Dois contos, duas traduções

          salve, salve, minha maturada & famigerada bloguesfera nossa de cada dia. mais um “Duas tradussas” no ar, hoje transvertendo contos curtos do inglês para o português e o costumeiro caminho inverso, do português ao inglês.

          o primeiro convidado é nascido em Oak Park, estado de Illinois, nos EUA, no dia 21 de Julho de 1899: Ernest Miller Hemingway foi habilidoso contista, romancista, jornalista, espião, apaixonado por touradas, boxe, pescaria & uma boa birita. foi homenageado com o Nobel de Literatura em 1954, bem perto do fim da vida: o escritor já tinha legado suas mais importantes obras (por exemplo, o libelo libertário de “Por quem os sinos dobram”; & também a canção da solidão de “O velho e o mar”), andado o mundo inteiro (à serviço & por diversão), lutado nas duas Guerras Mundiais, casado quatro vezes, pai de três filhos, além de ser tutor de inumeráveis cães & gatos que viviam em uma de suas casas, num sítio em Cuba. é mais um exemplo do literato autodidata que leu mais do que escreveu, criado longe das eiras do academicismo!

          a vida do jovem escritor começa no idílico estado de Illinois, entre nativos-americanos, cachoeiras & montanhas. seu pai foi o médico da vila, & a mãe era professora de piano – os pais são dois dos pilares em que Ernest vai erguer sua obra: é o pai, Clarence, quem ensina ao jovem garoto a pesca, a natação, a caça, nas férias que passavam em família no Lago Wallon, no Michigan. esta formação está bem presente em tudo que escreveu: retratos da natureza, da vida selvagem, uma paixão por aventuras & a busca de uma vida mais simples em partes remotas ou ermas do mundo. o jovem Ernest editou o jornal da sua escola, “O trapézio”, &, depois de terminar o equivalente em terras brasilis ao Ensino Médio, aos 14 já trabalhava pelo jornal The Kansas City Star como repórter honorário. assim como outro ícone estadunidense da literatura, Mark Twain, e talvez um ou dois da brazileña, talvez Lima Barreto ou Dom Machadão, o caso é que Ernest Hemingway também passou pela imprensa enquanto primeira formatação de seu estilo. veio do guia de estilo do Kansas City os principais fundamentos que nortearão sua vida de escritor: “usar frases curtas. usar primeiros parágrafos curtos. usar um idioma vigoroso. seja positivo, & não negativo”

          talvez seria esta a vida que Ernest levaria até o fim de seus dias, pescar no Waloon e escrever para o jornal, não tivesse o mundo enlouquecido de vez em 1914 & rebentado a Primeira Guerra Mundial. o jovem Ernest tenta se alistar pelo exército de seu país para lutar, mas é preterido por causa de sua miopia – fraca, mas ainda miopia. bate então à porta da Cruz Vermelha, que não se faz de rogada em enviar o jovem Ernest para a Europa, para lutar na guerra como motorista de ambulância.

          Ernest Hemingway fez a guerra por alguns meses, até que foi ferido por estilhaços na perna, e enviado de volta para casa. essa primeira experiência nas Zooropas vira livro, um romance de fôlego que estréia somente em 1929, “Adeus às armas” (seu terceiro romance). porque mesmo de volta pra casa, o jovem já não é mais tão inocente depois das demandas de uma guera. em 1919 escreve o conto “O rio gigante de dois corações”, onde surge pela primeira vez seu outro eu nas histórias curtas, Nick Adams. vive por algum tempo no Canadá, onde escreve o cotidiano para o The Toronto Star Weekly, primeiro como freelancer & depois como parte do time. em 1921, casa-se pela primeira vez & vai morar em Paris, como correspondente do Toronto Star e até mesmo com textos publicados pelo Morning Post de Londres. a França foi indicação de seu amigo em Chicago, o editor & escritor Sherwood Anderson, que afirmava que depois do conflito mundial, as taxas de câmbios fizeram de Paris um lugar nada caro de se morar.

          Ernest vai criar a técnica do iceberg (uma história é tudo aquilo que está para baixo da água: o que o escritor coloca em palavras, a parte acima da água); para Hemingway trabalhar, aprimora em seu período às margens da rive gauche do rio Sena suas ferramentas básicas: um lugar limpo & bem iluminado. vivendo Paris até 1928, este é considerado o período mais frutífero do escritor. nesses tempos, aproxima-se de Gertrude Stein, Ezra Pound, Sylvia Beach. Gertrude e Ezra ainda começavam suas carreiras, mas Sylvia já tinha uma livraria em Paris, que cobrava preços irrisórios por algumas diárias de aluguel de uma obra (((uma livro-loucadora!!!))): a livraria Shakespeare & Company, acho que você deve tê-la visto no filme de Richard Linklater, “Antes do pôr-do-sol” (2003) (se não viu, mas me lê, corre lá porque ainda dá tempo!!). essa livraria era ponto de encontro de pintores & poetas, modernistas ou dadaístas, da boemia em geral, no que ficou conhecido como “Geração perdida” – a geração que lutou a primeira grande guerra & viveu para contar os loucos anos 20 até a Grande Depressão.

          é em Paris que Ernest consegue se organizar para organizar seu primeiro livro: “Três estórias e dez poemas” (1923), trazia além dos dez poemas (que hoje ninguém mais se lembra), os contos “Lá em Michigan”, “Meu velho” e “Fora de temporada”, em 300 cópias. no ano seguinte, publica “In our time”, com 14 contos (e duas das mais famosas aventuras de Nick Adams, “Acampamento índio”, trabalho inédito, e “O rio gigante de dois corações”, pela primeira vez em livro, em 170 cópias). em 1926, alça vôos maiores com romances, lançando no começo do ano “As correntes da primavera” (uma sátira ao universo literato, escrito em dez dias) & depois, em Outubro, “O sol também se levanta”, romance com tiragem de 5090 cópias para sua primeira edição, o primeiro pela editora dos filhos de Charles Scribner, de Nóva Úorque. o livro acompanha um bando de expatriados em tournée pela Espanha, para pescar, beberem vinho, acompanhar as touradas – um guia para quem pretende seguir caminhos peregrinos, o que fazer para se ficar vivo: planos são importantes! Foi com “O sol também se levanta” que transformou o autor conhecido do dia para a noite, já que dois meses depois veio a segunda tiragem (7000 cópias), e a cada ano, até 1983, tiragens em seqüência, tornando esta a obra mais traduzida & comentada do autor. publica em 1927 mais um livro de estórias curtas, “Men without women” com 14 contos (10 dos quais publicados anteriormente, em outros veículos). foi o primeiro livro de Ernest Hemingway a ter uma tiragem de 7600 cópias para sua primeira edição.

          o conto que trago para apresentar uma versão em português está nesse livro, que também contém outras pérolas como “Colinas iguais elefantes brancos” & “Em outro país”. aqui no Brëzyl, os quase 70 contos curtos foram permeados em edições trincadas, inicialmente pela editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), e os romances pela Companhia Editora Nacional (São Paulo), em traduções de Monteiro Lobato, Antonio Veiga Fialho e Ênio Silveira.

          tinha preparado uma primeira versão dele para uma aula de teoria da narrativa com o saudoso Luis Gonzaga Marchezan, @FCLar/UNESP, idos de 2005. atualizei o texto para os dias de hoje, Brëzyl, um país de ninguém, e ficou beeeem mais fluído do que na minha primeira tentativa. me considero mais ousado nos dias de hoje, por exemplo, ao comentar uma das polêmicas do texto: trazer uma tradução do nome da cidade. porque uma das regras que preza o manual é que nomes não se traduzem – nem de pessoas, nem de lugares. mas tivesse deixado no original, “Summit”, essa palavra parece com simplesmente nenhuma outra do idioma português. arrisquei um “Do Alto” na vez & a hora que chegou a menção à cidade, porque “Do Alto” é o nome dumas quarenta e& quinze localidades neste nosso Brëzyl grande, rico, insano por aqui adentro.

“The killers”, de Ernest Hemingway. in: “Men without women”. Editora Scribner´s & Sons, 1927, New York, EUA.

