disco-niversário, uma tradução: “Parabolicamará” \\|// “Satellite companion” (Janeiro de 1992)

          este artigo celebra o aniversário de Gilberto Gil, nome de escritor de Gilberto Passos Gil Moreira, nascido no vigésimo sexto dia de Junho do ano de 1946, na capital da Bahia. na música tupiniquim, Gil é a outra metade do inconsciente coletivo brasileño da virada das décadas de 1960 para 1970 – a outra metade logicamente significando Caê, seu meio-irmão de alma & percurso.
          filho primogênito do médico José Gil Moreira & da professora primária Claudina Passos Gil Moreira, neto de dona Lídia Moreira, a família vivia num ir & vir da capital para o interior, do bairro do Tororó para cidades como Ituaçú, resultado da procura do provedor por emprego.
          aos 9 anos de idade ganha o primeiro instrumento musical, um acordeão – a fabulosa sanfona de outros recantos. por muito tempo, sua principal influência popular foi Luiz Gonzaga, por achar assemelhado o Brasil que Luiz Gonzaga cantava protagonizando suas letras. aos 12 anos organiza “Os desafinados”, primeira reunião musical de amigos. por volta dos 13 anos já é apadrinhado no grupo de Dorival Caymmi & Jorge Amado, seguindo a correnteza lógica da música que vinha com as areias das Dunas & o marulhar do Oceano. em 1958 João Gilberto lança o paradigmático “Chega de saudade”: está marcada assim a santíssima trindade sob a qual Gil vai erigir sua obra.
          foi também em 1958 que Jorge Amado publicou o livro que o alçou ao mundo, “Gabriela cravo e canela”. em 1960, Gil adentra a Universidade Federal da Bahia, de onde sai com o diploma de bacharel em administração pública, em 1964. o diploma o leva para São Paulo, a capital-cinza, para trabalhar como estagiário de publicidade na Gessy-Lever, mas seus contatinhos de faculdade (tais como José Capinan, Rogério Duprat, o próprio Caê & o grupo Os Mutantes) insistem em levá-lo ao mundo musical.
          chega o Maio de 1967. Gilberto Gil publica “Louvação”, primeiro disco de longa-duração – saíram como divulgação em single as faixas “Procissão” & “Ensaio geral”. produção da Philips/RCA de João Neto, com arranjos de Dori Caymmi, Carlos Monteiro Souza, Bruno Ferreira, nas letras parceirando com Caê, Capinan, Torquato Neto, João Augusto, o disco traz 14 faixas em que o autor visita suas raízes nordestinas, o carnaval, o frevo&o baião, as baladas dos anos cinqoenta, a bossa nova, o samba. talvez o passo mais ousado de todo o disco seja a faixa três deste disco, “Lunik 9” – parceria com Torquato Neto. em “Água de meninos”, é parceria com Caê, que a cantava como “Beira-mar”, música que narra um incêndio & pedra fundamental do que há de comum entre os dois – assim como Gilberto Gil, Caê sobreviveu ao horror da raiva hidrofóbica dos verdugos! vale a pena lembrar: este era só o disco de estréia, em uma carreira que contabiliza 27 discos de estúdio, até o momento de publicação deste artigo. em Agosto deste mesmo ano de 67, acontece o terceiro festival de Música da Rede Record, de onde Gil sai laureado com o segundo lugar & a faixa final do seu próximo disco, “Domingo no parque”.
          o disco seguinte, “Frevo rasgado” (Maio de 1968), é considerado a pedra fundamental da Tropicália, porque une de vez fotógrafos, musicistas, coreógrafos, pintores & escritores querendo digerir “Sargeant Peppers” para aqueles que vivem ao Sul da linha do Equador: “Luzia Luluza” é a faixa principal deste Manifesto; e onde “Domingo no parque” funciona como introdução ao léxico do grupo; nos dias de hoje, este disco finaliza com “Questão de ordem”, que só foi adicionada à playlist para o relançamento comemorativo das bodas de ouro do disco, numa total compactuação com as guitarras elétricas ou quaisquer outros instrumentos musicais.
          em 1967, Gil comete casamento com a da filha de Dorival e de dona Stella Maris, Dinahir Caymmi – Nana, a primogênita, irmã mais velha de Dori e de Danilo. é decretada sua prisão em Dezembro de 1968, quando Gil tinha um programa na televisão & encontrava-se em excursão pelo país com seus amigos tropica-valentes. uma presença era constante no palco: a bandeira nacional com a intervenção de Hélio Oiticica, “Seja marginal, seja herói”, transformam Caê e Gil em prêmios principais do Ato Institucional número cinco: os dois são presos alguns dias depois do Natal de 1968, e amarguram até a Quarta-feira de Cinzas em um quartel, no Rio de Janeiro, quando são liberados para prisão domiciliar. suportam esta situação até Julho de 1969, quando realizam um show de despedida do Brëzyl no Teatro Castro Alves, optando por um exílio nas Zooropas, primeiro em Lisboa, depois em Paris,  finalmente fixando residência em Londres.
          para o país, Gil retornará somente no ano de 1972. dono de uma carreira musical mundialmente premiada, amplia sua ação ao plano político, agindo diretamente na vida das pessoas para quem cantava: assume a vereança em sua cidade de origem no período 1989 ~1992; em 1997, é condecorado com a Ordem Nacional ao Mérito do governo francês; em 1999, é nomeado “Artista pela Paz” pela UNESCO; finalmente, de 2003 a 2008, trabalha como Ministro da Cultura, implementando mais de 2500 Pontos de Cultura em 1122 cidades do país.
          para o exercício de tradução de hoje escolhi o 13o disco de Gil, “Parabolicamará”, de 1992. neste disco, “Um sonho” é a faixa que primeiro puxou minha atenção, onde o eu-lírico narra um sonho que teve, um discurso para muitos gravatas importantes em um grande fórum mundial – um sonho que lhe veio quase 13 anos antes de acontecer de verdade!

