Duas canções, duas traduções

salve salve, minha querida & azul bloguesfera! vem aqui mais um “Duas canções, duas traduções”.

no episódio de hoje, vamos atravessar a ponte para decodificar a mensagem de duas grandes músicas, uma de Bob Dylan & outra dos Secos&Molhados. na segunda parte, realizaremos o caminho inverso, usando de uma canção 100% tupiniquim que faz todas as pessoas cantarem juntas, & levá-la ao ingrêis do tio Donaldo, o Agente Laranja, para que ele entenda como se chacoalha o esqueleto no lado de baixo da linha do Equador, onde não existe o pecado.

o nome desta seção deveria ser “montado nos ombros dos gigantes”!

Bob Dylan, o nome de escritor de Robert Allen Zimmerman, nascido na cidade de Duluth, Minnesota, em 1941, já andou o mundo inteiro para apresentar o que ele chama de “A turnê que nunca acaba”. em terras brasilis, já visitou Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo & Porto Alegre, ao longo de cinco oportunidades para apresentar seu trabalho enquanto musicista: 1990, na segunda edição do festival Hollywood Rock; turnês em 1991, em 2008 & em 2012; & enquanto banda de abertura para os The Rolling Stones, em 1998. o olhar do bardo é ativo também nas artes plásticas, como podemos ver através de uma declaração sobre sua série de pinturas em tinta acrílica (quase 50 telas!), intitulada “The Brazil Series”:

“Existe uma parte na América do Sul onde não se fala espanhol, fala-se português. É um país adorável, com 184 milhões de habitantes vivendo lá. É o gigante da América Latina. Esse país ocupa quase metade do continente. Acredito que seja maior do que os Estados Unidos. Seu lema é “ordem e progresso”. É onde você encontra São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos lugares com as melhores festas que conheço. Estou falando do Brasil.”

para abrir os trabalhos aqui no blogue, foi escolhida uma música para aproveitarmos o atual momento de discussão da sociedade falocrata&fratricida que envenena nossas terras. “Just like a woman” apareceu no primeiro disco duplo de rocknroll da história, o “Blonde on blonde” de 16 de Maio de 1966, o sétimo disco de estúdio de Dylan. é neste disco que estão pedradas importantes da história do bardo de Duluth, como “Temporary like Achilles”, “Stuck inside a mobile with the Memphis Blues again”, “One of us must know” & “I want you” (a única de todo o disco que já tinha ganhado uma versão em português, “Tanto”, na tradução de Chico Amaral, para o disco de estréia dos  Skank).

se a gente não tiver tato na hora de traduzir para transcriar, Dylan vira um desses tais monstros machistas, mimados & sem cabeça que se vê por aí. de acordo com o próprio autor, ele escreveu as letras desta música no Kansas, enquanto estava em turnê, no feriado de Ação de Graças de 1965. porém, existem relatos de que o artista chegou em Nashville para as sessões de gravação sem nada escrito além da linha melódica do piano, & começou a improvisar cantando frases desconexas & sem sentido.

desde que surgiu, esta música é criticada por uma misoginia exacerbada, colocando os homens & as mulheres nos lugares comuns de heróis valentes protagonistas VS de sofredoras histéricas subjugadas. acredito ser uma letra sem polêmicas, mas que pode levar a uma interpretação errada, numa leitura rápida: muitos dizem que Dylan é altamente machista neste letra. como dizem meus amigos futebolistas: de elevado teor de testosterona!; o que consegui enxergar foi apenas uma homenagem ao sexo com sexto sentido. não compreende-se as mulheres porque uma palavra tem dois sentidos. como pode um Ser ter seis?

…retomando, se não formos tão longe, no ano de 2016, foi laureado a Dylan o prêmio Nobel de Literatura: Dylan pode não ser um hábil musicista, mas certamente é um escritor talentoso (se você domina duas cozinhas, isto lhe abre precedentes para dizer que faz nada além de um simplório&dedicado exercício de Humanismo!).

a música é estruturada em três estrofes com seis versos,  cada estrofe seguida por um refrão que se repete idêntico nas duas primeiras para, na última, soar suavemente diferente. & ainda, antes do último refrão, um estribilho de ponte. os lugares comuns da música são colocados como ironias, ferramentas para o autor brincar com as pessoas, se não para mudar o mundo, mudar pelo menos as pessoas. no placar que mantém no ar, o artista declara até a data do fechamento desta edição 871 exibições públicas desta música.

JU57 L1K3 4 W0M4N (Robert Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t I6U4L 4 UM4 MULH3R (r.l.almeida)

 1.
Nobody feels any pain
Tonight I stand inside the rain
Everybody knows
That baby´s got new clothes
But lately I see her ribbons and her bows
Have fallen from her curls
She takes just like a woman
And she makes love just like a woman
And she aches just like a woman
But she breaks like a little girl

Ninguém sente dor nenhuma
É hoje que me benzo nessa chuva
O mundo já percebeu
Como você cresceu
E já faz tempo que as presilhas&os elásticos
Abandonaram os teus cachos
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha

2.
Queen Mary, she´s my friend
Yes, I believe I´ll go see her again
Nobody has to guess
That baby can´t be blessed
Till she sees finally that she´s like all the rest
With her fog, and her amphetamine and her pearls
      She takes just like a woman
      And she makes love just like a woman
      And she aches just like a woman
      But she breaks like a little girl