          The door of Henry’s lunchroom opened and two men came in. They sat down at the counter.
          “What’s yours?” George asked them.
          “I don’t know,” one of the men said. “What do you want to eat, Al?”
          “I don’t know,” said Al. “I don’t know what I want to eat.”
Outside it was getting dark. The streetlight came on outside the window. The two men at the counter read the menu. From the other end of the counter Nick Adams watched them. He had been talking to George when they came in.
          “I’ll have a roast pork tenderloin with apple sauce and mashed potatoes,” the first man said.
          “It isn’t ready yet.”
          “What the hell do you put it on the card for?”
          “That’s the dinner,” George explained. “You can get that at six o’clock.”
George looked at the clock on the wall behind the counter.
          “It’s five o’clock.”
          “The clock says twenty minutes past five,” the second man said.
          “It’s twenty minutes fast.”
          “Oh, to hell with the clock,” the first man said. “What have you got to eat?”
          “I can give you any kind of sandwiches,” George said. “You can have ham and eggs, bacon and eggs, liver and bacon, or a steak.”
          “Give me chicken croquettes with green peas and cream sauce and mashed potatoes.”
          “That’s the dinner.”
          “Everything we want’s the dinner, eh? That’s the way you work it.”
          “I can give you ham and eggs, bacon and eggs, liver—”
          “I’ll take ham and eggs,” the man called Al said. He wore a derby hat and a black overcoat buttoned across the chest. His face was small and white and he had tight lips. He wore a silk muffler and gloves.
          “Give me bacon and eggs,” said the other man. He was about the same size as Al. Their faces were different, but they were dressed like twins. Both wore overcoats too tight for them. They sat leaning forward, their elbows on the counter.
          “Got anything to drink?” Al asked.
          “Silver beer, bevo, ginger-ale,” George said.
          “I mean you got anything to drink?”
          “Just those I said.”
          “This is a hot town,” said the other. “What do they call it?”
          “Summit.”
          “Ever hear of it?” Al asked his friend.
          “No,” said the friend.
          “What do they do here nights?” Al asked.
          “They eat the dinner,” his friend said. “They all come here and eat the big dinner.”
          “That’s right,” George said.
          “So you think that’s right?” Al asked George.
          “Sure.”
          “You’re a pretty bright boy, aren’t you?”
          “Sure,” said George.
          “Well, you’re not,” said the other little man. “Is he, Al?”
          “He’s dumb,” said Al. He turned to Nick. “What’s your name?”
          “Adams.”
          “Another bright boy,” Al said. “Ain’t he a bright boy, Max?”
          “The town’s full of bright boys,” Max said.
          George put the two platters, one of ham and eggs, the other of bacon and eggs, on the counter. He set down two side dishes of fried potatoes and closed the wicket into the kitchen.
          “Which is yours?” he asked Al.
          “Don’t you remember?”
          “Ham and eggs.”
          “Just a bright boy,” Max said. He leaned forward and took the ham and eggs. Both men ate with their gloves on. George watched them eat.
          “What are you looking at?” Max looked at George.
          “Nothing.”
          “The hell you were. You were looking at me.”
          “Maybe the boy meant it for a joke, Max,” Al said.
          George laughed.
          “You don’t have to laugh,” Max said to him. “You don’t have to laugh at all, see?’
          “All right,” said George.
          “So he thinks it’s all right.” Max turned to Al. “He thinks it’s all right. That’s a good one.”
          “Oh, he’s a thinker,” Al said. They went on eating.
          “What’s the bright boy’s name down the counter?” Al asked Max.
          “Hey, bright boy,” Max said to Nick. “You go around on the other side of the counter with your boy friend.”
          “What’s the idea?” Nick asked.
          “There isn’t any idea.”
          “You better go around, bright boy,” Al said. Nick went around behind the counter.
          “What’s the idea?” George asked.
          “None of your damned business,” Al said. “Who’s out in the kitchen?”
          “The nigger.”
          “What do you mean the nigger?”
          “The nigger that cooks.”
          “Tell him to come in.”
          “What’s the idea?”
          “Tell him to come in.”
          “Where do you think you are?”
          “We know damn well where we are,” the man called Max said. “Do we look silly?”
          “You talk silly,” Al said to him. “What the hell do you argue with this kid for? Listen,” he said to George, “tell the nigger to come out here.”
          “What are you going to do to him?”
          “Nothing. Use your head, bright boy. What would we do to a nigger?”
          George opened the slit that opened back into the kitchen. “Sam,” he called. “Come in here a minute.”
          The door to the kitchen opened and the nigger came in. “What was it?” he asked. The two men at the counter took a look at him.
          “All right, nigger. You stand right there,” Al said.
          Sam, the nigger, standing in his apron, looked at the two men sitting at the counter. “Yes, sir,” he said. Al got down from his stool.
          “I’m going back to the kitchen with the nigger and bright boy,” he said. “Go on back to the kitchen, nigger. You go with him, bright boy.” The little man walked after Nick and Sam, the cook, back into the kitchen. The door shut after them. The man called Max sat at the counter opposite George. He didn’t look at George but looked in the mirror that ran along back of the counter. Henry’s had been made over from a saloon into a lunch counter.
          “Well, bright boy,” Max said, looking into the mirror, “why don’t you say something?”
          “What’s it all about?”
          “Hey, Al,” Max called, “bright boy wants to know what it’s all about.”
Why don’t you tell him?” Al’s voice came from the kitchen.
What do you think it’s all about?”
I don’t know.”
What do you think?”
Max looked into the mirror all the time he was talking.
I wouldn’t say.”
          “Hey, Al, bright boy says he wouldn’t say what he thinks it’s all about.”
I can hear you, all right,” Al said from the kitchen. He had propped open the slit that dishes passed through into the kitchen with a catsup bottle. “Listen, bright boy,” he said from the kitchen to George. “Stand a little further along the bar. You move a little to the left, Max.” He was like a photographer arranging for a group picture.
          “Talk to me, bright boy,” Max said. “What do you think’s going to happen?”
George did not say anything.
          “I’ll tell you,” Max said. “We’re going to kill a Swede. Do you know a big Swede named Ole Anderson?”
          “Yes.”
          “He comes here to eat every night, don’t he?”
          “Sometimes he comes here.”
          “He comes here at six o’clock, don’t he?”
          “If he comes.”
          “We know all that, bright boy,” Max said. “Talk about something else. Ever go to the movies?”
          “Once in a while.”
          “You ought to go to the movies more. The movies are fine for a bright boy like you.”
          “What are you going to kill Ole Anderson for? What did he ever do to you?”
          “He never had a chance to do anything to us. He never even seen us.”
          And he’s only going to see us once,” Al said from the kitchen:
          “What are you going to kill him for, then?” George asked.
          “We’re killing him for a friend. Just to oblige a friend, bright boy.”
          “Shut up,” said Al from the kitchen. “You talk too goddamn much.”
          “Well, I got to keep bright boy amused. Don’t I, bright boy?”
          “You talk too damn much,” Al said. “The nigger and my bright boy are amused by themselves. I got them tied up like a couple of girl friends in the convent.”
          “I suppose you were in a convent.”
          “You never know.”
          “You were in a kosher convent. That’s where you were.”
          George looked up at the clock.
          “If anybody comes in you tell them the cook is off, and if they keep after it, you tell them you’ll go back and cook yourself. Do you get that, bright boy?”
          “All right,” George said. “What you going to do with us afterward?”
          “That’ll depend,” Max said. “That’s one of those things you never know at the time.”
          George looked up at the dock. It was a quarter past six. The door from the street opened. A streetcar motorman came in.
          “Hello, George,” he said. “Can I get supper?”
          “Sam’s gone out,” George said. “He’ll be back in about half an hour.”
          “I’d better go up the street,” the motorman said. George looked at the clock. It was twenty minutes, past six.
          “That was nice, bright boy,” Max said. “You’re a regular little gentleman.”
          “He knew I’d blow his head off,” Al said from the kitchen.
          “No,” said Max. “It ain’t that. Bright boy is nice. He’s a nice boy. I like him.”
          At six-fifty-five George said: “He’s not coming.”
          Two other people had been in the lunchroom. Once George had gone out to the kitchen and made a ham-and-egg sandwich “to go” that a man wanted to take with him. Inside the kitchen he saw Al, his derby hat tipped back, sitting on a stool beside the wicket with the muzzle of a sawed-off shotgun resting on the ledge. Nick and the cook were back to back in the corner, a towel tied in each of their mouths. George had cooked the sandwich, wrapped it up in oiled paper, put it in a bag, brought it in, and the man had paid for it and gone out.
          “Bright boy can do everything,” Max said. “He can cook and everything. You’d make some girl a nice wife, bright boy.”
          “Yes?” George said, “Your friend, Ole Anderson, isn’t going to come.”
          “We’ll give him ten minutes,” Max said.
Max watched the mirror and the clock. The hands of the clock marked seven o’clock, and then five minutes past seven.
          “Come on, Al,” said Max. “We better go. He’s not coming.”
          “Better give him five minutes,” Al said from the kitchen.
In the five minutes a man came in, and George explained that the cook was sick.
Why the hell don’t you get another cook?” the man asked. “Aren’t you running a lunch-counter?” He went out.
          “Come on, Al,” Max said.
          “What about the two bright boys and the nigger?”
          “They’re all right.”
          “You think so?”
          “Sure. We’re through with it.”
          “I don’t like it,” said Al. “It’s sloppy. You talk too much.”
          “Oh, what the hell,” said Max. “We got to keep amused, haven’t we?”
          “You talk too much, all the same,” Al said. He came out from the kitchen. The cut-off barrels of the shotgun made a slight bulge under the waist of his too tight-fitting overcoat. He straightened his coat with his gloved hands.
          “So long, bright boy,” he said to George. “You got a lot of luck.”
          “That’s the truth,” Max said. “You ought to play the races, bright boy.”
The two of them went out the door. George watched them, through the window, pass under the arc-light and across the street. In their tight overcoats and derby hats they looked like a vaudeville team. George went back through the swinging door into the kitchen and untied Nick and the cook.
          “I don’t want any more of that,” said Sam, the cook. “I don’t want any more of that.”
          Nick stood up. He had never had a towel in his mouth before.
          “Say,” he said. “What the hell?” He was trying to swagger it off.
          “They were going to kill Ole Anderson,” George said. “They were going to shoot him when he came in to eat.”
          “Ole Anderson?”
          “Sure.”
          The cook felt the corners of his mouth with his thumbs.
          “They all gone?” he asked.
          “Yeah,” said George. “They’re gone now.”
          “I don’t like it,” said the cook. “I don’t like any of it at all”
          “Listen,” George said to Nick. “You better go see Ole Anderson.”
          “All right.”
          “You better not have anything to do with it at all,” Sam, the cook, said. “You better stay way out of it.”
          “Don’t go if you don’t want to,” George said.
          “Mixing up in this ain’t going to get you anywhere,” the cook said. “You stay out of it.”
          “I’ll go see him,” Nick said to George. “Where does he live?”
          The cook turned away.
          “Little boys always know what they want to do,” he said.
          “He lives up at Hirsch’s rooming-house,” George said to Nick.
          “I’ll go up there.”
          Outside the arc-light shone through the bare branches of a tree. Nick walked up the street beside the car-tracks and turned at the next arc-light down a side-street. Three houses up the street was Hirsch’s rooming-house. Nick walked up the two steps and pushed the bell. A woman came to the door.
          “Is Ole Anderson here?”
          “Do you want to see him?”
          “Yes, if he’s in.”
          Nick followed the woman up a flight of stairs and back to the end of a corridor. She knocked on the door.
          “Who is it?”
          “It’s somebody to see you, Mr. Anderson,” the woman said.
          “It’s Nick Adams.”
          “Come in.”
          Nick opened the door and went into the room. Ole Anderson was lying on the bed with all his clothes on. He had been a heavyweight prizefighter and he was too long for the bed. He lay with his head on two pillows. He did not look at Nick.
          “What was it?” he asked.
          “I was up at Henry’s,” Nick said, “and two fellows came in and tied up me and the cook, and they said they were going to kill you.”
It sounded silly when he said it. Ole Anderson said nothing.
          “They put us out in the kitchen,” Nick went on. “They were going to shoot you when you came in to supper.”
          Ole Anderson looked at the wall and did not say anything.
          “George thought I better come and tell you about it.”There isn’t anything I can do about it,” Ole Anderson said.
          “I’ll tell you what they were like.”
          “I don’t want to know what they were like,” Ole Anderson said. He looked at the wall. “Thanks for coming to tell me about it.”
          “That’s all right.”
          Nick looked at the big man lying on the bed.
          “Don’t you want me to go and see the police?”
          “No,” Ole Anderson said. “That wouldn’t do any good.”
          “Isn’t there something I could do?”
          “No. There ain’t anything to do.”
          “Maybe it was just a bluff.”
          “No. It ain’t just a bluff.”
          Ole Anderson rolled over toward the wall.
          “The only thing is,” he said, talking toward the wall, “I just can’t make up my mind to go out. I been here all day.”
          “Couldn’t you get out of town?”
          “No,” Ole Anderson said. “I’m through with all that running around.”
He looked at the wall.
          “There ain’t anything to do now.”
          “Couldn’t you fix it up some way?”
          “No. I got in wrong.” He talked in the same flat voice. “There ain’t anything to do. After a while I’ll make up my mind to go out.”
          “I better go back and see George,” Nick said.
          “So long,” said Ole Anderson. He did not look toward Nick. “Thanks for coming around.”
          Nick went out. As he shut the door he saw Ole Anderson with all his clothes on, lying on the bed looking at the wall.
          “He’s been in his room all day,” the landlady said downstairs. “I guess he don’t feel well. I said to him: ‘Mr. Anderson, you ought to go out and take a walk on a nice fall day like this,’ but he didn’t feel like it.”
          “He doesn’t want to go out.”
          “I’m sorry he don’t feel well,” the woman said. “He’s an awfully nice man. He was in the ring, you know.”
          “I know it.”
          “You’d never know it except from the way his face is,” the woman said.
They stood talking just inside the street door. “He’s just as gentle.”
          “Well, good night, Mrs. Hirsch,’ Nick said.
          “I’m not Mrs. Hirsch,” the woman said. “She owns the place. I just look after it for her. I’m Mrs. Bell.”
          “Well, good night, Mrs. Bell,” Nick said.
          “Good night,” the woman said.
          Nick walked up the dark street to the corner under the arc-light, and then along the car-tracks to Henry’s eating-house. George was inside, back of the counter.
          “Did you see Ole?”
          “Yes,” said Nick. “He’s in his room and he won’t go out.”
          The cook opened the door from the kitchen when he heard Nick’s voice.
          “I don’t even listen to it,” he said and shut the door.
          “Did you tell him about it?” George asked.
          “Sure. I told him but he knows what it’s all about.”
          “What’s he going to do?”
          “Nothing.”
          “They’ll kill him.”
          “I guess they will.”
          “He must have got mixed up in something in Chicago.”
          “I guess so,” said Nick.
          “It’s a hell of a thing!”
          “It’s an awful thing,” Nick said.
          They did not say anything. George reached down for a towel and wiped the counter.
          “I wonder what he did?” Nick said.
          “Double-crossed somebody. That’s what they kill them for.”
          “I’m going to get out of this town,” Nick said.
          “Yes,” said George. “That’s a good thing to do.”
          “I can’t stand to think about him waiting in the room and knowing he’s going to get it. It’s too damned awful.”
          “Well,” said George, “you better not think about it.”