 

PARABOLICAMARÁ (lançamento de Janeiro de 1992, Warner Music)

 

 

A.01-MADALENA (ENTRA EM BECO SAI EM BECO) (Isidoro)
Fui passear na roça

Encontrei Madalena

Sentada numa pedra

Comendo farinha seca

Olhando a produção agrícola

E a pecuária

 

Madalena chorava

Sua mãe consolava

Dizendo assim

Pobre não tem valor

Pobre é sofredor

E que ajuda é Senhor do Bonfim

 

Entra em beco sai em beco

Há um recurso Madalena
Entra em beco sai em beco

Há uma santa com seu nome

 

Entra em beco sai em beco

Vai na próxima capela
E acende uma vela

Pra não passar fome

 

 

A.02-PARABOLICAMARÁ (Gilberto Gil)
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje o mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
De tamanho da antena parabolicamará

Ê, volta do mundo camará
Ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante
Perto só quando dava
Quando muito ali defronte
Eo horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes dende casa camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade

Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar

 

Esse tempo nunca passa

Não é de ontem nem de hoje

Mora no som da cabaça

Nem está preso nem foge

No instante que tange o berimbau, meu camará

Esse tempo não tem rédea

Vem nas asas do vento

O momento da tragédia

Chico Ferreira e Bento

Só souberam na hora do destino apresentar

 

A.03-UM SONHO (Gilberto Gil)
Eu tive um sonho Que eu estava certo dia
Num congresso mundial Discutindo economia

Argumentava em favor de mais trabalho, mais

empenho, mais esforço, mais controle, mais valia

 

Demonstrei de mil maneiras
Como que um país crescia
E me bati pela pujança econômica

Baseada na tônica da tecnologia

 

Apresentei estatísticas e gráficos

Demonstrando os maléficos efeitos da teoria
Principalmente a do lazer, do descanso

Da ampliação do espaço cultural da poesia

Disse por fim para todos os presentes
Que o pais só vai pra frente se trabalhar todo dia
Estava certo de que tudo o que  eu dizia
Representava a verdade pra todo mundo

Foi quando um velho levantou-se da cadeira
E saiu assoviando numa triste melodia

Que parecia um prelúdio bachiano
Um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha

E no salão todas as bocas sorriram,
Todos os olhos me olharam, todos os homens saíram
Um por um,

Um por um,

Um por um,

Um por um.