Queen Mary, esta é uma amiga
Vamos sair de novo, dá até pra acreditar
Ninguém ia adivinhar
O padre não quis casar
E ela entendeu que faz parte de um grande resto
com sua imprecisão, suas anfentas&suas bolinhas
      Ela aceita igual a uma mulher
      Ela ama igual a uma mulher
      Ela se ressente igual a uma mulher
      Mas ela briga igual a uma garotinha 

r.
It was raining from the first
And I was dying there of thirst
So I came in here
And your long-time curse hurts
But what´s worse
Is this pain in here
I can´t stay in here
Ain´t clear that…

De começo foi uma chuva, e eu lá
Morrendo de sede e não
Conseguia beber.
E tua cicatriz antiga ainda não sarou
Vai ver até que piorou
Tudo o que dói em mim
Não posso ficar aqui!
E ainda não sei se…

3.
…I just can´t fit
Yes I believe it´s time for us to quit
When we meet again
Introduced as friends
Please don´t let on that you knew me when
I was hungry and it was your world
      You fake just like a woman
      You make love just like a woman
      Then you ache just like a woman
      But you break like a little girl

Eu não sirvo, não!
Acho que chegou a hora da nossa separação
Se nos vermos de novo
Talvez um amigo em comum
Vê se não vai agir como se não me conhecesse
Era só fome e era do teu mundo
      Fingida! Igual a uma mulher
      Tú até faz amor igual a uma mulher
      E até se ressente igual a uma mulher
      Mas daí briga igual a uma menininha.

012

      mas Bob Dylan viveu no lado de cima dos trópicos. mesmo com poucas visitas oficiais ao Brazyl, pode-se afirmar que sua influência atingiu ao mundo inteiro. em terras brasilis tupiniquenses, podemos dizer que também retumbaram no grupo Secos&Molhados.

      os Secos&Molhados foram essencialmente um power trio com vários convidados especiais. a formação clássica contava com Gerson Conrad, Ney Matogrosso, Marcelo Frias & João Ricardo (o pensador da banda, filho mais velho do cronista português João Apolinário Teixeira Pinto). esta formação esteve na ativa entre 1970 & 1974, misturando não apenas Dylan: abraçavam declaradamente também o fado português, o glamorous rock & a guitarra elétrica. era um exercício de poesia na música, & nesta toada, puderam gravar algumas músicas em cima de poemas de Apolinário, Fernando Pessoa & Júlio Cortázar. ficaram reconhecidos por suas apresentações ousadas, com figurino & maquiagens extravagantes, além de um rockenrou considerado pesado (utilizando piano, flauta & violão 12 cordas). um flerte com a tropicália & a bossa nova, que sabe que é rock enquanto estilo de vida- & tudo isso em plena época de Dita Frouxa!

      o primeiro disco foi gravado entre Maio & Junho de 1973, em uma mesa de som com 4 canais – o ápice de tecnologia que o país tinha na época, mesmo para um dos grandes estúdios, no caso, a Continental. o disco reflete a condição latino-americana sem dinheiro no banco de cão sem dono caído da mudança em pleno tiroteio no morro da Urca, com músicas como “Rosa de Hiroshima”, “O patrão nosso de cada dia” & “Sangue latino”. o lançamento aconteceu em Agosto deste mesmo ano, & foi um sucesso porque o grupo já realizava apresentações ocasionais. talvez temendo represálias, Marcelo Frias, que operava as baquetas do grupo, pediu para sair depois de eternizado na capa e no som do disco. segundo o jornalista Jorge Tadeu, “o grupo conseguiu com o seu álbum inicial restaurar a liberdade estética & comportamental no Brasil depois do fim do Tropicalismo, num acinte contra a carranca dos verdugos que ocuparam Brasília & ditaram vetos moralizantes, torsurtando gente, insuflando a barbárie”.

para finalizar este artigo, trouxe da mesa de cirurgias a música “Fala”, que encerra o primeiro disco dos Secos. são 4 estrofes, cada uma com três versos curtos. cada uma das estrofes tem o mesmo verso ao final: “Então eu escuto” \\|// “And so i´ll just listen”. a grande polêmica nesta letra ficou por conta de “Se eu não entender, não vou responder”…acho que não existe nenhuma outra opção legítima que rime em inglês “entender” com “responder” além da que apresento (o que me faz prestar reverência aos irmãos Brittos e seu “Sem resposta”). cês lembra quando os Brittos encontraram com o Dylan Thomas, né? lembro à rapeize que escrevo o ingrêis sem contração por puro desprezo à esta atitude bárbara que destrói todo&qualquer código idiomático – no português mesmo, são poucos casos!

F4L4 (João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto &t Heloisa Orosco Borges da Fonseca) &t T3LL M3 (r.l.almeida)

1.
Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

I do not know how to say
What I do not want to say
And so I will just listen

2.
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

If you start to talk
The things that you may want
And so I will just listen

r.
Fala!

Tell me!

3.
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

If I not comply
I will give you no reply
And so I will just listen

4.
Eu só vou falar
Na hora que falar
Então eu escuto

The time I start to tell
It is the right time as well
And so I will just listen

011

 

falando sério agora: o nome desta seção deveria ser “Assaltaram a gramática!” =D