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“Os assassinos”, de Ernest Hemingway. tradução de r.l.almeida.

          A porta do restaurante do Henry abriu e dois homens entraram. Sentaram-se ao balcão.
          “O que vai ser?” George perguntou-lhes.
          “Eu não sei”, um dos homens disse. “O que você quer comer, Al?”
          “Não sei”, disse Al. “Ainda não sei o que quero comer.”
          Escurecia lá fora. Adentravam as luzes dos postes pela janela. Os dois homens no balcão liam o cardápio. Na outra parte do balcão Nick Adams só observava. Ele e George conversavam, quando os dois entraram.
          “Vou comer o porco grelhado no molho de maçãs e purê de batatas,” disse o primeiro homem.
          “Não está pronto ainda.”
          “Por que diabos você coloca isto no cardápio, então?”
          “Isso é para a janta,”, George explicou. “Você pode comer isso às seis horas.”
          George olhou para o relógio na parede atrás do balcão.
          “São cinco horas.”
          “O relógio diz cinco horas e vinte minutos,” disse o segundo homem.
          “Quase vinte minutos.”
          “Ora, para os diabos com o relógio”, o primeiro homem disse. “O que
você tem aqui para mastigar?”
          “Eu posso fazer qualquer tipo de sanduíches,” George disse. “Vocês podem comer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.”
          “Quero croquetes de frango com ervilhas verdes e creme apimentado, e purê de batatas.”
          “Isto é para a janta.”
          “Tudo o que nós queremos é para jantar, certo? É assim que vocês trabalham aqui.”
          “Eu posso oferecer a vocês presunto e ovos, bacon e ovos, fígado – “
          “Escolho presunto e ovos,” disse o homem de nome Al. Vestia um chapéu escuro e uma casaca negra com botões, cruzando o peito. Sua face era pequena e branca, seus lábios finos. Usava cachecol de seda e luvas.
          “Dê-me bacon e ovos,” disse o outro homem. Ele era quase do mesmo tamanho de Al. Rostos bem diferenciados, mas vestidos quase idênticos. Os dois com sobrecasacas muito pequenas para cada um. Sentavam-se inclinados para a frente, com os cotovelos no balcão.
          “Tem alguma coisa para beber?” Al perguntou.
          “Cerveja clara, refris, pinga de gengibre,” disse George.
          “Eu perguntei se você tem alguma coisa para beber?”
          “Apenas estes que eu disse.”
          “Esta é uma cidade quente,” disse o outro. “Como eles chamam aqui?”
          “Do Alto.”
          “Já ouviu dizer daqui?” Al pergunta ao amigo.
          “Não,” responde o amigo.
          “Sabe o que eles fazem nas noites?” Al perguntou.
          “Eles comem a janta,” seu amigo disse. “Todos vêm aqui e manjam uma grande janta.”
          “Só é,” disse George.
          “Então você acha que é isso mesmo?” Al pergunta a George.
          “Com certeza.”
          “Você é bem espertinho, não é verdade?”
          “Com certeza,” disse George.
          “Bem, você não é,” disse o outro pequeno homem. “Ele é, Al?”
          “Ele é estúpido,” disse Al. Ele se volta para Nick. “Qual é teu nome?”
          “Adams.”
          “Outro menino de ouro,” disse Al. “Ele não é uma gracinha, Max?”
          “A cidade é cheia de espertinhos,” Max disse.
          George pousa as duas bandejas, uma de presunto e ovos, a outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Ele sentou dois pratos de fritas e fechou a portinhola da cozinha.
          “Qual é o teu?” pergunta a Al.
          “Não se lembra?”
          “Presunto e ovos.”
          “Só mais um menino de ouro,” disse Max. Inclinando-se para a frente pega o presunto e ovos. Os dois homens comeram vestindo as luvas. George observava-os a comer.
          “O que é que está olhando?” Max olhava George.
          “Nada.”
          “O inferno que era. Você estava olhando para mim.”
          “Talvez o rapaz tenha feito uma brincadeira, Max,” Al disse.
          George riu.
          “Você não tem que rir,” Max lhe disse. “Você não tem que rir disso, entende?”
          “Tudo bem,” disse George.
          “E agora ele pensa que está tudo bem.” Max se volta para Al. “Ele pensa que está tudo bem. Essa é muito boa.”
          “Ora, mas é um pensador,” Al disse. Eles continuaram comendo.
          “Qual o nome do menino de ouro do outro lado do balcão?” Al perguntou a Max.
          “Ei, meninão,” Max disse a Nick. “Você vai para o outro lado do balcão com o seu amiguinho.”
          “Qual é a idéia?” Nick perguntou.
          “Não existe nenhuma.”
          “É melhor você ir para o outro lado, menino de ouro,” Al disse. Nick foi para trás do balcão.
          “Qual é a idéia?” George perguntou.
          “Não interessa aos teus negócios,” Al disse. “Quem está lá atrás, na cozinha?”
          “O negrão.”
          “Como assim, o negrão?”
          “O negrão cozinheiro.”
          “Mande-o vir para cá.”
          “Qual é a idéia?”
          “Mande-o vir para cá.”
          “Aonde vocês acham que estão?”
          “Nós sabemos muito bem aonde estamos,” disse o homem de nome Max. “Nós parecemos loucos?”
          “Você que fala engraçado,” Al disse. “Pra que diabos você conversa com esses moleques? Ouça,” ele disse para George, “diga ao negrão para vir aqui fora.”
          “O que você vai fazer com ele?”
          “Nada. Use sua cabeça, menino de ouro. O que faríamos com um negrão?”
          George abriu a portinhola de acesso à cozinha. “Sam,” ele chamou. “Venha até aqui rápido.”
          A porta da cozinha abriu e o negrão entrou. “O que foi?” ele perguntou. Os dois homens no balcão deram uma olhada nele.
          “Pois bem, negrão. Você fica bem aí,” Al disse.
          Sam, o negrão, parado em avental, olha para os dois homens sentados ao balcão. “Pois não, senhor,” ele disse. Al desce da cadeira.
          “Vou voltar para a cozinha com o negrão e o menino de ouro aqui,” ele disse. “De volta pra cozinha, negrão. Você vai com ele, menino de ouro.” O pequeno homem andou atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, de volta para a cozinha. Fecha a porta depois que somem. O homem de nome Max sentou-se do lado oposto a George no balcão. Não mirava George, mas o espelho que corria ao longo do balcão. Henry tinha adaptado seu bar antigo para o atual restaurante.
          “Pois bem, menino de ouro,” Max disse, através do espelho, “por que não diz algo?”
          “O que está acontecendo aqui?”
          “Ei, Al,” Max chamou-o, “o menino de ouro quer saber o que está acontecendo aqui.”
          “Por que não conta pra ele?” vinha da cozinha a voz de Al.
          “Sobre o que você acha que é tudo isso?”
          “Eu não sei.”
          “O que você acha?”
          Max olhava através do espelho o tempo todo em que conversava.
          “Eu nem imagino.”
          “Ei, Al, o espertinho disse que nem imagina o que está acontecendo aqui.”
          “Dá para ouvir vocês daqui, entendi,” diz lá de dentro o tal do Al. Ele manteve aberta a portinhola pela qual os pratos chegam da cozinha com uma garrafa de catchup. “Olha aqui, menino de ouro,” ele disse da cozinha para George. “Fique um pouco mais para o meio do bar. E você um pouco mais para a esquerda, Max.” Ele era como um fotógrafo preparando uma foto de grupo.
          “Fale comigo, espertinho,” Max disse. “O que acha que vai acontecer?”
          George não disse nada.
          “Eu te conto,” Max disse. “Viemos assassinar um sueco. Você conhece um sueco grandalhão, de nome Ole Anderson?”
          “Sim.”
          “Todas as noites ele vem aqui para a janta, não vem?”
          “Quando vem.”
          “Nós sabemos de tudo isso, espertinho,” Max disse. “Diga-me sobre outra coisa qualquer. Costuma ir ao cinema?”
          “De vez em quando.”
          “Você deveria ir mais ao cinema. O cinema é bom para um menino de ouro como você.”
          “Por que vão matar Ole Anderson? O que ele já fez contra vocês?”
          “Ele nunca nem teve a chance de fazer nada contra nós. Ele que nunca nem nos viu.”
          “E só vai ver uma única vez,” Al disse da cozinha.
          “Por que matar, então?” George perguntou.
          “Nós vamos assassiná-lo para um amigo. Apenas para agradar a um amigo, menino de ouro.”
          “Cala a boca,” diz da cozinha o tal do Al. “Você fala demais.”
          “Bem, eu preciso manter o menino de ouro aqui interessado. Não preciso, espertinho?”
          “Você fala por demais,” Al disse. “O negrão e o meu espertinho aqui estão interessados por eles mesmos. Tenho os dois amarrados igual duas amiguinhas do convento.”
          “Falou o cara do convento.”
          “Nunca se sabe.”
          “Você fez convento kosher. É num desses que você esteve.”
          George olha para o relógio.
          “Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se eles continuarem depois disso, você diz que vai lá atrás e cozinhar você mesmo. Entendeu até aqui, espertinho?”
          “Tudo bem,” George disse. “O que vão fazer conosco depois de acabar?”
          “Isso vai depender,” Max disse. “É uma daquelas coisas que só se sabe na hora.”
          George olha para o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu. Um taxista entrou.
          “Olá, George,” ele disse. “Já está pronto o jantar?”
          “Sam sumiu,” George disse. “Deve voltar daqui a uma meia hora.”
          “É melhor pegar a pista,” o motorista disse. George olhou para o relógio. Já eram vinte minutos depois das seis.
          “Isso foi bonito, menino de ouro,” Max disse. “Você é o perfeito cavalheiro do dia a dia.”
          “Ele sabia que eu ia explodir sua cabeça,” disse o tal do Al, lá da cozinha.
          “Não,” disse Max. “Não foi assim. O menino de ouro é educado. É um rapaz educado. Gosto dele.”
          Às seis e cinqüenta e cinco George disse: “Ele não vem.”
          Outras duas pessoas estiveram na lanchonete. E uma vez só George teve de entrar na cozinha e preparar um sanduíche com presunto-e-ovos “para viagem” que um homem queria levar consigo. Dentro da cozinha, viu Al, seu chapéu escuro levantado, sentado numa cadeira ao lado da janelinha com a boca de uma espingarda de cano serrado à espera, ao seu lado. Nick e o cozinheiro estavam de costas um para o outro no canto, uma toalha amarrando cada boca. George cozinha o sanduíche, embrulha num papel oleoso, para viagem numa sacola, trouxe para a frente, e o homem pagou pelo lanche e foi embora.
          “O menino de ouro faz mesmo de tudo,” disse Max. “Sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria qualquer garotinha se sentir uma boa esposa, meninão.”
          “Acha mesmo?” George disse. “Seu amigo, Ole Anderson, não parece que vai vir, não.”
          “Daremos dez minutos a ele,” disse Max.
          Max olhava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois, mais cinco minutos.
          “Vamos embora, Al,” disse Max. “Melhor nós irmos. Ele não vem.”
          “Melhor lhe darmos cinco minutos,” disse o tal do Al, da cozinha.
          Nestes cinco minutos um homem entrou, e George explicou que o cozinheiro estava doente.
          “E você não tem um cozinheiro reserva?” o homem perguntou. “Como você gerencia esta lanchonete?” Ele saiu.
          “Vamos embora, Al”, disse Max.
          “E os dois espertinhos e o negrão?”
          “Eles estão bem.”
          “Você acha mesmo?”
          “Claro. Nós já passamos por isso.”
          “Eu não gosto disso,” disse Al. “É bobeiragem. Você fala demais.”
          “Ora, mas que diabos,” disse Max. “Nós temos que deixá-los interessados, não temos?”
          “Você fala demais, sempre assim,” Al disse. Ele voltou da cozinha. Os canos serrados da espingarda fazia uma pequena saliência sobre o peito de sua apertada sobrecasaca. Ele ajustou a casaca com as mãos que ainda vestiam luvas.
          “Até mais, menino de ouro,” ele disse a George. “Você tem muita sorte.”
          “Isso é uma verdade,” disse Max. “Você deveria tentar apostar nos cavalos, meninão.”
          Os dois saíram porta afora. George observava-os, através do espelho, passando o arco de luz cruzando a rua. Com suas casacas apertadas e chapéus escuros os dois pareciam uma trupe de atores itinerantes. George foi para trás, atravessando a portinhola sanfonada, dentro da cozinha desamarrou Nick e o cozinheiro.
          “Nunca mais quero isso,” disse Sam, o cozinheiro. “Eu não quero nunca mais nada disso.”
          Nick ficou de pé. Ele nunca tinha tido uma toalha dentro da boca, antes desta vez.
          “Diga,” disse ele. “Mas com que diabos?” Ele estava tentando entender a situação.
          “Vieram aqui para matar Ole Anderson,” George disse. “Iam atirar nele assim que viesse comer.”
          “Ole Anderson?”
          “Com certeza.”
          O cozinheiro sentia os cantos de sua boca com seus dedos.
          “Eles foram embora mesmo?” ele perguntou.
          “Sim,” disse George. “Foram embora agora.”
          “Eu não gosto disso,” disse o cozinheiro. “Eu não gosto de nada disso mesmo.”
          “Olha,” George disse a Nick. “É melhor irmos ver Ole Anderson.”
          “Tudo bem.”
          “É melhor vocês não terem nada que ver com isso,” Sam, o cozinheiro, disse. “É melhor ficarem bem longe disso.”
          “Não vá se você não quiser,” George disse.
          “Se envolver nisso não vai levar vocês a lugar nenhum,” o cozinheiro disse.           “Fiquem fora disso.”
          “Eu irei vê-lo,” Nick disse a George. “Aonde ele mora?”
          O cozinheiro se virou.
          “Rapazinhos sempre sabem o que querem fazer,” ele disse.
          “Ele mora na sobre-loja do Hirsch,” George disse a Nick.
          “Vou até lá.”
          Fora, o arco de luz brilhava através dos galhos nus de uma árvore. Nick andou rua acima, seguia os trilhos quando virou a rua lateral no arco de luz seguinte. Três casas acima, naquela rua, ficava a sobre-loja do Hirsch. Nick subiu dois andares e tocou a campainha. Uma mulher veio à porta.
          “Ole Anderson está?”
          “Você quer vê-lo?”
          “Sim, se ele estiver.”
          Nick seguiu a mulher em mais um lance de escadas e até o final do corredor. Ela bateu na porta.
          “Quem bate?”
          “É alguém que veio vê-lo, Sr. Anderson,” disse a mulher.
          “Eu sou Nick Adams”
          “Entre.”
          Nick abriu a porta e adentrou a sala. Ole Andreson estava deitado na cama, completamente vestido. Ele já tinha sido premiado lutador peso-pesado e estava há muito na cama. Pousava a cabeça em dois travesseiros. Ele não olhou para Nick.
          “O que foi?” ele perguntou.
          “Eu estava no Henry,” Nick disse, “ e dois companheiros entraram e me amarraram e ao cozinheiro, dizendo que tinham vindo para assassiná-lo.
Soou como uma brincadeira quando ele disse. Ole Anderson nada disse.
          “Eles nos colocaram na cozinha,” Nick continuou. “Eles iam atirar em você assim que entrasse para comer.”
          Ole Anderson olhava a parede, nada disse.
          “George achou melhor que eu viesse, e lhe contasse o que aconteceu.”
          “Não há nada que eu possa fazer sobre o que aconteceu,” Ole Anderson disse.
          “Posso lhe dizer como eles eram.”
          “Eu não quero saber como eles eram,” disse Ole Anderson. Ele olhava a parede. “Obrigado por vir me contar.”
          “Não tem de quê.”
          Nick olhou para o homenzarrão deitado na cama.
          “Não quer que eu vá e chame a polícia?”
          “Não,” Ole Anderson disse. “Isso não faria nada de bom.”
          “Não há algo que eu possa fazer?”
          “Não. Não há nada a fazer.”
          “Talvez fosse só um blefe.”
          “Não. Não foi só um blefe.”
          Ole Anderson rolou-se para perto da parede.
          “A única coisa é que,” ele disse, falava enquanto se aproximava da parede, “eu só não consigo me convencer a sair. Estive aqui dentro o dia todo.”
          “Você não poderia sair da cidade?”
          “Não,” Ole Andreson disse. “Eu estou cheio dessa correria toda por aí.”
Ele olhava a parede. “Não há mais nada a fazer, agora.”
          “Você não poderia consertar isso de algum jeito?”
          “Não. Eu venci no erro.” Ele falou com a mesma voz plana. “Não há nada a fazer. Daqui a algum tempo, eu consigo sair.”
          “É melhor eu voltar e ir ver George,” Nick disse.
          “Até mais,” disse Ole Anderson. Ele não olhou para Nick. “Obrigado por ter vindo.”
          Nick saiu. Enquanto fechava a porta, viu uma vez mais Ole Anderson completamente vestido, deitado numa cama olhando para uma parede.
          “Ele esteve aí dentro o dia inteiro,” disse lá embaixo a senhoria. “Acho que não se sentia bem. Disse a ele: ‘Sr. Anderson, o senhor devia sair, dar uma andada em um dia lindo de Outono igual hoje’, mas ele não ficou com vontade.”
          “Ele não quer sair.”
          “Sinto muito que ele não esteja bem,” a mulher disse. “Ele é um homem terrivelmente bom. Ele esteve nos ringues, você sabe.”
          “Sei, sim.”
          “Você nunca adivinharia, não fosse pelo jeito que o rosto ficou,” a mulher disse. Eles falavam parados na frente da porta da rua. “Ele é tão educado.”
          “Bem, boa noite, Sra. Hirsch,” disse Nick.
          “Eu não sou a Sra. Hirsch,” a mulher disse. “Ela é a dona do lugar. Eu apenas cuido daqui para ela. Eu sou a Sra. Bell.”
          “Bem, boa noite, Sra. Bell,” disse Nick.
          “Boa noite,” a mulher disse.
          Nick andou a rua escura até a esquina embaixo do arco de luz, e então junto dos trilhos até a cantina do Henry. George estava dentro, atrás do balcão.
          “Encontrou Ole?”
          “Sim,” disse Nick. “Ele está em seu apartamento e não vai sair.”
          O cozinheiro abriu a porta da copa quando ouviu a voz de Nick.
          “Eu não estou ouvindo isso,” ele disse e fechou a porta.
          “Contou-lhe o que aconteceu?” George perguntou.
          “Com certeza. Contei, mas ele sabe sobre o que é tudo isso.”
          “O que ele vai fazer?”
          “Nada.”
          “Irão matá-lo.”
          “Eu acho que sim.”
          “Ele deve ter se envolvido em alguma coisa em Chicago.”
          “Também acho,” disse Nick.
          “É uma coisa dos diabos!”
          “É uma coisa terrível,” disse Nick.
          Depois disseram mais nada. George abaixou-se procurando uma toalha e limpou o balcão.
          “Eu me pergunto o que ele fez?” Nick disse.
          “Deu um cruzado duplo em alguém. Por isso que vieram matar.”
          “Eu vou sair dessa cidade,” Nick disse.
          “Sim,” disse George. “Esta é uma coisa esperta de se fazer.”
          “Eu não aguento pensar nele, esperando no quarto e sabendo o que vai acontecer. É muito terrível isso.”
          “Bem,” disse George, “então é melhor parar de pensar nisso.”