 

Fiquei ali naquele salão vazio,

de repente senti frio e reparei que estava nú!
Me despertei, assustado e ainda tonto,

Me levantei e fui de pronto pra calçada ver o céu azul
E os operários escolares que

passavam Davam risada

e gritavam

Viva o índio do Xingú!

 

Viva o indio do Xingú,

Viva o índio do Xingú,

Viva o índio do Xingú.

 

A.04-BUDA NAGÔ (Gilberto Gil)
Dorival é ímpar
Dorival é par

Dorival é terra

Dorival é mar

 

Dorival tá no pé

Dorival tá na mão

Dorival tá no céu

Dorival tá no chão

 

Dorival é belo

Dorival é bom

Dorival é udo

Que estiver no tom

 

Dorival vai cantar

Dorival em CD

Dorival vai smbar

Dorival na TV

 

Dorival é um buda nagô

Filho da casa real da inspiração

Como príncie principiou

A nova idade de ouro da canção

Mas um dia Sanhô

Deu-lhe a iluminação

Lá na beira do mar (foi)

Na praia de armação (foi não)

Lá no jardim de Alá (foi)

Lá no alto sertão (foi não)

Lá na mesa de um bar (foi)

Dentro do coração

 

Dorival é Eva
Dorival é Adão

Dorival é lima

Dorival limão

 

Dorival é a mãe

Dorival é o pai

Dorival é o peão

Balançamas não cai

 

Dorival é um monge chinês

Nascido na Roma negra, Salvador

Se é que ele fez fortuna ele a fez

Apostando tudo na carta do amor

Azes, damas e reis

Ele teve e passou

Teve o mundo aos seus pés

Ele viu e nem ligou

Seguidores fiéis

E ele se adiantou

Só levou seus pincéis
A viola e uma flor

 

Dorival é índio

Desse que anda nú

Que bebe garapa

Que come beijú

 

Dorival no Japão

Dorival samurai

Dorival é anação

Balança mas não cai

A.05-SERAFIM (Gilberto Gil)
Quando o agogô soar

O som do ferro sobre o ferro

Será como o berro do carneiro

Sangrado em agrado ao grande Ogum

 

Quando a mão tocar o tambor

Será pele sobre pele

Vida e morte para que se zele

Pelo orixá e pelo ogum

 

Kabiêcile vai cantando o ijexa pro pai Xangô

Eparrei oraieié pra Iansã e mãe Oxum

Obabi olorum kozi como deus não há nenhum

 

Será sempre axé

Será paz será guerra Serafim

Através das travessuras de Exu

Apesar da travessia ruim

 

Há de ser assim

Há de ser sempre pedra sobre pedra

Há de ser tijolo sobre tijolo

E o consolo é saber que não tem fim

 

 

B.01-QUERO SER TEU FUNK (Gilberto Gil, De e Liminha)
Quero ser teu funk
Ja sou teu fa numero um

Agora quero ser teu funk

Ja sou teu fa numero um

 

Funk do teu samba

Funk do teu choro

Funk do teu primeiro amor

 

Rio de Janeiro

Bela Guanabara

Quem te viu primeiro pirou

 

Chefe Arariboia que andava

De Araruama a Itaipava
Nao cansava de te adorar

 

Depois te fizeram cidade

Te fizeram tanta maldade

E um Cristo pra te guardar

 

Funk do teu morro

Funk do socorro

Que o pivete espera de alguem

 

Rio de Janeiro

Sou teu companheiro

Mesmo que nao fique ninguem

 

Mesmo que Sao Paulo te xingue

Porque te cobica o suingue

O mar, a preguica, o calor

 

Lembra da Bahia que um dia

Ja mandou Ciata, a tia

Te ensinar kizomba nago

 

Funk da madrugada

Funk qualquer hora

Funk do teu eterno fa

 

Funk do portuga

Que te amava outrora

Agora funk da turista alema

 

Rio de Janeiro, Rocinha

Sempre a te zelar, Pixinguinha

Jamelao, Vadico e Noel

 

