Duas canções, duas traduções

salve salve, meu bom povo & minha boa pova desta querida & neurastênica, mas não plana!, bloguesfera nossa de cada dia! está no ar mais um “Duas canções, duas traduções”.

é tão covarde tirar uma música do contexto em que ela está inserida quanto tirar uma frase do contexto em que foi produzido: os sentidos estão eternamente em rotação&resignificação, e só com todo o material (o tal do ”contexto”) em mãos é possível chegar a um significado mais “correto”, ou pelo menos, mais perto da proposta de quem enunciou. podem ficar tranquilos que, quando apresento alguma música aqui, passei os olhos no disco, ouvi, analisei, interpretei & brinquei pingue-pongue com a budega inteira por um bom tempo, antes de passar à transcriação propriamente dita.

o nome desta seção deveria ser “montado no ombro dos gigantes”!

a atração de hoje é um Bob Dylan, não tão polêmico quanto o anterior, & uma tentativa de levar ao idioma de Shaguespeare as letras de Renato Russo&Sua Real Companhia Ilimitada.

a primeira vez que o mundo ouviu “The ballad of a thin man” foi em 30 Agosto de 1965, quando lançaram o disco “Highway 61 revisited” – que no meu português de caipira ficou “Bê Érre 101 revisitada”. estão neste álbum pedradas importantíssimas da história de Dylan, como “Like a rolling stone” e “Desolation row”. até o fechamento desta edição, o bardo de Duluth, Minnesota, declara 1237 exibições públicas desta música, desde sua primeira exibição pública, em 28 de Agosto de 1965, no estádio de Tenis de Forest Hills, Nova Uórque.

acho que esta foi a primeira música de Dylan que traduzi. do catálogo dele foi a que mais demorou a atingir um estado de maturação – a tal da transcriação. até recentemente, ainda não sabia bem como cantar os versos de refrão, depois de cada uma das 7 estrofes, mas agora acho que já consegui resolver este problema. o vídeo a seguir ilustra a música bem perto de ficar pronta:

ainda sobre o disco: ele é um dos álbuns de Dylan em que o letrista coloca um textão de “notas de rodapé” – quando a gente abre o disco de vinil, & tem um monte de surpresas – quase uma historinha – além da playlist & da ficha técnica. às vezes fotas. quem gravou, quem arranjou, quem produziu quando em qual estúdio. o original, vou deixar neste uébi link direcionado, porque não é o foco do estudo de hoje (clicar em “show all \\|// expandir” da caixinha “liner notes”), mas a minha versão, quem estiver acessando aqui, pode ler e conferir se o que o prêmio Nobel de Literatura do ano de 2016 está fazendo é literatura ou é música. incrusive, quem tiver a resposta, que atire a primeira pedra!
bob-dylan-highway-61-2

No trem devagar o tempo não interfere & na cruzada Arábica espera Pilha Branca, o homem do jornal & ao seu lado a centena de Inevitáveis feitos de sólidas pedra & rocha — o Juiz Creme & o Palhaço — a casinha de bonecas em que Selvagem Rosè & Fixável moram humildes em sua selvagem e maliciosa natureza . . . . Autono, que tem dois zeros acima das fuças e argumenta acerca do sol estar escuro ou ser Bach tão famoso quanto seu distúrbio & que é ela mesmo — e não Orfeu — a poeta lógica “Eu sou a poeta lógica” ela gritava “Primavera? A Primavera é só o começo!” ela tenta deixar o Juiz Creme com inveja contando a ele sobre o povo que mora debaixo-da-terra & enquanto o universo explode, ela aponta para o trem devagar rezando para que a chuva e o tempo interfiram — ela não está muito gorda mas ao contrário disso progressivamente infeliz. . . .a centena de Inevitáveis esconde suas previsões & vão para os bares & bebem & ficam bebassos de sua maneira muito especial e consciente & quando tom dooley, o tipo de gente que você se lembra de já ter visto antes, chega de passeio com Pilha Branca, a centena de Inevitáveis dizem todos “quem é esse cara branco por demais?” & o garçom, menino bom & um outro que sempre mantém os brios à flor da pele, dizem, “eu não o conheço, mas é certeza que já ví o outro camarada n’algum outro lugar” & quando Paulo Sargento, homem de trajes simples de lá da Rua 4, aparece às três da manhã & prende todo mundo por estarmos sendo incríveis, ninguém ficou brabo de verdade — só o mínimo de anafalbetismo que a maioria das pessoas entende & Roma, um da centena de Inevitáveis, segreda “Eu te avisei” a Madama João . . . . Selvagem Rosè & Fixável assopram beijocas corajosas para Hexagrama Jade da Rua Carnaby & para todos as jovens misteriosas & o Juiz Creme escreve um livro sobre o puro significado de uma pêra — ano passado, foi um sobre cachorros ilustres da guerra civil & agora ele tem dentes falsos & nenhum filho. . . . quando o Creme conheceu Selvagem Rosè & Fixável, ele lhes foi apresentado por ninguém menos que Futilidade — Futilidade é o Grande Inimigo & sempre usa um protetor nos quadris — ele é muito dos protetores de quadris . . . . Futilidade disse enquanto apresentava o pessoal “vá salvar o mundo” & “envolvimento! este é o assunto!” & coisas assim & Selvagem Rosè piscou para Fixável & o Creme foi embora com o braço numa tipóia cantando “summertime & the linvin is easy” . . . . o palhaço aparece — veste com uma mordaça a boca de Autono dizendo “existem dois tipos de gente: as simples & as normais” isto normalmente extraía grandes risadas da caixa de areia & Pilha Branca espirra — desmaia & rasga a mordaça de Autono & diz “Que conversa é essa que você é Autono e que sem você não haveria a primavera! sua tola! sem a primavera, você não existiria! o que você acha disto?” e daí Selvagem Rosè & Fixável vêm também & o chutam nos miolos & o pintam de rosa por ser um filósofo de mentirinha — daí surge o Palhaço que grita “Seu filósofo de mentirinha” & pula sobre a sua cabeça — Paulo Sargento surge novamente vestindo roupa de árbitro & algum moleque do colegial que já leu tudo do Nietzsche surge & diz “Nietzsche nunca vestiu roupas de árbitro” & Paulo diz “Quer comprar umas roupas, meninão?” & então Roma & João saem do bar & eles estão indo até o Harlem . . . . hoje cantamos sobre a GANGUE DO ARRASTÃO — a GANGUE DO ARRASTÃO compra, é dona & opera a Fábrica da Insanidade — para quem não sabe onde fica a Fábrica da Insanidade, deve por causa disso dar dois passos para a direita, pintar os dentes & ir dormir . . . . as músicas neste disco em específico não são exatamente músicas mas ao invés disso exercícios de respiração para controle tonal. . . . o assunto é o que importa — e por mais insignificante que seja — tem alguma coisa a ver com os belíssimos estranhos. . . . os belíssimos estranhos, a jaqueta verde de Vivaldi & o santíssimo trem devagar.