 

hemingway-guima

          direto de Do Alto, Illinois, EUA, de volta ao Brëzyl, para oferecer um autor tupiniquim ao mundo que lê, pensa, fuma & come em inglês do tio Sam, o Agente Laranja, inglês assemelhante ao do bardo de Stratford-Lá-Do-Alto-Do-Rio-Avon. o caso de hoje é nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, no vigésimo sétimo dia de Junho de 1908: João Guimarães Rosa, humanista, médico, diplomata &, por fim mas desde cedo, escritor – diga-se rapidamente: um dos poucos críveis brasileiros com know-how para o Nobel em Literatura. a minha versão em inglês deve ser a 300ª deste texto; enfim: vamos lá!

          porque Guimarães Rosa escreve como se estivesse dentro de sua pequena cidade natal, falando de igual para igual com todo e qualquer cidadão do mundo. Guimarães Rosa é universal, sendo particular. foi indicado para a Academia Brasileira de Letras em 1963, & postergou sua posse por quase 4 anos, tremetemendo o rótulo de “imortal” – tremeu até três dias depois da posse da cadeira de número dois, quando foi pimba!, no átrio esquerdo do miocárdio!, lá se vai mais um João!

          Guimarães Rosa ainda menino vai com a família para Belo Horizonte, depois para São João Del Rey, mais uma vez de volta à capital mineira: cursa Medicina, na Universidade Federal de Belo Horizonte, aos 16 anos. no mesmo ano em que se forma, 1930, também contrai o primeiro matrimônio, com Ligia Cabral Penna – com quem terá duas filhas. depois de formado, passa algum tempo em Itaguara, depois em Barbacena, e, quando chega a Revolução Constitucionalista de 1932, alista-se primeiro como voluntário à Força Pública e depois presta a prova, sendo admitido como doutor da infantaria do 9o batalhão. Guimarães já tinha visto muito do Sertão. do Cangaço. do Banditismo Por Necessidade. a este tempo de itinerância o escritor recordará como período vital à forma & sentido de sua escrita.

          em 1934, mais um concurso lhe permite adentrar outra carreia, agora a diplomática, onde permanecerá como funcionário público até o fim da vida: em 1938 está assistente do consulado em Hamburgo, na Alemanha, encarregado da seção de vistos em passaportes, da assistência aos concidadãos na terra do Führer, de representar o embaixador & de manter contatos com autoridades ou personalidades em cidades onde não está situada a embaixada, o que fomenta relações cultura-comerciais. para Guimarães Rosa, o trabalho de embaixada é diferente de tudo o que já tinha tentado – é aí que conhece Aracy de Carvalho, funcionária da embaixada que vai entrar para a História como a única mulher (& o segundo cidadão brasileño) a figurar no Jardim dos Justos Entre as Nações, memorial em Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto. Casa-se com Aracy em 1940.