Funk sao teus arcos da Lapa

Funk e tua foto na capa

Da revista amiga do ceu

 

 

B.02-NEVE NA BAHIA (Gilberto Gil)
Xuxa

Bruxa

Ducha de agua fria

No fogo do meu plexo solar

 

Loura

Moura

Neve na Bahia

Um furacao sem furia no meu marulhar

 

Agri

Doce

Tal um sal de fruta

Vos me agredais quanto vos me agredis

 

Ouca

Garca

Inocente e astuta

Clareza absoluta e mil ardis

 

Gueixa disfarcada de boneca

Sudanesa travestida de alema

Porque sois o misterio a luz do dia?

Porque sois sempre a noite de manha?

 

Ainda bem que sois fruta no meu sonho

A velha obviedade da maca

Que escolho e colho e mordo na bochecha, Xuxa

E tendes travo e gosto de avela

 

Vick
Vapor

Lenta anestesia

Pimenta na garrafa de isopor

 

Xuxa

Bruxa

Ouro de alquimia

Sois flecha de um cupido pos-amor

 
B.03-YA OLOKUN (Monica Millet e Fred Vieira)
Ribeira eu peco licenca

Pra as aguas do mar, Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

Sao pontos de areia

Os destinos brilhando num so Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

As aguas salgadas

Os homens sujaram o mar, Olokun

Ye Olokun, Ya Olokun

 

Vamos salvar o dique do tororo

Bahia de todos os santos

Sol e areia, ea, ea, ea

 

Perpetuar aqueles que nos dao

A mare vazia e tambem a mare cheia

 

B.04-O FIM DA HISTORIA (Gilberto Gil)
Nao creio que o tempo

venha comprovar

nem negar que a historia

possa se acabar

 

Basta ver que um povo

Derruba um czar

Derruba de novo

Quem pos no lugar

 

E como se o livro dos tempos

Pudesse ser lido traz pra frente

frente pra traz

 

Vem a historia, escreve um capitulo

Cujo titulo pode ser “Nunca Mais”

 

Vem o tempo e elege outra historia

Que escreve outra parte

Que se chama “Nunca E Demais”

 

“Nunca Mais”, “Nunca E Demais”, “Nunca Mais”

“Nunca E Demais” e assim por diante tanto faz

 

Indiferente se o livro e lido

De traz pra frente

Ou lido de frente pra traz

 

Quantos muros ergam

Como o de Berlim

Por mais que perdurem

Sempre terao fim

 

E assim por diante

Nunca vai parar

Seja neste mundo

Ou em qualquer lugar

 

Por isso e que um cangaceiro

Sera sempre anjo e capeta, bandido e heroi

 

Deu-se noticia do fim do cangaco

E a noticia foi o estardalhaco que foi

 

Passaram-se os anos eis que um plebicito

Ressucita o mito que nao se destroi

 

Oi Lampiao sim, Lampiao nao, Lampiao talvez

Lampiao faz bem, Lampiao doi

 

Sempre o pirao de farinha da historia

E a farinha e o moinho que o tempo moi

 

Tantos cangaceiros

Como Lampiao

Por mais que se matem

Sempre voltarao

 

E assim por diante

Nunca vai parar

Inferno de Dante

Ceu de Jeova

 

B.05-DE ONDE VEM O BAIAO (Gilberto Gil)
Debaixo

Do barro do chao

Da pista onde se danca

Suspira uma sustanca

Sustentada por um sopro divino

Que sobe pelos pes da gente

E de repente se lanca

Pela sanfona afora

Ate o coracao do menino

Debaixo

Do barro do chao

Da pista onde se danca

E como se Deus

Irradiasse uma forte energia

Que sobre pelo chao

E se transforma

Em ondas de baiao

Xaxado e xote

Que balanca tranca

Do cabelo da menina

E quanta alegria

De onde e que vem o baiao?

Vem debaixo

Do barro do chao

De onde e que vem

O xote e o xaxado?

Vem deibaixo

Do barro do chao

De onde vem a esperanca

A sustanca espalhando

O verde dos teus olhos

Pela plantacao

O o vem debaixo do barro do chao

 

 

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