você está certo john cohen — quazimodo acertou —  mozart acertou . . . . não consigo mais dizer a palavra olho. . . . quando falo esta palavra olho, é como se falasse do olho de alguém que vagamente me recordo. . . . não existe olho algum — existe apenas várias bocas — vida longa às bocas — o seu telhado — se ainda não percebeu — foi demolido. . . . o olho é um plasma & você está certo sobre esta também — você tem sorte — você não tem que pensar sobre coisas tais como olhos & telhados & quazimodo.

 Bob Dylan – guitarra, gaita, piano e viatura da polícia
Michael Bloomfield – guitarra
Alan Kooper – órgão e piano
Paul Griffin – piano e órgão
Bobby Gregg – bateria
Harvey Goldstein – baixo
Charles McCoy – guitarra
Frank Owens – piano
Russ Savakus – baixo

OoO–OoO

TH3 84LL4D 0F 4 7H1N M4N (Robert Allen Zimmerman, a.k.a. Bob Dylan) &t A 84LL4D4 DUM M46R0 H0M3M (r.l.almeida)
1.
You walk into the room with your pencil in your hand
You see somebody naked and you say, “Who is that man?”
You try so hard but you don´t understand
            Just what you will say when you get home

Você entrou no quarto, segura o lápis nas mãos
Você viu alguém pelado e diz, “Quem será o irmão?”
Você tentou tudo, mas não entendeu nada não
            O que se vai dizer lá pra patroa?

r.
Because something is happening here
But you don´t know what it is
Do you, mister Jones?

Porque alguma coisa acontece aqui
E você não sabe bem o que é
Ou sabe, senhor Jones?

2.
You raise up your head and you ask, “Is this where it is?”
And somebody points to you and says, “It´s his!”
And you say, “What is mine?” and somebody else says, “Where what is?”
            And you say “Oh my God, am I here all alone?”

Você levantou a cabeça e pergunta, “O lugar é este aqui?”
E alguém mais aponta você e diz, “É dele ali!”
E você, “Bem, qual é o meu?” e ainda um outro alguém “Ué, então, e
aí?”
            E você, “Ó meu Deus, será que sou eu só?”

3.
You hand in your ticked and you go watch the geek
Who immediately walks up to you when he hears you speak
A
nd says, “How does it feel to be such a freak?”
            And you say, “Impossible!”, as he hands you a bone.