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          Guima começa escrevendo poesia -anonimamente, codinome “Aviator” -para um concurso da ABL (premiado em 1934!), mas seu único volume de versos só chega ao público postumamente, em 1997, pela Editora Nova Fronteira, na coleção “Magma”. Guima presta um outro concurso, oferecimento da Livraria José Olympio, em 1938, onde propõe “Sagarana” quase como o conhecemos da publicação de 1946 (excluídos três contos, & de novo pelo codinome “Aviator”): escrito dos seus anos loucos do período 1926~1931. a publicação só vem em 1946, depois de várias revisões, & com ela, Guimarães Rosa inicia sua travessia no meio literário. neste primeiro trabalho já se faz notar o regionalismo enquanto experiência universal. entremeado ao trabalho institucional, que lhe põe novamente em contato com as particularidades de cada uma das entranhas do país, continua sua escrita.

          publica em 1956 “Corpo de baile” (7 contos um pouco mais longos, quase novelas), & algumas semanas depois, o inegüalável “Grande Sertão: Veredas”. uma travessia: dois tomos da mesma única & grande história de um Universo (na verdade, em três tomos, porque o “Corpo de bale” já tinha saído em dois livros, na sua primeira edição, quase 400 páginas). o pano de fundo onde acontece a ação, no entanto, é o mesmo etéreo espaço universal, mas “Veredas” é estrelado pelo jagunço Riobaldo, & no outro livro, vários personagens protagonistas em seus afazeres particulares, entrecortados simultaneamente.

          para fechar o caleidoscópio, “Primeiras estórias” (com 21 contos curtos) chega em 1962, & revela-se novamente uma guinada na escrivinhagem de Guima: porque, se no alto de suas mais de 500 páginas “Grande Sertão: Veredas” é um grande parágrafo, sem divisões de capítulos, contado vivido através da fala jagunça & simples de Riobaldo ao seu interlocutor, nunca nominado mas sempre referenciado, as “Primeiras estórias” é um volume denso, pouco mais de 150 folhas, às vezes em um narrador personagem, outras vezes com um narrador em 3a Pessoa: onde a forja de palavras chega ao seu ápice, o que envolve um complicado processo de origens das palavras, nos quase doze idiomas em que era fluente o autor. mais um ápice, lá de Do Alto, também.

          “Grande Sertão: Veredas” é seu máximo, digno a Thomas Mann & “A montanha mágica”, James Joyce & “Ulisses”, Homero & a “Ilíada”, livros em que o significado está sempre em rotação, onde cada experiência de leitura é uma nova experiência porque a experiência de vida está necessariamente ligada à experiência de texto. tijolos essenciais na construção do repertório literário, densos em sua prosa igual a uma boa poesia, que carrega a densidade nas palavras, soltas & vivas. uma prosa ainda, e ainda igual à necessidade do poeta: comunicar; culturalmente; socialmente; visceralmente. belo, belo: belo – – – infinitamente.

“A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa. in: “Primeiras estórias”. 4a. impressão, Editora Nova Fronteira, RJ, 2005.

          Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente —minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
          Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o rem ador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
          Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. No sso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
          Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
          Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda —descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
          No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao – longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
          Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
          A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta – de – ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável.
          Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
          Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
          Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda- sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
          Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinhaantecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
          Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio- rio – rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
          Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
          Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
          Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

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at the river’s third margin, by João Guimarães Rosa. Translate by r.l.almeida

          Our father, he were an under compliance, systematic, positive man; and has been ever since tiny kid and boy, such as the testify of a bunch of good old sensitive folks, when I have inquired for this info. From wich I myself remember, he did not looked like the sloppiest neither the saddest person, within our circle. Only very quietful. It was our mother who reign, who was with us in the everydays chides – – – my sister, my brother, and myself. Happened that, one certain day, our father indented himself a canoe.
          It was serious. Because he asked for a special canoe, a one with planthymenian woods, and small, severius with just a smidge of wood on the aftersails, it was meant to fit only the oarsman. Indeed it was personalized from the beginning, choosed strong and fit to arches, thought to last over the seas for twenty maybe thirty years. Our mother, she swoared against his deeds. Could it be that he, no fool in such domains, was about to go huntings and fishings? And our father, no thing he said. Our home, there in time, was still so close to that river, not even a quarter mile from our house: and then the river, it begun its large extension, deep, mute as ever. Broad and ample, could not be sawn the other reach even if you tried. And forget I can not, from the day the canoe finally was ready.
Without happiness nor careful, our father he shove his hat on and shoar
ed us a goodbye. He did not said anything else, he did not make a bag, neither a case, and he did not gave us any recommendation, surely. Our mother, we thought she was going mad, but there she stood pale and white, chewed them lips and then in simple lines: – – – “U go, you shall stay, never come back!”. Our father, he retarded his answer. Sent me some coverage eyes, nodding me to step aboard, for only a few steps. I have feared my mother’s rage, but obeyed, once and indeed. The way the things passed by, that encouraged me, I have carved my way and ask him: – – – “Dad, can you carry me too, in that canoon of yours?” He glanced me back a look, gave me his blessings, in the end it send me back. I have pretended to be in it, made a U-turn, crouched inside the woods, wanting to see. Our father, he entered his canoe and untied it, went on to roaring. And the canoe went away – – – it’s shadow always the same, likewise an alligater, narrow wide.
Our father, he never came back. He did not went any where. Was only playing as if he was going to be in there, among rivers, in between the middles, always aboard his canoe, from it he never departed, never more. The strangeness in this story stirred all of the people. That what can not be, it was happening. Our relatives and
neighbors and acquaintancèes got together, forged a joint council.
Our mother, she was so ashamed, beared herself very
guilelessness; and that is why they all thought of our dad what nobody wanted to say: lunaticness. There where a few who thought it was payment for some promisse; or it may be, that our father, who knows, fearing some ugly disease, whatever it may, Hansen’s, he was leaving for another path he should walk by, near and away from his family. And then it was the news through the voices of certain persons – – – the passing bys, the riverines and even the people living in the shelters across our lines – – – descrybing how our father, he was so sure about not to step the ground, not in here, neither in there, not by days, neither by nites, that’s the way he was across the river, alone and unattached. And then, it happened, our mother and our families, ashured: it would happen that his food, hidden inside the canoe, it would decay; and perhaps, he would disengage his canoe and travel for the far aways, into the ever, and this it was what it was the more certain, or perhaps he would regret, once and for all, back home.
In this no wrong can I be. I myself gave me the task to bring him, every single day, portions of burglarized food: an idea I have felt, in the very first nite, when our people lit watchfires along the
rears of the river, thus enlightening the prayers and the summons. Then, in the following, I have showed myself, with some brown sugar, loaf of bread, bananas in a bunch. I could see our father already passed one hour, so irksome to pass; alike alone, he into the fars, sat at the back of his canoe, hanged over the smooth river. He saw me, did not roared towards, did not saluted. I revealed him what to eat, placing it on an empty stone, safe from the beast intervention and dry from the rain and the mist. Is this, what I did, and did again, always, by and into the ages. Surprised me a little later: my mother, she knew this job of mine, disguising herself to not to know about it; herself she was spearing, making easy, the leftovers, for my success. Our mother, she so much not demonstrate her self.
Sent a uncle of ours, her brother, to aid into farm and bussines. Sent a tutor, to we, the kids. Entrusted the vicar to one day revet, at the beach in the margin, to cast away and to supplicate that
our father could give up his duty of so sad mulishness. And then one time when, she herself had arranged to, just for the scary, the two soldiers passed by. Everything it had not worked for anything. Our father just wandered along, sometimes in sight and other times waterish and scattered, he crossing his canoe, never allowing no one ever to be near or to be heard. Even in the time when, not so long ago, the people from the news, they have came in big large boats saying they would shot him, they did not won: our father simply vanishes into other plains, stern his canoe onto the marshes, lasting long leagues of it, among grass an lawn, he alone has the know how to, kilometers away, into the darkness of that.
We had to get used to that. Well, for the sake of honey and beans: with that, we never became used with, if I may tell the truth. I can say this for myself, because it never really mattered if I was willing for or not, I could only be found when I was with my father: a matter that torn away my thoughts. It was cruelty, because we could not understand, in any comprehensive way, how could he manage it. Day in, nite out, it may be raining or may be sun, heat, fog,
even when those cold and awful winter mornings, no nothing, only his old hat on the head, the weeks passing by, and months, and the years and you do not know what it is to make a living. He never set foot any of the margins, neither on the islands or on the gulfs from the river, he never more stand over the ground or the grass. It was certain, at least, that, only while he slept, that’s when he parks his canoe, somewhere outlining the borders, in a glimpse. But he did not set fires on the beach, also did not had artificial lights, never more stoke another match. What he could eat, this also was only a smidge of: from the piles he got from us, among the roots from the trees, or inside a stone in the cliffs, he used to take very few from it, not the enough.
How could not got sick? And the ever strong arms, always hovering the cano
e, in resistance, even when the tides were high, think to cross up, that’s when everything is more dangerous, those bodies from the beasts and also the branches from the trees that go down – – – to surprise to stumble. And he never spoke no more word, to no one. Us, we too, we spoke about him no more. Only in thoughts. No, our father could not be forgotten; and, if, when rapidly forgotten, in our pretends, it was only for a new awake, sudden, in a memoir, along side other interesting twists.My sister got married; our mother wanted no party. We were with him in thinking, in the days we got a more delicious supper; just alike, in the nites we were sacked, in those helplessness nites of lots of rain, cold and bulky, our father only his hand and a mug to empty his canoe from the water of the stormy winds. There where times when, among our friends someone said I was every day much more alike our father. But I knew that now he wore long hair, bear, with long finger nails, insane and thin, going brown with the sun and very hairy, like a beast, virtually naked, even with all the clothing provided by us every now and then.
He did not care about us anymore; had no more affection? But, by affection indeed, and respect, whenever I got a compliment, due to some of my fine procedure, I always answered: – – – “It was my father who taught me s
o…”; and this was not so certain, precise; but, it was a lie meant to be a true. And the thing is, if he did not remember, and if he did not care about us anyways, why, then, to live up in the river, or perhaps down the river, no any other place, away, inside the untraceable? Only he can answer. But my sister had a little boy, and she herself put in her minds go and show him his grandson. Everybody, we went, standing in the cliff, it was a beautiful day, my sister wears a white dress, the wedding dress, she lifts her little kid up within her arms, and her husband holds, protecting them all, the sun umbrella. All of us, we all called him, waited for him. Our father, he did not showed up. My sister cried, we all cried in there, among in embrace.
My sister moved, and her husband, way yonders. And then my brother made his mind and went, to a city. The times were in a change,
that is the slow speedness of times. And then our mother, she also went away, once and for all, to live with my sister, she was deeply aged. I rested in here, a remain. I would never want marry. I have remained, along with the luggages of live. Our father needed me, I am sure – – – in his wander along the quiet river – – – without ever agreeing about what he chosed to do. It happened once, when I really wanted to know, and went steady inquiring, to me said someone as someone told: as the story has it our father, only once, had revealed an explanation, and it was to the man who set his canoe. Only, for now, this man was already deceased, so no one knew, nor could have a slight remembrance, no thing, no more. Only senseless conversations, fake, just like, with the river’s early tides, in the beginning, arose all those never stopping rains, everybody feared the apocalipse, saying: it was our father a chosen one like Noah, and that, therefore, is because he advanced with his canoe; just now I can barely interremember. My father, I could not maligne him. And already signing my first early grey hairs.
I am a man of constant sorrow and sad spoke. What gave me so much, many guilt?
If my father, always marking his absence: and the river-river-river, the river endless stepping. I suffered the early elderness – this life was only about decayness. I myself had aches, anxieties, in my bottoms, fatigue, fringes of rheumatism. What about him? And why? He should be in a terrible pain. He was so old, could not avoid, it will happen today or tomorrow, a weak in his strength, the canoe goes overturned, perhaps floating no directions, onto the mood of the river, a few more hours he will crash, topsy, turvy, down the waterfall, who is mean, filled with boil and death. That ached me heart. Because he was in there, not in my companion. I do not know why but i am guilty, maybe an unsolved grief, from my inners. Only if he knew – – – if the things were different. And I begun to think about it.
          Without any preparation. Am i crazy? No. In our home, the word crazy it was not spelled, has not ever been spelled, in all those years, no one was claimed crazy. No one is crazy. Or, may be, we all are. What I did, just went there. I carried a handtissue, may this wave carry me more. I was my own master. Waited. When finally, he appeared, in here but still in there, so shadow. There he was, sitting by the rear. There he was, in a scream. Called, like fourty times. And saying, what was more urgent for me, sweared and declared, I carried some strength to my voice: – – -“Dad, you have became old, already worked what you should…For now, you may come here, there is no more need to. . .You may come here, and I, right now, whenever you feel like it, to both our wishes, I can replace your spot, yours, in the canoon! . . .” And by saying this, my heart begun a more confortable beat.
And he listened to me. Stood over his feets. Man
ished his oar hover the waters, heading towards me, agreeded. And I was shaking, frightened, so suddenly: because, before, he raised his arms and wave me a salute within his face – – – the first, after so many years that passed by! And I simply could not. . . In a fringe, horrified, I have runned away, to hide, in a foolish behavior. It was because he seemed to me: as sent way yonders. And here I am asking, asking, asking for forgiveness.
I have suffered a severe cold of the fears, f
ell ill. I know that no one else ever listened from him. Am I still a man, now that I have weakened? I am the one who was not, the one that will keeps his mouth shut. I know that now it’s too late, and I fear my life shall soon be ceased, a shallow plain. But, only, if you may, for my obituary, take me, place me inside a shallow and petty little canoe, that will
never stops, with wide spreads: and, I, down the river, up the river, river run – – – the river.

