que a harmonia
É pesada & meio fora de tom
Vai estar certo
Não tem mais ninguém lá

11 A-03 T0D05 JUN705 460R4 (transcriação para “All together now”, de Lennon&McCartney)
Um dois três quatro cinco
Posso pegar mais um pouquinho?
Seis sete oito nove dez eu
Te amo

A B C e D
Vamos no meu amigo ver tevê?
F G H I J K eu
Te amo

Virar o barco
      Cortar o rato
Lavar o prato
Olha pra mim
Todo mundo agora

Preto branco vermelho & verde
Vamos na festa do cabide?
É rosa bolinhas amarelinhas eu
Te amo

11 A-04 E1, 8ULD06U3 (transcriação para “Hey, bulldog!”, de Lennon&McCartney)
Sheepdogue
Parado no quintal
Peixe-boi
É um outro animal
É um tipo de felicidade que se cheira de longe
Por que se acha especial, só porque é bonito?

Pivete
Pondo a mão no fogo
Valete
Escorrendo entre as mãos
É um tipo de juventude que se cheira de longe
Você não sabe o que é dar asas aos seus medos

      Pode me dizer
      Pode me dizer
Pode me dizer
Se pirar pode vir me dizer

Velhote
No parque de pé descalço
Oca
Ecoa o medo de andar no mato
É um tipo de solidão que se enxerga em você
Você acha que me conhece mas não conhece nem a você

11 A-05 É MU170 D3M415(transcriação para “It´s all too much”, de George Harrison)

nos olhamos olhos nos olhos, quero ver o que você faz
e por mais que fique te olhando ainda quero te ver mais

diadorando vereda abaixo a cada vida estamos juntos
deixa de existir onde está ou gostaria de

navegue-me em uma Sol estatelada onde somos nós mesmos
prove-me que nós somos tudo e depois me leve pra jantar

11 A-06 S0 0 4M0R JÁ 84574 (transcriação para “All you need is love”, de Lennon&McCartney)
Ainda não inventaram               o que não pode ser desfeito
Não é só você que canta            o que ninguém mais canta
Não há nada a ser dito agora       se você aprender o jogo
É fácil!

Ainda não inventaram               algo que seja não seja possível
Quem aqui vai ser salvo            não depende do teu intento
Não há nada a ser feito agora      você vai entender o seu tempo
É assim!

Só o amor já basta
Só o amor já sobra
Só precisa amar
Amar é o que se precisa

Ainda não inventaram               o que nunca vai ser conhecido
Não há como já ter visto           o que ninguém mostrou
Tudo o que está acontecendo agora  já era pra estar acontecendo antes
É isso!