Você entregou a entrada e vai ver a aberração
Que imediatamente anda até você, ouviu tua respiração
E diz “Como é pra você ser assim tão esquisitão?”
            Impossível: ele te estende um ossão!

b.
You have many contacts among the lumberjacks
To get you facts when somebody attacks your imagination
But nobody has any respect, and anyway they already expect you
            To give a check
            To tax-deductible
            Charity organizations

Você tem muitos fornecedores entre os tais dos lenhadores
Pra te dizer verdades quando agridem a tua imaginação
Mas ninguém respeita nada, não, todos eles só querem saber se
            Você já assinou o cheque
            Doou toda a renda
            Pra organização

4.
You have been with the professors and they all liked you looks
With great lawyers you have discused lepers and crooks
You have been through all of F Scott Fitzgerald´s books
            You are very well read, it is well known

Você esteve com os estudados e todos curtiram teu perfil
Com grandes advogados sobre a lepra e o escorbuto você discutiu
Você já leu tudo do F.  Scot  t   Fitz    geral    dô
            Você é bem lido, sabe-se bem disso

5.
Well, the sword swallower he comes up to you and ten he kneels
He crosses himself and then he clicks his high heels
And without further notice he asks you, “How it feels?”
            And he says, “Here is your throat back, thanks for the loan!”

Lembra do engole-espadas? Ele vem até você e se ajoelha
Se faz o sinal da cruz e bem alto tamanqueia
E sem ninguém notar te pergunta, “Como vai tua orelha?
Aqui tua garganta, agradeço o uso!”

6.
Now you see this one eyed-midget shouting the word “Now!”
And you say, “For what reason?”, and he says, “How?”
And you say, “What does this mean?”, and he screams back, “You
re a cow!
            Give me some milk or else go home

Você viu o anão caolho grita a palavra “Tão!”
E você, “Pra que isso?”, ele diz “Vão!”
E você, “Qual o sentido disso?”, ele grita “Volta! Você é uma vaca!
            Dê-me um leite ou vá pra casa!”

7.
Well, you walk into the room like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket, and your nose on the ground
There oughta be a law against you coming around
            You should be made to wear earphones

Você entrou no quarto igual a um camelo se jogou no chão
Guardou os olhos no bolso, deixou o nariz no porão
Deve existir alguma lei que não te deixa aparecer, não
            A gente tinha que ter os rádios bem no meio das fuças!

01

frontispício original da loucura!


      cito mais uma vez os Nobel para dar continuidade a este artigo, & aproveito a oportunidade para chorar: o Brasil ainda não tem um Nobel de Literatura – nem da Paz, nem da Química, nem da Física, nem da Medicina. e nem da Economia, sr. Supermi-mi-ministro… na seara da Literatura temos uma infinidade de nomes que certamente NÃO ganhariam o prêmio, & um seleto grupo que poderia comover a academia sueca: Lia Luft, Lígia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony, Machadão, Lima Barreto, Ferreira Gullar. se fizermos o paralelo do prêmio com a música, adiciona também Noel Rosa, Cazuza & Renato Manfredini Russo Júnior neste distinto panteão de batalha.

Legião Urbana é um capítulo à parte da música brasileira – uma aventura que vai de 1978 a 1996, com a morte do letrista. existe muita menção ao roquenrou de Brasília, & dos grupos que se encontraram por lá, como Os Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e Capital Inicial. era tudo uma grande tribo punk, ou até mesmo uma família punk, que frequentava os shows e ensaios uns dos outros.

a faixa que arrisco uma versão em inglês fecha o terceiro disco da Legião Urbana, “Que país é este (1978/1987)”, lançado em novembro de 1987. esta é uma das poucas faixas que é composta pelo grupo em sua totalidade. neste disco estão pedradas como “Faroeste caboclo”, “Química” & “Tédio (com um T bem grande pra você)”. foi considerado o retorno da banda às origens do bate-cabelo, com letras de denúncia & de consciência, por meio de um olhar afiadamente político. & por falar no idioma inglês, lembro bem do Acústivo MTV, em que o antigo professor de inglês ensinava: “Querem cantar em inglês? Então canta assim!”, & emendava um “Head on”, dos Jesus And Mary Chain.

M415 D0 M35M0 (Renato Rocha, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos &t Renato Russo) &t M0R3 FR0M TH3 S4M3 (r.l.almeida)

1.
Ei, menino branco, o que é que você faz aqui
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem e você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?

Hey you little white boy, what are you doing right here
You cross valleys when you looking for some fun
A new supply has not arrived, i need a little something more
Would you just leave me alone?

2.
Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
Enquanto tem chacina de adolescentes?
Como é que você se sente?

In all those twenty years not a single has been good to me
and yet you want me to let it be like you, just like a rocking rolling stone
And in here we do not roll
Who will take care of those harmed people?
Or of the killing of young children?
Tell me how does you feel it?

r.
Em vez de luz tem tiroteio
No fim do túnel
O ooo o mas é sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

Instead of light, we saw gunfighting
Ending the tunnel
O owo o it is always more from the same
It was not this you were willing to hear?

3.
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como eu penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer
Um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando
Sucessos populares (todos os índios, índios, índios)
Todos os índios foram mortos

So kind you have explained with all that clarivoiancè
This is exactally how i fell and how i think and what am i
I just have never realised
You have the courage to ask
For a portrait of the nation
But they have burned out the reel
While we are speaking, at the infirmary
All the bruised people, they sing together
The songs they can remember
All of the indians, they were shooted, slaughtered

o nome desta seção definitivamente deveria ser “Assaltaram a gramática!” =b