 

14.xicara

          fechando mais um “Domando os dragões pelo lombo”, diz aí se não é este o nome dessa sessão!!

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Dois poemas, \\|// duas traduções

“o surrealismo é destrutivo, 
 mas ele destrói somente      
o que limita a nossa visão”
                                                                 Salvador Dali      

          taí, ainda não tinha começado um artigo com citação. por isso que falo sempre: esta seção tinha que se chamar “Dançando no lombo das gigantes”. eita, teje feito!

          minha apocalíptica & apopléctica bloguesfera nossa de cada dia, salve, salve!, mais um episódio do “Duas tradussas” no ar, totalmente inspirado pela cobiça & conspiração que assopram os ares andinos, a vã cobiça & a estúpida conspiração disposta a calar mais uma vez o sonho de unidade de todo um continente de Simón Bolívar!

          hoje, a proposta é brincar de poesia, lendo & traduzindo do Inglês para o Português, & também trilhando & vagando da língua de Camões para a língua de Shakespirito, e um detalhe ainda inédito nestas páginas digitais: uma versão em Alemão! nos calções preto&branco da bandeira do estado da capital cinza, cinza, marginal Tietê de São Paulo: Roberto Piva; nos calções das flâmulas listradas & estreladas em vermelho, azul e branco do tio Sam, ou o Agente Laranja: Kenneth Rexoth. os dois, com uma lata de cerveja na mão, assistem à partida de bocha & papeiam animadamente, no mesmo canto esquerdo do ringue.

          porque Roberto Lopes Piva é o nome deste paulistano, nascido em 25 de Setembro de 1937. o material impresso pelo Brasil referente à Renascença de São Francisco, à contracultura que assolou os Estados Unidos a partir da década de 1950 em todas as frentes (midiáticas & as demais), veio pelas traduções de Piva, Claudio Willer, Eduardo Bueno & outros gurus do pop. Do xamanismo ao zen budismo, as imagens paralelas entre literatura brasileira & literatura mundial nunca ecoaram tanto quanto nesse conturbado período da História.

          nos EUA, a figura crucial do editor que comprou muita briga para publicar trabalhos diferentes do que circulavam pelas prateleiras, como “O uivo&outros poemas” (1956), foi o também escritor Lawrence Ferlinghetti. em terras brasilis, o movimento pelo formato não-discursivo foi tornado concreto graças ao suor da hiperbólica figura de Massao Ohno, que em cinco décadas de vida pública imprimiu pela sua editora cerca de 800 obras, a maior parte delas exímias pedradas da literatura tupiniquim da segunda metade do século XX.

          o primeiro livro de Piva é de 1963: “Paranóia” contém 20 poesias que retratam o cotidiano da maior cidade da América do Sul. literalmente retrata: os versos ecoam os teatros, as estátuas, os viadutos, junto com fotos de página inteira deste grande personagem que é a cidade. quando foi lançado, o livro causou furor pelo conteúdo & pela forma: hoje, é ítem de colecionador ou de peças de museus, podendo ser acessado no espaço independente dedicado ao acervo pessoal do autor, na biblioteca da Fefê Léche da USP, ou então, na velha e boa Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

matéria mais do que obrigatória, para entender tradução e Roberto Piva, em:
https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/57055

          prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo de línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys, igual num filme holandês: isso é a vida & a poesia de Roberto Piva, que vivia como escrevia. as influências remetem aos beats dos Estados Unidos, & sempre é bom lembrar que aqueles são beats não por estarem “batidos”, mas sim por questões de “beatitude”: ser beat é acreditar!

          o poema que trouxe para a experiência de hoje, não sei onde consta a primeira publicação mas sei que não está no “Paranóia”. lembro que estava ainda na faculdade quando descobri Piva, e fiquei furioso com o fato de um cara que escreveu tanto sobre o que outros escreveram, traduzindo piamente cada livro, cada reportagem, fazendo chegar a mensagem dos beats até os canarinhos, e quão pouco se falava dele lá fora. o problema é o código em que ele se expressa, & o meu também & também o seu que nos lê: o idioma Português! ninguém além dos falantes de Português dá á mínima para a última flor do Lácio. talvez se Piva tivesse nascido em algum país falante do Espanhol ou suas corruptelas, talvez ele fosse lido: Silvina Ocampo está no mesmo patamar que Virginia Woolf; Jorge Luis Borges é levado tão a sério quanto Albert Camus; a única exceção ao nosso idioma parecem ser José Saramago (Nobel em 1998), e Fernando Pessoa, que, por exemplo, extrapola quaisquer comparações a James Joyce, Ezra Pound, Marcel Proust & Walt Whitman. devido à baixa ocorrência em outros idiomas, este “Poema XVI” foi uma das minhas primeiras experiências com tradução de poesia. junto com o “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira – mas o Bandeira tem uns 15 tradutores para cada um dos idiomas que são considerados sérios, dentro das ONU. o que salta aos olhos é como o poema ocupa a folha, & é esse “desenho” que tentei reproduzir, nas traduções para Inglês & Alemão: a palavra tem um tempo para sua enunciação & posterior apreciação, & a espacialidade na folha é a chave para decodificar este tempo. transcrevo o poema em linguagem de máquina & proponho uma solução imagética, logo após cada uma das transcrições:


Poema XVI – Roberto Piva

abandonar tudo.

conhecer praias. amores novos.
poesia em
cascatas floridas com
aranhas azuladas nas samambaias.

todo trabalhador é escravo.
toda autoridade é cômica. fazer da anarquia
um método & modo de vida.

estradas.

bocas perfumadas. cervejas
tomadas nos acampamentos.

Sonhar Alto.

 

piva-poemaXVI-ptbr

 

english translation: Poem XVI
abandon everything.

sands to known. brand new loves.
poetry in
flowery cascades with
blue spideys that hover the bromelias.

every worker is slave.
every authority is comic. turn the anarchy
a manner & way of life.

roads.

smely smiles. to have severals beers
and drink them in a camp.

Dream High.

 

piva-poemaXVI-engb

 

deutsche übersetzen: Gedicht XVI

alles verlassen.

strand wissen. sehr neue lieben.
poesie auf
blumenden wasserfäller mit
blauen spinnen da drinnen des grünnenkräuter.

jede arbeiter ist sklave.
jede autörität ist komischer. tun die anarchie
lebens -methode & -weise.

wege.

duftender münder. bierrre
ins läger getrunken.

Laut Träumen.

 

piva-poemaXVI-deutsch

 

          a segunda parte da matéria de hoje é dedicada a Ken Rexroth, atendendo a pedidos de um ouvinte lá dos interior paulista, terra da laranja, da cana & aonde o Aedes Aegypth vôa livre, leve, solto & gordo, impávido colosso.

          Kenneth Charles Marion Rexroth é nascido em 22 de Dezembro de 1905, em South Bend, Indiana. foi poeta, professor de universidade, jornalista & tradutor da literatura de formação chinesa. falando em formação, Rexroth vem de infância pobre. perde os pais bem cedo, aos 14 anos, quando se muda para a casa de uma tia em Chicago. depois de concluir os estudos pelo Instituto de Artes de Chicago, faz viagens caroneando pelos EUA, até arranjar trabalho como estivador & sair para conhecer o mundo – notadamente o México, a América do Sul, também Paris, por uma semana, quando pôde se aproximar dos surrealistas & até mesmo conhecer Tristan Tzara. na década de 1930 consegue se fixar em São Franscico: já tem trabalho fixo como repórter pelo San Francisco Chronicle, & sua prosa com foco em assuntos sociais, ecologia, política & cultura é ao mesmo tempo incitação & participação, testemunha & história do processo de formação das contraculturas hippie & beat: fazer amor & não a guerra, o inconsciente, improvisação, espontaneidade, doar à caridade tudo o que tem, jazz, drogas. era a consciência de uma Nova Visão (termo emprestado de WB Yeats), para contrariar os ideais conservadores & formais da Academia.

também lendo:
http://www.culturapara.art.br/opoema/opoema.htm
https://en.wikipedia.org/wiki/National_Film_Registry#Films

          durante a década de 40 traduz Li Bai & também Tu Fu; na década de 1950 faz leituras públicas junto com Allen Ginsberg & Phillip Lamantia; na década de 1970s, traduz do Chinês “A dinastia Song”, poema epopéico de Li Ch’ing-Chao, & publica uma antologia apenas de poetas chinesas. publica ainda “Os poemas de amor de lady Mariko”, dizendo que os poemas pertencem a uma jovem poeta japonesa, mas mais tarde revela que os versos são seus, o que lhe rendeu muito reconhecimento crítico por ter conseguido transpor verdadeiramente os sentimentos de alguém de outro gênero & de outra cultura. o poema de hoje, “Thou shall not kill” \\|// “Não matar”, foi publicado pela primeira vez em 1955, mas já tinha passado por várias leituras públicas, desde 1944. é um poema longo estruturado em 4 partes, com tema central em tom de denúncia, sobre o abuso das grandes corporações (leia-se: o dinheiro) & as pessoas.


TH0U SH4LL7 N07 K1LL, de Kenneth Rexroth

I
They are murdering all the young men.
For half a century now, every day,
They have hunted them down and killed them.
They are killing them now.
At this minute, all over the world,
They are killing the young men.
They know ten thousand ways to kill them.
Every year they invent new ones.
In the jungles of Africa,
In the marshes of Asia,
In the deserts of Asia,
In the slave pens of Siberia,
In the slums of Europe,
In the nightclubs of America,
The murderers are at work.
They are stoning Stephen,
They are casting him forth from every city in the world.
Under the Welcome sign,
Under the Rotary emblem,
On the highway in the suburbs,
His body lies under the hurling stones.
He was full of faith and power.
He did great wonders among the people.
They could not stand against his wisdom.
They could not bear the spirit with which he spoke.
He cried out in the name
Of the tabernacle of witness in the wilderness.
They were cut to the heart.
They gnashed against him with their teeth.
They cried out with a loud voice.
They stopped their ears.
They ran on him with one accord.
They cast him out of the city and stoned him.
The witnesses laid down their clothes
At the feet of a man whose name was your name —
You.


You are the murderer.
You are killing the young men.
You are broiling Lawrence on his gridiron.
When you demanded he divulge
The hidden treasures of the spirit,
He showed you the poor.
You set your heart against him.
You seized him and bound him with rage.
You roasted him on a slow fire.
His fat dripped and spurted in the flame.
The smell was sweet to your nose.
He cried out,
“I am cooked on this side,
Turn me over and eat,
You
E
at of my flesh.”

You are murdering the young men.
You are shooting Sebastian with arrows.
He kept the faithful steadfast under persecution.
First you shot him with arrows.
Then you beat him with rods.
Then you threw him in a sewer.
You fear nothing more than courage.
You who turn away your eyes
At the bravery of the young men.


You,
The hyena with polished face and bow tie,
In the office of a billion dollar
Corporation devoted to service;
The vulture dripping with carrion,
Carefully and carelessly robed in imported tweeds,
Lecturing on the Age of Abundance;
The jackal in double-breasted gabardine,
Barking by remote control,
In the United Nations;
The vampire bat seated at the couch head,
Notebook in hand, toying with his decerebrator;
The autonomous, ambulatory cancer,
The Superego in a thousand uniforms;
You, the finger man of behemoth,
The murderer of the young men.

II
What happened to Robinson,
Who used to stagger down Eighth Street,
Dizzy with solitary gin?
Where is Masters, who crouched in
His law office for ruinous decades?
Where is Leonard who thought he was
A locomotive? And Lindsay,
Wise as a dove, innocent
As a serpent, where is he?
         Timor mortis conturbat me.

What became of Jim Oppenheim?
Lola Ridge alone in an
Icy furnished room? Orrick Johns,
Hopping into the surf on his
One leg? Elinor Wylie
Who leaped like Kierkegaard?
Sara Teasdale, where is she?
         Timor mortis conturbat me.

Where is George Sterling, that tame fawn?
Phelps Putnam who stole away?
Jack Wheelwright who couldn’t cross the bridge?
Donald Evans with his cane and
Monocle, where is he?
         Timor mortis conturbat me.

John Gould Fletcher who could not
Unbreak his powerful heart?
Bodenheim butchered in stinking
Squalor? Edna Millay who took
Her last straight whiskey? Genevieve
Who loved so much; where is she?
         Timor mortis conturbat me.

Harry who didn’t care at all?
Hart who went back to the sea?
          Timor mortis conturbat me.

Where is Sol Funaroff?
What happened to Potamkin?
Isidor Schneider? Claude McKay?
Countee Cullen? Clarence Weinstock?
Who animates their corpses today?
          Timor mortis conturbat me.

Where is Ezra, that noisy man?
Where is Larsson whose poems were prayers?
Where is Charles Snider, that gentle
Bitter boy? Carnevali,
What became of him?
Carol who was so beautiful, where is she?
          Timor mortis conturbat me.

III
Was their end noble and tragic,
Like the mask of a tyrant?
Like Agamemnon’s secret golden face?
Indeed it was not. Up all night
In the fo’c’sle, bemused and beaten,
Bleeding at the rectum, in his
Pocket a review by the one
Colleague he respected, “If he
Really means what these poems
Pretend to say, he has only
One way out —.” Into the
Hot acrid Caribbean sun,
Into the acrid, transparent,
Smoky sea. Or another, lice in his
Armpits and crotch, garbage littered
On the floor, gray greasy rags on
The bed. “I killed them because they
Were dirty, stinking Communists.
I should get a medal.” Again,
Another, Simenon foretold
His end at a glance. “I dare you
To pull the trigger.” She shut her eyes
And spilled gin over her dress.
The pistol wobbled in his hand.
It took them hours to die.
Another threw herself downstairs,
And broke her back. It took her years.
Two put their heads under water
In the bath and filled their lungs.
Another threw himself under
The traffic of a crowded bridge.
Another, drunk, jumped from a
Balcony and broke her neck.
Another soaked herself in
Gasoline and ran blazing
Into the street and lived on
In custody. One made love
Only once with a beggar woman.
He died years later of syphilis
Of the brain and spine. Fifteen
Years of pain and poverty,
While his mind leaked away.
One tried three times in twenty years
To drown himself. The last time
He succeeded. One turned on the gas
When she had no more food, no more
Money, and only half a lung.
One went up to Harlem, took on
Thirty men, came home and
Cut her throat. One sat up all night
Talking to H.L. Mencken and
Drowned himself in the morning.
How many stopped writing at thirty?
How many went to work for Time?
How many died of prefrontal
Lobotomies in the Communist Party?
How many are lost in the back wards
Of provincial madhouses?
How many on the advice of
Their psychoanalysts, decided
A business career was best after all?
How many are hopeless alcoholics?
René Crevel!
Jacques Rigaud!
Antonin Artaud!
Mayakofsky!
Essenin!
Robert Desnos!
Saint Pol Roux!
Max Jacob!
All over the world
The same disembodied hand
Strikes us down.
Here is a mountain of death.
A hill of heads like the Khans piled up.
The first-born of a century
Slaughtered by Herod.
Three generations of infants
Stuffed down the maw of Moloch.


IV
He is dead.
The bird of Rhiannon.
He is dead.
In the winter of the heart.
He is Dead.
In the canyons of death,
They found him dumb at last,
In the blizzard of lies.
He never spoke again.
He died.
He is dead.
In their antiseptic hands,
He is dead.
The little spellbinder of Cader Idris.
He is dead.
The sparrow of Cardiff.
He is dead.
The canary of Swansea.
Who killed him?
Who killed the bright-headed bird?
You did, you son of a bitch.
You drowned him in your cocktail brain.
He fell down and died in your synthetic heart.
You killed him,
Oppenheimer the Million-Killer,
You killed him,
Einstein the Gray Eminence.
You killed him,
Havanahavana, with your Nobel Prize.
You killed him, General,
Through the proper channels.
You strangled him, Le Mouton,
With your mains étendues.
He confessed in open court to a pince-nezed skull.
You shot him in the back of the head
As he stumbled in the last cellar.
You killed him,
Benign Lady on the postage stamp.
He was found dead at a Liberal Weekly luncheon.
He was found dead on the cutting room floor.
He was found dead at a Time policy conference.
Henry Luce killed him with a telegram to the Pope.
Mademoiselle strangled him with a padded brassiere.
Old Possum sprinkled him with a tea ball.
After the wolves were done, the vaticides
Crawled off with his bowels to their classrooms and quarterlies.
When the news came over the radio
You personally rose up shouting, “Give us Barabbas!”
In your lonely crowd you swept over him.
Your custom-built brogans and your ballet slippers
Pummeled him to death in the gritty street.
You hit him with an album of Hindemith.
You stabbed him with stainless steel by Isamu Noguchi,
He is dead.
He is Dead.
Like Ignacio the bullfighter,
At four o’clock in the afternoon.
At precisely four o’clock.
I too do not want to hear it.
I too do not want to know it.
I want to run into the street,
Shouting, “Remember Vanzetti!”
I want to pour gasoline down your chimneys.
I want to blow up your galleries.
I want to bum down your editorial offices.
I want to slit the bellies of your frigid women.
I want to sink your sailboats and launches.
I want to strangle your children at their finger paintings.
I want to poison your Afghans and poodles.
He is dead, the little drunken cherub.
He is dead,
The effulgent tub thumper.
He is Dead.
The ever living birds are not singing
To the head of Bran.
The sea birds are still
Over Bardsey of Ten Thousand Saints.
The underground men are not singing
On their way to work.
There is a smell of blood
In the smell of the turf smoke.
They have struck him down,
The son of David ap Gwilym.
They have murdered him,
The Baby of Taliessin.
There he lies dead,
By the Iceberg of the United Nations.
There he lies sandbagged,
At the foot of the Statue of Liberty.
The Gulf Stream smells of blood
As it breaks on the sand of Iona
And the blue rocks of Canarvon.
And all the birds of the deep sea rise up
Over the luxury liners and scream,
“You killed him! You killed him.
In your God damned Brooks Brothers suit,
You son of a bitch.”


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NÃ0 M4T4R, tradução de r.l.almeida

I
Assassinam todos os jovens.
Já faz hoje meio século, e todo dia
Os jovens têm sido caçados e abatidos.
Matam-nos agora mesmo.
Neste minuto, no mundo inteiro,
Matam os jovens.
Já sabem 10 mil maneiras de matá-los.
A cada ano novo inventam jeitos novos.
Nas selvas da África,
Nos pântanos da Ásia,
Nos desertos da Ásia,
Nas colônias penais da Sibéria,
Nas favelas das Zooropa,
Nas baladas das Américas,
Os assassinos trabalham.

Apedrejam Stephen,
Expulsam o menino da cada cidade do mundo.
Sobre a placa de bem-vindos,
Sobre o emblema do Rotary,
Nas pistas dos distritos,
Seu corpo repousa embaixo das pedras atiradas.
Ele era cheio de fé e de poder.
Ele operou grandes milagres em sua gente.
Não conseguiram ir contra sua sabedoria.
Não conseguiram suportar o espírito pelo qual aconselhava.
Ele gritava pelo nome
Do tabernáculo das testemunhas no meio da floresta.
E eles ficaram desolados.
E eles rangeram-no contra os dentes.
E eles gritaram com uma voz mais alta ainda.
E eles desligaram seus ouvidos.
E eles correram junto dele porque tinham um trato.
E eles o expulsaram da cidade e o apedrejaram.
As testemunhas se despiam das roupas
Defronte uma pessoa que tinha o teu nome –
Você.

O assassino é você.
Quem mata os jovens é você.
Quem assa Lawrence na grelha é você.
Quando exigiste que ele saísse a divulgar
Os tesouros escondidos no espírito,
Ele te mostrou os pobres.
Mas você já tinha se decidido contra ele.
Você o capturou e o isolou com raiva.
Você o fritou em fogo lento,
A gordura dele pingando e jorrando sobre as chamas.
O cheiro adoçando o teu nariz.
Ele gritava
“Já cozinhei deste lado,
Podem me virar e comer,
Vocês,
Comam de minha carne”

O assassino dos jovens é você.
Você atira flechas em Sebastian.
Ele foi inflexível na perseguição dos fiéis.
Primeiro você atirou as flechas.
E depois lhe deu uma surra de vara de pesca.
E depois o despejou no lixão.
O teu maior pavor é ver a coragem.
Você, que prefere olhar para qualquer outra coisa
Que não seja a bravura dos teus jovens.
Você,

A hiena de cara raspada e gravata borboleta,
Dentro de um escritório de bilhar de dólar
De alguma Corporação dedicada ao servir.
O abutre que sua podridão,
Cuidadoso e desleixado em linho roubado e importado,
Ensinando sobre a Era dos Excessos;
O chacal que usa jeans reforçado,
Latindo por controle remoto
Para as Organizações das Nações Unidas.
O morcego vampiro que senta-se à cadeira do chefão,
Caderneta nas mãos, brincando com seu descerebrador;
O câncer autônomo e ambulante,
O Superego de mil uniformes;
Você, o delator do hipopótamo,
O assassino da juventude.


II
O que aconteceu ao Robinson,
Que vinha sempre cambaleante de rua abaixo,
Mareado por ter tomado sozinho uma garrafa de rum?
Aonde foi parar o Masters, que viveu escondido
Em seu escritório de advocacia décadas ruidosas adentro?
Aonde está Leonard, que tinha certeza de que era
Uma locomotiva? E Lindsay,
Tão sábio quanto uma coruja, e tão inocente
Quanto uma serpente, aonde está ele?
          O medo da morte me perturba.

E o Jim Opperheim, virou o quê?
E Lola Ridge, que estava sozinha em
Um quarto mobiliado e gelado? E Orrick Johns,
Pulando surf adentro e só com
Uma perna? Elinor Wylie,
Que pulou igual ao Kierkegaard?
E Sara Teasdale, aonde está ela?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está George Sterling, aquele viado domado?
E Phelps Putnam, que roubava coisas?
E Jack Wheelwright, que não sabia passar os mata-burros?
E Donald Evans, sempre de bengala e monóculos, aonde está ele?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está Gould Fletcher, que não
Tinha como magoar seu poderoso coração?
E Bodenheim que foi esquartejado na maledeta
Squalor? E Edna Millay, que tomou o 
Úlitmo whiskey caubói? E Genevieve que
Amou por demais, aonde foi parar?
          O medo da morte me perturba.

E o Harry, que não estava nem aí pra merda?
E o Hart, que preferiu voltar para o mar?
          O medo da morte me perturba.

Aonde está Sol Funaroff?
E que fim levou o Potemkin?
E Isidor Schneider? E Claude McKay?
E Cauntee Cullen? E Clarence Weinstock?
Quem anima estes cadáveres hoje em dia?
          O medo da morte me perturba.

Que fim levou o Ezra, de personalidade estrondosa?
Aonde está o Larsson, dos poemas iguais a reza?
O que fizeram com Charles Snider, aquele menino
Amargo mas educado? E o Carnavali, onde o enfiaram?
E a Carol, que era tão bonita, aonde foi parar?
          O medo da morte me perturba.

III
Foi trágico e nobre o fim deles,
Igual à máscara do tirano?
Igual à face secreta de Agamenon?
Certamente que não. Até tarde da noite acordado
No ante castelo, abatido e confuso,
Sangrando pelo reto, e tinha nos
Bolsos uma crítica do único
Colega que respeitava, “Se ele quer
Mesmo dizer o que seus poemas
Fingem dizer, então para ele
Só resta uma alternativa -.” Adentro do
Quente e ácido sol do Caribe,
Adentro do ácido, transparente e
Nebuloso mar. Ou ainda um outro, cheio de piolhos
Nos sovacos e pela virilha, o lixo em litros
Sobre o piso, retalhos marrons e gordurosos espalhados
Pela cama. “Matei porque eram uns
Sujos e fétidos duns comunistinhas.
Deveriam me homenagear!” E de novo,
Um outro também, Simenon adivinhou
O fim que ia ter num instante. “Duvido
Que tú puxa o gatilho.” De olhos fechados, ela emborca
o gim sobre o vestido.
A arma oscilou para a mão dele.
Mas passou horas até morrerem.
Tem ainda uma outra, atirou-se escadas abaixo
E quebrou o pescoço. Foram anos para ela.
Tem ainda aqueles dois que mergulharam
Nas águas da banheira e encheram os pulmões.
Tem ainda aquele que se lançou pra baixo
Do trânsito intenso do alto de uma ponte.
Tem ainda aquela que estava bêbada
Pulou do terceiro andar mas quebrou o pescoço.
Tem ainda aquela que se ensopou em
Gasolina e correu igual bola de fogo
Pelas ruas e passou o resto da vida
Presa. Tem aquele que fez amor
Uma vez apenas com uma moradora de rua.
Morreu anos depois, sifilítico, atacou o
sistema nervoso e se alojou na coluna. Foram quinze
Anos de pobreza e de dor,
Enquanto sua mente vazava.
Tem ainda aquele que por três vezes durante vinte anos
Tentou se afogar. Na última vez
Teve sucesso. Tem ainda aquela que abriu o gás
Porque ela não tinha mais dinheiro, nem
Comida, e só metade de um pulmão.
Teve aquela menina que estava no Harlem, passou na
Mão de trinta caras, conseguiu chegar em casa e
Cortou a garganta. Tem ainda aquele
Cara que passou a noite em claro
Falando com H.L.Mencken para
Ir se afogar, de manhã cedinho.
Quantos pararam de escrever aos trinta?
Destes, quantos fugiram, trabalhando para a Time?
Destes, quantos tiveram morte por lobotomia no
Prefrontal pelo Partido Comunista?
E ainda, quantos estão perdidos nos fundos
Dos manicômios das províncias?
Quantos são os que, sob conselho de
Um psico-analista, decidiram que é mesmo
Bem melhor ter uma carreira se sucesso?
Quantos são os alcoólatras inveterados?
René Crevel!
Jacques Rigaud!
Antonin Artaud!
Maiakovski!
Iéssenin!
Robert Desnos!
Saint Pol Roux!
Max Jacob!
Ela está no mundo inteiro
A mesma mão desmembrada
Que abate a nossa gente.
Toma aqui uma montanha de morto.
Uma pilha de cabeças igual à que os Khans empilharam.
O primogênito de um século
Massacrado por Heródoto.
Três gerações de infantes
Recheiando lá embaixo o estômago de Moloch.

IV
Ele está morto.
O pássaro de Rhiannon.
Ele está morto.
No inverno do coração.
Ele está Morto.
Nos labirintos da morte,
Depois de muito tempo ele foi encontrado, mudo,
Dentro de uma tempestade de mentiras.
Ele nunca mais falou.
Porque morreu.
Ele está morto.
Foi em suas mãos assépticas que
Ele morreu.
O pequeno e fabuloso orador de Cader Idris.
Ele está morto.
O rouxinol do Cardife.
Ele está morto.
A cotovia de Swansea.
Quem o matou?
Quem matou o passarinho de cabelo claro?
Foi você mesmo, seu filho da puta!
Você o afogou no coquetel dos teus miolos.
Ele caiu e morreu dentro do teu coração artificial.
É você quem mata,
Oppenheimer seu um milhão de mortes,
É você quem mata,
Einstein sua iminência cinzenta.
É você quem mata,
Havanahavana, você e teu prêmio Nobel.
É você quem mata, General,
Por meio dos teus canais adequados.
É você quem estrangula, Le Mouton,
com suas mains étendues.
Ele confessou em audiência pública para uma caveira de pince-nez.
Quem atirou por trás da cabeça dele foi você
E ele tropeçava na última cela.
É você quem mata,
A Indesejada das Gentes no selo da correspondência.
Ele foi encontrado morto em um almoço dos Liberal Semanal.
Ele foi encontrado morto no chão da sala de edição.
Ele foi encontrado morto em uma conferência de política da Times.
Quem matou foi o telegrama de Henry Luce para o Papa.
A Mademoiselle estrangulou-o usando um soutien acolchoado.
O Velho Possum deu nele com um baile de chá!
Depois que os lobos acabaram, os profetas
Voltaram, arrastando com as tigelas de volta para suas salas e suas tabelas.
Quando falaram disso na tê vê,
Era você mesmo quem se levantava,gritando: “Devolva-nos Barrabás!”
E tua turba solitária andou e varreu com ele.
Teus cróquis de pé personalizados, e também tua sapatilha de ballet,
Esmurravam-no até morrer sobre a rua arenosa.
Você lhe deu uma surra com um disco de Hindemith.
É você quem esfaqueia, usando teu aço inoxidavel de Isamu Noguchi,
E que agora está morto.
Agora está Morto.
Igual a Ignacio, o toureiro,
Eram quatro horas da tarde.
Exatamente quatro horas.
Não quero ouvir dizer disso.
Não quero nem saber disso tudo.
Só quero sair correndo pela rua,
Gritando, “Lembrem-se de Vanzetti!”
Quero derramar gasolina tuas chaminés abaixo.
Quero explodir tuas galerias.
Quero destroçar teus escritórios editoriais.
Quero entalhar as barrigas de tuas mulheres frígidas.
Quero afundar teus navios e teus portos.
Quero estrangular os teus filhos em suas garatuchas manuais.
Quero envenenar teus afegões e teus poodles.
E agora está morto, meu pequeno e ébrio querubim.
Que agora está morto,
O emérito percursionista corporal.
Agora está morto.
Os pássaros sempre vivos não cantam mais
Para a cabeça de Bran.
Os pássaros marinhos também estão quietos
Desde Bardsey dos Dez Mil Santos.
O pessoal no metrô também não canta
Mais enquanto vai para o trabalho.
E tem um cheiro de sangue
Dentro do cheiro da cinza das horas.
Eles chegaram até ele,
O filho de David Ap Gwylin.
E eles o mataram,
O bebê de Taliessin.
Lá jaz ele morto,
Junto ao continente congelado que é das ONU.
Lá jaz ele, encaixotado,
Aos pés da Estátua da Liberdade.
A Corrente do Golfo fede a sangue
Quando rebenta nas areias do Iona
E nas montanhas azuis de Canarvon.
É quando todos os pássaros vêm à tona do fundo do mar,
Sobrevoam os transatlânticos luxuriosos gritando
“Vocês mataram! Foram vocês quem mataram-no!
Vestindo seus malditos ternos dos Brooks Brothers,
Seus filhos da puta.”